|
A - I n f o s
|
|
a multi-lingual news service by, for, and about anarchists
**
News in all languages
Last 40 posts (Homepage)
Last two
weeks' posts
Our
archives of old posts
The last 100 posts, according
to language
Greek_
中文 Chinese_
Castellano_
Catalan_
Deutsch_
Nederlands_
English_
Français_
Italiano_
Polski_
Português_
Russkyi_
Suomi_
Svenska_
Türkçe_
_The.Supplement
The First Few Lines of The Last 10 posts in:
Castellano_
Deutsch_
Nederlands_
English_
Français_
Italiano_
Polski_
Português_
Russkyi_
Suomi_
Svenska_
Türkçe_
First few lines of all posts of last 24 hours |
of past 30 days |
of 2002 |
of 2003 |
of 2004 |
of 2005 |
of 2006 |
of 2007 |
of 2008 |
of 2009 |
of 2010 |
of 2011 |
of 2012 |
of 2013 |
of 2014 |
of 2015 |
of 2016 |
of 2017 |
of 2018 |
of 2019 |
of 2020 |
of 2021 |
of 2022 |
of 2023 |
of 2024 |
of 2025 |
of 2026
Syndication Of A-Infos - including
RDF - How to Syndicate A-Infos
Subscribe to the a-infos newsgroups
(pt) Italy, FAI, Umanita Nova #8-26 - Utopias e Autoritarismo na Década de 1968-1977 (Parte Um). Artigo apresentado na Conferência de Carrara (11 e 12 de outubro de 2025) por ocasião do 80º aniversário da FAI. (ca, de, en, it, tr)[traduccion automatica]
Date
Thu, 16 Apr 2026 07:33:10 +0300
A Revolta se Espalha - O Mundo Muda ---- Ao abordar o período do final
da década de 1960 ao início da década de 1980, sempre nos deparamos com
avaliações conflitantes. Quando não há um manto de silêncio, muitas
vezes nos deparamos com uma mistificação que visa descrevê-lo
exclusivamente como um período de violência, subversão, derramamento de
sangue e crime: em suma, os "Anos de Chumbo". Outros, no entanto,
definem esses anos simplesmente como "formidáveis", cedendo à exaltação
do período vivenciado como o mais belo, aquele que transformou a vida
cotidiana, no qual se expressou a necessidade de comunidade e liberdade,
e que testemunhou a transformação das relações de gênero, a revolução
sexual, o questionamento de instituições totalitárias como prisões e
hospitais psiquiátricos, a inovação da linguagem artística e musical, e
assim por diante.
Para compreender seu verdadeiro significado e sua real importância, é
necessário, portanto, reconstituir suas etapas mais significativas.
Em primeiro lugar, devemos ter em mente o contexto internacional da época.
Nos Estados Unidos, durante esses anos, desenvolveu-se um forte
movimento estudantil juvenil contra a Guerra do Vietnã e o envio de
tropas, com ocupações de universidades e campi, como a Universidade
Columbia, que foi invadida pela polícia na primavera de 1968, resultando
em 700 prisões e 150 feridos. Afro-americanos lançaram movimentos
protestando abertamente contra o racismo e o autoritarismo que permeavam
a sociedade americana, sofrendo dura repressão (lembremos o assassinato
de Martin Luther King, seguido pouco depois pelo do senador Robert
Kennedy). A morte de Che Guevara em outubro de 1967 na Bolívia, durante
uma guerra de guerrilha, afetou profundamente o imaginário da juventude
da época, após a Revolução Cubana, apesar de seu declínio autoritário,
ter inspirado grande parte da oposição política e social ao imperialismo
norte-americano.
Mas, ao longo de 1967, mobilizações e lutas surgiram em resposta à
intensificação da intervenção dos EUA no Vietnã, ao ressurgimento da
ditadura de Franco na Espanha, ao golpe de Estado dos coronéis gregos e
à guerra entre Israel e os países árabes. Manifestações e protestos
foram generalizados. Em abril de 1968, violentos protestos estudantis
irromperam na Alemanha contra um projeto de lei que suspendia as
garantias democráticas. Um ataque neonazista feriu gravemente Rudi
Dutschke, líder do movimento. A resposta foi forte, mas limitada, e em
maio as "leis de emergência" foram aprovadas pelo parlamento. Também em
maio, a Universidade Sorbonne, em Paris, foi ocupada e depois fechada
pelas autoridades. Milhares de jovens foram às ruas e entraram em
confronto com a polícia. O movimento se espalhou para os locais de
trabalho e, após a convocação da greve geral, assumiu um caráter
pré-insurrecional. O general De Gaulle contou com o apoio do exército e
da direita social e assinou, em conjunto com os sindicatos, a concessão
de aumentos salariais.
Na África, que lutava contra a descolonização, destacam-se exemplos na
Argélia, onde os protestos estudantis foram reprimidos a ponto de levar
ao fechamento da Universidade de Argel, enquanto as oportunidades para a
autogestão camponesa foram reduzidas. Outro exemplo é o Senegal, onde
estudantes e trabalhadores convocaram uma greve geral, à qual o governo
respondeu com a ocupação militar da Universidade de Dakar. No México, em
3 de outubro de 1968, o exército abriu fogo contra estudantes que
protestavam na Praça das Três Culturas, na capital, matando trinta,
enquanto no dia anterior, em Tlalelolco, havia massacrado trezentos
estudantes que se manifestavam contra a corrupção governamental. Na
Ásia, devastada pelas guerras do Vietnã e do Laos, estudantes no Japão
se uniram em organizações revolucionárias como a Zengaku-Ren, sem medo
de confrontar a polícia, armados com longas varas de madeira ou bambu,
para protestar contra uma sociedade hiperautoritária, rígida e
classista, e contra a presença de navios americanos em portos japoneses
após o massacre de fuzileiros navais na vila vietnamita de My Lay, que
matou 300 mulheres, idosos e crianças.
Sinais de rebelião também surgiram nos países satélites da União
Soviética, no Leste Europeu, dominados por uma burocracia em ruínas.
Violentos confrontos irromperam em Varsóvia contra a proibição da
apresentação de uma peça que evocava a opressão czarista e contra a
presença policial em universidades e escolas secundárias. O movimento na
Checoslováquia - a Primavera de Praga - foi também em grande parte
resultado dessa mobilização juvenil, que levou membros do Partido
Comunista Checoslovaco, como Dubcek, a proporem a ideia de um
"socialismo com rosto humano", para inaugurar um período de reformas
estruturais, posteriormente esmagado pelos tanques do Pacto de Varsóvia.
E em Belgrado, também, todas as universidades foram ocupadas.
Quanto à Itália, desde o final da década de 1950, o país tem sido
afetado pelas consequências de um intenso processo de industrialização e
de fortes movimentos migratórios internos, num contexto de poder
político cada vez mais conservador e reacionário.
Em julho de 1960, uma explosão inesperada de lutas e protestos eclodiu,
em parte fora das normas tradicionais. Foi o caso da grande manifestação
estudantil e operária realizada em Gênova, em resposta à tentativa do
MSI (Partido Socialista Italiano), de orientação neofascista, de
realizar seu congresso nacional na cidade, com o apoio dado ao governo
democrata-cristão de Tambroni. Gênova, particularmente afetada pela
ocupação nazista e fascista durante a Segunda Guerra Mundial, possui uma
forte tradição de resistência operária, entrelaçada com uma
significativa presença libertária. Os violentos confrontos entre
manifestantes e a polícia foram o primeiro sinal de que as coisas
estavam mudando; o rígido controle do Partido Comunista sobre os
trabalhadores estava enfraquecendo e as primeiras formas embrionárias de
autonomia e auto-organização começavam a surgir.
Mas não foi apenas Gênova; Licata, Roma, Reggio Emilia, Palermo e
Catânia foram os locais onde os confrontos foram mais violentos, com a
polícia registrando 11 mortes e inúmeros feridos. Após os eventos de
julho de 1960, o crescimento do poder da classe trabalhadora foi
evidenciado pela revolta operária de 1962 na Piazza Statuto, em Turim -
três dias de confrontos - contra os acordos entre a Fiat, a UIL e os
sindicatos pró-patronais. Em outubro do mesmo ano, ocorreram os
distúrbios em Milão, com a morte do estudante universitário Giovanni
Ardizzone durante uma manifestação contra o bloqueio americano a Cuba.
A formação de um governo de centro-esquerda em 1963, com a entrada dos
socialistas, pareceu inaugurar uma nova fase na vida do país, mas as
ambições dos 'progressistas' foram logo frustradas pelos 'poderes
constituídos', que não hesitaram em orquestrar tentativas de golpe: o
protagonista foi o general dos Carabinieri, De Lorenzo, e seu 'Solo de
Piano' em 1964.
Os conflitos e manifestações recomeçam, muitas vezes violentamente
reprimidos pela polícia. A máfia agrária mata sindicalistas e
trabalhadores rurais na Sicília; fascistas em Roma espancam até a morte
o estudante socialista Paolo Rossi durante um ataque à Faculdade de
Letras (1966).
Entre os jovens, surgiu uma ampla atividade contracultural, centrada na
crítica aos estilos de vida e ao consumismo. Formaram-se coletivos e
grupos, e importantes grupos se consolidaram em torno de revistas e
organizações como 'Mondo Beat' e 'Onda Verde', que, inspiradas pela
experiência holandesa do movimento Provos, reafirmaram a centralidade
das necessidades humanas na Itália, opondo-se à motorização desenfreada
em prol da socialização do transporte, da contracepção gratuita e da
ocupação de casas vazias. A música desenvolveu uma linguagem diferente,
as letras romperam com a tradição musical italiana e surgiram cantores e
compositores, além de grupos juvenis, que se inspiravam em parte na
então vanguardista tradição anglo-saxônica e em parte trilhavam novos
caminhos. Essa nova presença musical e contracultural, por um lado, é
fruto de uma mudança contínua; por outro, impulsiona novas
transformações em uma sociedade italiana profundamente diferente da que
conhecemos hoje: uma sociedade permeada pelo fanatismo, amplamente
dominada pela Igreja, com uma televisão de canal único rigidamente
controlada pelos democratas-cristãos, remetendo à antiga moralidade da
sacristia. A mídia burguesa torna-se porta-voz da intolerância
reacionária e conservadora em relação às preocupações da juventude,
noticiando com arrogância os cortes de cabelo daqueles conhecidos como
"cabeludos" por imitadores de esquadrões fascistas. Em junho de 1967, a
polícia invadiu o acampamento "Mondo Beat" em Milão e o arrasou:
centenas de prisões e ordens de expulsão foram emitidas contra beats,
provos e, de fato, "cabeludos".
Esse tipo de sociedade moralista e intolerante já não consegue lidar com
as crescentes demandas por mudança. Cada vez mais pessoas consideram
essa situação inaceitável. É justamente nesse contexto que surgem as
organizações estudantis, as primeiras expressões de autonomia que rompem
com as organizações tradicionais que reuniam jovens estudantes
interessados em política, como a FUCI (Federação das Universidades
Católicas Italianas) e outras organizações ligadas a partidos e
estruturas políticas que visam cooptar os jovens e integrá-los ao
sistema partidário tradicional.
Enquanto os estudantes desejam romper com esse moralismo intolerante,
bem como com um sistema escolar autoritário e uma universidade que serve
aos interesses do capital, a classe trabalhadora exige cada vez mais
liberdade das amarras das barreiras salariais, das longas jornadas de
trabalho e das condições de trabalho deploráveis, da hiperexploração e
da alienação da linha de montagem. A questão da moradia e do acesso a um
nível mínimo de serviços sociais também se torna crítica.
Esses eventos e essas efervescências também contribuíram para o
desenvolvimento de uma série de iniciativas juvenis na Itália e em
outros países, expressões de natureza potencialmente radical e
revolucionária. Não se tratavam apenas de lutas por reivindicações
políticas, como as dos trabalhadores da Puglia e da Calábria, ou dos
operários e funcionários da Fiat; ou de ocupações universitárias
temporárias, como as de Pisa e Bolonha em solidariedade aos combatentes
da resistência grega, espanhola e vietnamita. Houve, em essência, uma
primeira ruptura com as práticas políticas de oposição então em voga -
na época, o PCI era o partido de oposição dominante - a partir de
diversas experiências contraculturais, do Mondo Beat, das comunidades
hippies e dos chamados filhos das flores, que defendiam uma visão de
mundo totalmente diferente da dominante. Essas experiências, mesmo que
hoje trivializadas, representaram algo significativo não apenas em
termos qualitativos, mas também quantitativos. Um levantamento dessas
realidades foi realizado: em 1967, por exemplo, estimou-se que 7.000
jovens na Itália participaram dessas iniciativas. São pessoas que
adotaram um estilo de vida comunitário e alternativo. Trinta mil na
Escandinávia, 26 mil na França, 20 mil na Holanda, 18 mil na Inglaterra,
e assim por diante; trata-se de um movimento transversal que atravessa a
Europa e se apresenta como uma oposição radical aos valores da sociedade
dominante. Esse tipo de experiência constituirá, posteriormente, um
elemento significativo do terreno fértil a partir do qual brotarão os
movimentos dos anos seguintes.
As primeiras ocupações das universidades
Em 1967, começaram as primeiras ocupações universitárias: Palazzo
Campana em Turim, Nápoles, Cagliari e Lecce; Sociologia em Trento;
Universidade Sapienza em Pisa; Arquitetura em Roma; Universidade
Católica de Milão contra o aumento das mensalidades, entre outras. Essas
ocupações inauguraram uma era completamente nova, rompendo com as
práticas vigentes de pequenos grupos representando partidos políticos,
contato com o parlamento e negociações de deputados com a Reitoria, e
demonstrando um crescente desejo de participação que logo se transformou
em participação em massa. Entre outras coisas, formariam ali os
primeiros grupos de liderança do Movimento Estudantil e diversos grupos
extraparlamentares. Em Milão, Mario Capanna, líder da luta na
Universidade Católica, foi expulso e matriculado na Universidade
Estadual de Milão, uma universidade pública onde trilharia um caminho
diferente, que o levaria a liderar o Movimento Estudantil. Em Turim,
foram lançadas as bases da Lotta Continua. Em Pisa, nasceu o 'Il Potere
Operaio'.
Com a chegada de 1968, novas ocupações ocorreram em outras cidades, e os
estudantes começaram a tecer uma ampla rede de conexões entre as
diversas universidades. No início do ano, 36 universidades haviam sido
ocupadas em toda a Itália, juntamente com várias escolas de ensino
médio, enquanto a repressão se intensificava: em Turim, cem estudantes
foram suspensos dos exames por um ano; em Nápoles, estudantes e
professores foram acusados pela ocupação de abril de 1967; em Pisa e
Palermo, a polícia reprimiu violentamente as marchas estudantis. Grupos
neofascistas também se mobilizaram, atacando as ocupações e agredindo
estudantes.
Paralelamente aos protestos estudantis, desenvolveu-se também o
movimento feminista: surgiram o coletivo feminista Lotta, o grupo
Rivolta Femminile, entre outros. A luta nas universidades - apoiada pela
crescente presença de mulheres no ensino superior - incentivou a
liderança feminina, desafiando, assim, os papéis estabelecidos na
família e na sociedade. A importância da reflexão sobre o próprio corpo,
dissociada da alçada dos especialistas masculinos, acompanhou-se à luta
pela libertação sexual. Nesse contexto, compreendemos a importância de
questões como divórcio, aborto, igualdade de direitos e oportunidades e
igualdade salarial no pensamento e na mobilização das mulheres.
Em 8 de março de 1972, as mulheres tomaram as ruas de Roma com toda a
sua energia de protesto, e a polícia as atacou, enviando várias para o
hospital. Em 1974, elas demonstrariam um forte compromisso em repelir a
tentativa de revogar a lei do divórcio e em obter o controle total sobre
seus corpos, que havia sido impedido por leis punitivas contra o aborto.
Mas foi em 1977 que o movimento feminista expressaria toda a sua
vitalidade e sua capacidade de mobilizar e influenciar toda a sociedade,
revolucionando efetivamente a ordem patriarcal vigente.
Lutas autônomas nas fábricas
A luta na fábrica da Marzotto em Valdagno, em abril de 1968, foi marcada
por violentos confrontos entre trabalhadores e a polícia: 42
trabalhadores foram presos. Na Falk, todos os 13.000 trabalhadores
entraram em greve, assim como 40.000 metalúrgicos em Bolonha, 2.000
trabalhadores da indústria de massas em Torre Annunziata e 7.000 na
Italsider em Nápoles. Na Rhodiatoce em Casoria, 1.800 trabalhadores
entraram em greve por tempo indeterminado. Em seguida, vieram os
ferroviários, os trabalhadores têxteis, os operários, os trabalhadores
do setor calçadista, os marítimos, os da Italcantieri e da Pirelli, da
Italsider e da Eridania, e da Olivetti; a estas, somaram-se as greves
gerais nas áreas atingidas pelo terremoto e em Palermo, as dos
trabalhadores petroquímicos em Porto Marghera e as dos metalúrgicos. Em
Avola, a polícia matou a tiros dois operários, e em Bussola, Viareggio,
feriram gravemente um jovem de 16 anos, Soriano Ceccanti, que
participava dos protestos de trabalhadores e estudantes na véspera do
Ano Novo dos Ricos e ficou paralítico.
As greves estão se espalhando cada vez mais, afetando todas as categorias.
Os acontecimentos internacionais, com a brutal repressão dos protestos
estudantis mexicanos que causou centenas de mortes, a natureza radical
de maio de 1945 na França, os golpes de Estado no Brasil e no Panamá e o
ressurgimento da agressão dos EUA no Vietnã, inflamaram ainda mais o
clima geral.
Desenvolvem-se lutas autônomas, especialmente no nível da fábrica, e
sobretudo na Fiat em Turim.
Anteriormente, existiam pequenos grupos "heréticos" que se apoiavam em
revistas como "Quaderni Piacentini" e "Quaderni Rossi", que promoviam
análises e debates entre militantes que haviam dissolvido os Partidos
Comunista e Socialista. Em 1956, a invasão soviética da Hungria causou
grandes repercussões tanto nos Partidos Comunista e Socialista quanto na
CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho), desencadeando um intenso
debate no qual a crítica ao stalinismo ganhou força. Isso desafiou uma
ampla gama de afiliações e posições, gerando formas de expressão
crítica, reinterpretação, distanciamento e desapego. Nos mesmos anos, a
Revolução Cultural Chinesa emergiu como uma força capaz de revitalizar
não apenas as ações de Mao Tsé-Tung e do Partido Comunista Chinês, mas
também o marxismo-leninismo, que havia sido sufocado pela burocracia e
pelo autoritarismo da União Soviética. As ações da Guarda Vermelha -
conforme interpretadas por muitos jovens manifestantes - tiveram um
efeito disruptivo sobre a ortodoxia geral dominante em nosso país,
graças à hegemonia do PCI, incentivando o surgimento de pequenos grupos
comunistas italianos, um reflexo do maoísmo em todas as suas variantes.
Essas presenças críticas crescem em harmonia com o movimento que está
irrompendo, com os estudantes universitários que organizam ocupações,
com as lutas dos operários de fábrica, a começar pela Fiat.
A Itália, naqueles anos, estava saindo de um período de intensa
imigração interna e já não era o país rural do início da década de 1950.
A reconstrução pós-guerra foi marcante e vigorosa, e o desenvolvimento
industrial foi particularmente significativo no Norte, onde as fábricas
agora precisavam de mão de obra. Muitos trabalhadores pouco qualificados
do Sul foram forçados a entrar na estrutura de linha de montagem das
fábricas taylorizadas, baseadas em tempos de produção fixos. Além disso,
grandes fábricas estavam localizadas em cidades como Turim e Milão, que
eram essencialmente hostis e pouco acolhedoras: algumas placas diziam:
"Não alugamos para sulistas aqui" (assim como hoje lemos: "Não alugamos
para marroquinos aqui"; entre outras coisas, os sulistas naquela época
eram chamados, além de terroni, de marocchini). Essa condição de
marginalização e subordinação significa que não é mais possível imaginar
o comportamento dos trabalhadores dentro de estruturas sindicais
construídas para outro tipo de trabalhador, capaz de "farejar moscas",
como se dizia antigamente - ou seja, um ferramenteiro com um nível
extremamente alto de habilidades manuais, que representava o que poderia
ser brevemente chamado de aristocracia operária, funcional aos processos
de produção e com uma capacidade de negociação definida. Os que chegam
do Sul, por outro lado, são trabalhadores não qualificados que, na
verdade, se ressentem da disciplina fabril, construída sobre esse outro
perfil de trabalhador e voltada para a valorização desse tipo de
profissionalismo.
Isso gera espontaneamente uma revolta que o sindicato é incapaz de
controlar imediatamente - ou mesmo a médio prazo - porque o sindicato
também se baseia em figuras profissionais tradicionais. Essa
insubordinação operária contribui para o surgimento desse grande ciclo
de lutas que permitirá conquistas significativas, mas que, ao mesmo
tempo, pressionará o capital e os empregadores a reestruturarem
completamente a fábrica, introduzindo mecanismos de automação capazes de
eliminar, tanto quanto possível, formas de trabalho de fato incontroláveis.
À medida que essas formas de autonomia dos trabalhadores ganhavam vida,
todos aqueles pequenos grupos que haviam se formado anteriormente,
aqueles coletivos estudantis e universitários que expressavam sua
autonomia e cultura em relação à dominante e que até então se
manifestavam unicamente nos métodos de transmissão do conhecimento, na
elaboração dos planos de estudo, na condução das aulas, etc., passaram a
compreender que a luta não era mais apenas uma questão estudantil (entre
outras coisas, alguns falavam em poder estudantil, deixando clara a
possibilidade de os estudantes aspirarem a se tornar uma nova "classe"
que substituiria seus pais no governo do país).
Uma espécie de "saída" às fábricas teve início, com a distribuição de
jornais e panfletos e piquetes nos portões, apoiados por estudantes.
Essa troca entre estudantes e trabalhadores encontrou uma síntese
significativa em alguns grupos, especialmente nos grupos Lotta Continua
e Potere Operaio, que posteriormente deram origem a movimentos
particularmente representativos do período.
Máximo Varengo
https://umanitanova.org/utopie-e-autoritarismi-nel-decennio-1968-1977-prima-parte-relazione-presentata-al-convegno-di-carrara-11-12-10-2025-nell80-della-fai/
_________________________________________
A - I n f o s Uma Agencia De Noticias
De, Por e Para Anarquistas
Send news reports to A-infos-pt mailing list
A-infos-pt@ainfos.ca
Subscribe/Unsubscribe https://ainfos.ca/mailman/listinfo/a-infos-pt
Archive http://ainfos.ca/pt
A-Infos Information Center