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(pt) Brazil, OSL, Libera #183 - ANARQUISMO E MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL (1903-2013) - Felipe Corrêa, Rafael Viana da Silva e Kauan Willian dos Santos (ca, de, en, fr, it, tr)[traduccion automatica]
Date
Thu, 12 Feb 2026 06:43:40 +0200
Desde que o anarquismo é anarquismo, não tem pregado outra coisa senão a
ação direta das massas contra os burgueses, pela associação, pela
colaboração dos sindicatos, pelas greves, pela sabotagem, por todos os
processos imagináveis.José Oiticica, 1923 ---- Gratifica-nos muito esta
oportunidade de dar continuidade ao esforço que temos empreendido no
sentido de retomar a história do anarquismo no Brasil, especialmente
quando isso se faz desde um enfoque nos movimentos sociais. Ocorre no
Brasil algo similar ao que se passa em outros países: apesar da
relevância histórica do anarquismo e de seu papel fundamental nas lutas
sociais e populares dos trabalhadores, ele continua - mesmo que haja
valorosos esforços em sentido contrário - a ser ignorado, difamado e
maltratado, tanto na historiografia, quanto em outros campos do
conhecimento e da política. Inimigos, adversários e mesmo pessoas afins
com o anarquismo têm contribuído para isso. (Corrêa e[Rafael]Silva,
2015, pp. 15-19)
Quando falamos em anarquismo e movimentos sociais no Brasil, entendemos,
em primeiro lugar, que o anarquismo é uma ideologia, uma doutrina
política, um tipo de socialismo libertário e revolucionário que surgiu
na Europa na segunda metade do século XIX, e que se consolidou entre o
fim dos anos 1860 e o início dos anos 1880 em distintos continentes. O
cerne de seus fundamentos ideológicos e doutrinários encontra-se em três
aspectos: 1.) na crítica radical do capitalismo, do Estado e de todas as
formas de dominação; 2.) na defesa intransigente de um projeto
autogestionário, que implica a socialização generalizada da propriedade,
do poder político e do conhecimento; 3.) numa estratégia classista, em
que trabalhadores e oprimidos em geral convertem sua capacidade de
realização em força social e, por meio de um enfrentamento marcado pela
coerência entre meios e fins, promovem uma revolução social e constroem
uma sociedade de igualdade e liberdade plenas. (Corrêa, 2015, pp. 115-202)
Entendemos ainda, em segundo lugar, que termos como "movimento
anarquista" (Dielo Truda, 2017; Van der Walt, 2019a, pp. 14-15) ou
"movimento social anarquista" (Bookchin, 2011, p. 118) - mesmo que
venham sendo utilizados por pesquisadores bastante respeitáveis, e
também por militantes das fileiras anarquistas que, frequentemente, se
reconhecem como parte de um movimento comum - não são os mais adequados,
principalmente quando se referem a contextos amplos. Isso porque, mesmo
com a grande pluralidade conceitual na literatura que aborda os
movimentos populares e o sindicalismo - ou aquilo que poderíamos chamar,
de modo mais generalizante, de movimentos sociais - quando se conceitua
o tema, normalmente se levam em conta pessoas em relações constantes,
articulações mais ou menos duráveis e sustentadas no tempo e no espaço,
assim como ações coletivas mais ou menos organizadas de oprimidos contra
opressores. (Cf., por exemplo: McAdam, Tarrow e Tilly, 1996; Antunes,
2003; Corrêa, 2011; Van der Walt, 2019a, 2019b)
E não é possível dizer que os anarquistas tenham atuado, globalmente, em
seus 150 anos de existência, como um movimento. Isso nem mesmo pode ser
afirmado quando se trata de uma realidade nacional, como no caso do
Brasil, sobretudo quando se tomam em conta os longos períodos. É verdade
que, em variados momentos, o anarquismo converteu-se em amplos e
massivos movimentos sociais, em particular quando construiu o
sindicalismo revolucionário e o anarcossindicalismo. No caso brasileiro,
não parece haver dúvida que isso se deu, principalmente, durante as
primeiras décadas do século XX, quando a maior parte dos anarquistas
investiu na construção do sindicalismo revolucionário, forma hegemônica
de movimento social de trabalhadores naquele então.
De qualquer forma, não consideramos apropriado nos referir ao anarquismo
como movimento anarquista ou movimento social anarquista. Parece-nos
mais acertado falar que o anarquismo - por meio dos anarquistas -, em
distintos contextos, articulou-se e organizou-se de maneira a criar e
fortalecer movimentos sociais, algumas vezes tendo protagonismo e
constituindo a força política hegemônica, e outras vezes participando
como força política minoritária ou oposição nesses movimentos. Portanto,
pensamos ser mais adequado enfatizar que os anarquistas investiram
historicamente na construção de diferentes movimentos sociais, os quais
estiveram vinculados a distintas pautas e envolveram outras forças
políticas.
* * *
É exatamente isso que pretendemos retratar - de maneira bem breve e
concisa, é verdade, graças ao restrito espaço do qual dispomos - nas
próximas páginas. Nelas, discutiremos o anarquismo e os movimentos
sociais no Brasil, por meio de uma abordagem ampla, que busca apreender
os grandes aspectos que marcaram o longo período de 110 anos
compreendido entre 1903 e 2013.
A escolha desse enfoque temporal justifica-se, por um lado, porque ele
toma como marco inicial o ano de 1903 - quando, desde essa perspectiva
dos movimentos sociais, o anarquismo passa a ter uma existência concreta
no Brasil, por meio do sindicalismo revolucionário - e procede ao
período mais comumente estudado, entre 1900 e 1930. Por outro lado, este
texto também aborda o período posterior, bem menos estudado - em que o
anarquismo, apesar de ter perdido bastante força, esteve longe de
desaparecer do cenário político e social - e chega até bem recentemente,
no ano de 2013, quando uma nova conjuntura se inaugura no Brasil.
Fazemos essa discussão dividindo o texto em cinco partes, ao mesmo tempo
temporais e temáticas. As duas primeiras - uma sobre o sindicalismo
revolucionário e outra sobre as iniciativas educativas e culturais -
abordam o período áureo do anarquismo no país, a Primeira República,
quando os anarquistas, num contexto de desenvolvimento republicano,
rápida industrialização e grande imigração, foram hegemônicos no
movimento sindical e no movimento educativo-cultural da classe
trabalhadora. A terceira parte discute os trabalhos anarquistas na
educação, na cultura e no sindicalismo durante a Era Vargas e a
Redemocratização. Trata-se de um período de crise do sindicalismo
revolucionário e do anarquismo que, num momento de desenvolvimento
econômico e entre períodos de ditadura (1937-1945) e abertura política
(1946-1964), os anarquistas continuaram a desenvolver, mesmo que sob
refluxo, atividades mais ou menos vinculadas ao campo dos movimentos
sociais.
A quarta parte aborda os tempos de ditadura militar, período de maior
crise e menor atividade (semiclandestina) dos anarquistas, que sofreram
com a repressão, o autoritarismo e o nacionalismo dos militares, mas
mantiveram acesa a chama de seus ideais, retomando suas atividades na
medida em que a tormenta reacionária perdia força. A quinta discute a
reabertura da Nova República, um período de ressurgimento e
rearticulação nacional do anarquismo, que se fortalece principalmente a
partir dos anos 1990 num contexto marcado pelo neoliberalismo. Desde
então, alguns movimentos sociais foram criados pelos anarquistas e
vários deles têm contado com sua participação, majoritária ou
minoritária, a depender do momento.
* * *
Nesses 110 anos, a contribuição do anarquismo ao campo dos movimentos
sociais é significativa, tanto no campo da prática quanto da teoria. Os
anarquistas buscaram construir aquilo que se pode chamar de um
"contrapoder" e uma "contracultura revolucionária" (Van der Walt, 2019a,
p. 15), por meio de movimentos sindicais, educativo-culturais e outros.
E, com isso, desenvolveram, em consonância com outras localidades, um
acúmulo teórico de como esses movimentos deveriam ser levados a cabo
para promover uma revolução socialista e libertária.
Nesse campo, as realizações dos anarquistas no Brasil foram notáveis:
envolveram-se diretamente na criação dos primeiros "sindicatos de
resistência"; construíram, no início do século XX, um movimento sindical
e educativo-cultural potente e revolucionário, alçando-se a sua força
política hegemônica. Naqueles anos, chegaram a protagonizar insurreições
e greves gerais revolucionárias. Ao longo dos anos, publicaram inúmeros
jornais, livros e uma enorme quantidade de material de informação e
propaganda; fundaram e envolveram-se decididamente com escolas e
universidades populares, onde desenvolveram projetos de educação formal
e política. Criaram e participaram, como força majoritária ou
minoritária, a depender do contexto, não apenas de movimentos sindicais
e educativo-culturais, mas também de movimentos estudantis,
comunitários, sem-teto, sem-terra, desempregados, contraculturais entre
outros. Construíram centros de cultura, ateneus e promoveram, entre os
trabalhadores e jovens, iniciativas vinculadas ao teatro, às bibliotecas
e ao lazer em geral. Envolveram-se com greves mais e menos amplas,
protestos e manifestações de rua.
Em linhas muito gerais e sem grande homogeneidade, esse foi o
ferramental tático utilizado para promover a estratégia anarquista nos
movimentos sociais. Referindo-se aos princípios históricos anarquistas,
os anarquistas buscaram reforçar a independência e a autonomia dos
movimentos em relação às instituições do capital e do Estado, assim como
combater sua burocratização; enfatizaram a necessidade de movimentos
combativos, apoiados na ação direta e no protagonismo nas bases;
defenderam processos de democracia direta, autogestão e federalismo para
as tomadas de decisão; enfrentaram o reformismo e tentaram conciliar as
lutas de resistência ou por conquistas imediatas com as posições
revolucionárias.
1. SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO NA PRIMEIRA REPÚBLICA (1903-1930)
A conformação do anarquismo no Brasil deu-se entre os fins do século XIX
e início do século XX, como resultado de distintas experiências de luta
e resistência dos oprimidos, que incluem greves, revoltas populares,
colônias agrícolas/experimentais, produções artísticas/culturais. Sua
história envolve não apenas imigrantes europeus - em especial italianos,
espanhois e portugueses, que tiveram presença marcante no Brasil (Godoy,
2018, p. 84) -, mas se entrelaça também com lutas de trabalhadores
negros que ocorreram antes da abolição da escravidão, em meio à fundação
de sociedades de resistência, associações de socorros mútuos e
sociedades beneficentes (Mattos, 2007, pp. 1-5).
Tal processo deu-se em profundo vínculo com o surgimento do movimento
sindicalista revolucionário brasileiro. De maneira geral, pode-se
afirmar que, no Brasil, desde os fins do século XIX, os anarquistas
contribuíram determinantemente para promover essa forma de sindicalismo,
ainda que se deva destacar que, em sua expressão concreta durante a
Primeira República, a estratégia do sindicalismo revolucionário não pode
ser considerada uma obra exclusiva dos anarquistas. Em termos de
experiência organizativa, e no enfoque dos movimentos sociais, a
referência desse momento inicial foi a fundação, em 1903, no Rio de
Janeiro, da Federação das Associações de Classe, inspirada - graças aos
contatos epistolares e presenciais com o estrangeiro, assim como à
imigração de trabalhadores - pelo sindicalismo da Confédération Générale
du Travail (CGT) francesa.
Como sequência desse processo - e conformando aquele que seria o grande
marco da emergência do anarquismo e do sindicalismo revolucionário no
Brasil - ocorreu, em abril de 1906, no Centro Galego, também no Rio de
Janeiro, o Primeiro Congresso Operário. Esse congresso recebeu 43
delegados de 28 associações de diversas partes do país, incluindo não só
o Rio de Janeiro, mas também São Paulo, Rio Grande do Sul e Alagoas.
Convocado inicialmente por setores reformistas do operariado, esse
congresso teve presença massiva de anarquistas, de modo que suas teses
relativas ao sindicalismo revolucionário tornaram-se hegemônicas.
(Samis, 2004, pp. 134-135; Oliveira, 2018, p. 215; Antunes, 2003, p. 41)
Dentre suas diversas deliberações, o congresso aconselhou "o
proletariado a organizar-se em sociedades de resistência econômica[...],
sem abandonar a defesa, pela ação direta, dos rudimentares direitos
políticos de que necessitam as organizações econômicas", e também, "pôr
fora do sindicato a luta política especial de um partido e as
rivalidades que resultariam da adoção, pela associação de resistência,
de uma doutrina política ou religiosa, ou de um programa eleitoral";
estabeleceu como princípio organizativo o "método federativo".1 (COB,
1969a, pp. 117, 121)
Resolveu também articular uma Confederação Operária Brasileira (COB) -
que seria fundada em 1908, e chegaria a reunir, nos anos seguintes, mais
de 50 sindicatos articulados, sobretudo na "Federação Operária do Rio de
Janeiro (FORJ), na Federação Operária de São Paulo (FOSP) e na Federação
Operária do Rio Grande do Sul (FORGS)", que conformavam as "principais
bases de sustentação da confederação, mas também na Federação Socialista
Baiana, na Federação de Santos, entre outras". (Toledo, 2013, p. 14)
As influências dos anarquistas no movimento sindical podem ser
comprovadas nas posições de A Voz do Trabalhador, jornal da COB:
O que desejamos, e havemos de conseguir, custe o que custar - é a
emancipação dos trabalhadores da tirania e da exploração capitalista,
transformando o atual regime econômico do salariato e do patronato num
regime que permita o desenvolvimento das organizações de
produtores-consumidores, cuja célula inicial está no atual sindicato de
resistência ao patronato. Como meio prático, como método de luta para
alcançar tal denderatum, adotará e usará o sindicalismo revolucionário.
(AVT, 1908, p. 1)
Alguns dos fundamentos da concepção anarquista de sindicalismo estão
resumidos nessas posições e nas resoluções do primeiro congresso que
foram citadas: a oposição ao capitalismo, a defesa da luta de classes,
da ação direta dos sindicatos de trabalhadores, da independência
política e religiosa desses sindicatos, e das reivindicações imediatas
que pudessem apontar para uma ruptura revolucionária.
Foi por meio dessa estratégia, o sindicalismo revolucionário, que
ocorreu a ascensão do movimento operário no Brasil, entre 1905 e 1908,
com um aumento das mobilizações e do trabalho de organização e com a
irrupção de greves em Santos (1905 e 1908), dos ferroviários da
Companhia Paulista (1906), dos sapateiros no Rio de Janeiro (1906) e dos
trabalhadores de São Paulo pelas oito horas (1907). Entre 1909 e meados
de 1912, o movimento viveu um refluxo, com pouco trabalho de organização
e mobilização. De meados de 1912 a meados de 1913, houve uma retomada do
movimento, com uma greve em São Paulo, em maio de 1912, e com a
realização, em setembro de 1913, no Rio de Janeiro, do Segundo Congresso
Operário, que confirmou novamente a hegemonia anarquista no movimento
sindical e reforçou as teses do sindicalismo revolucionário. (Addor,
2002, pp. 85-86; COB, 1969b, p. 324)
Até 1916, o movimento operário brasileiro enfrentou outro refluxo,
graças à conjuntura econômica e aos efeitos da Primeira Guerra, apesar
de surgirem neste contexto organizações como a Federação Operária de
Alagoas, em 1913, e a Federação de Resistência dos Trabalhadores
Pernambucanos, em 1914.
De 1917 a 1920 constitui-se a conjuntura de maior mobilização da classe
trabalhadora na Primeira República, com episódios como a greve geral em
São Paulo (1917) - que contou 70 mil trabalhadores paralisados -, a
greve generalizada no Rio de Janeiro (1917), a greve geral de Curitiba
(1917) a greve dos trabalhadores da Companhia Cantareira e Viação
Fluminense (1918) e a Insurreição Anarquista (1918), que se juntam a um
imenso número de greves, manifestações e protestos massivos, avanço na
sindicalização, crescimento da imprensa operária e no aumento na crença
de que uma transformação social radical era possível.
Em 1919, merece destaque também a mobilização da União dos Operários em
Construção Civil (UOCC) e a conquista das oito horas para toda a
categoria; em 1920 foram relevantes o nascimento da Federação Operária
Mineira e a realização do Terceiro Congresso Operário. Destacam-se,
ainda, entre 1917 e 1922, numerosos protestos em Pernambuco, na Bahia e
no Rio Grande do Sul. Em muitos casos, as reinvidações dos trabalhadores
foram conquistadas: oito horas diárias de trabalho, equiparação de
salários entre homens e mulheres, fim do trabalho infantil entre
outras.2 (Addor, 2002, pp. 91-144; Samis, 2004; Toledo e Biondi, 2014,
pp. 363-393)
As décadas de 1920 e 1930 marcarão uma crise do anarquismo e do
sindicalismo revolucionário; contribuíram para ela ao menos quatro
fatores. Primeiro, a repressão, operada pela deportação, apoiada nas
leis de expulsão de imigrantes, pelas prisões arbitrárias e até mesmo
pelo envio de militantes a um campo de trabalho forçado em Clevelândia,
no Oiapoque. Segundo, a crescente interferência estatal no sindicalismo,
por meio de órgãos como a Confederação Sindicalista Cooperativista do
Brasil, e também do atrelamento completo dos sindicatos ao Estado,
sacramentado entre 1930 e 1932 pelo governo Vargas. Terceiro, pela
criação do Partido Comunista Brasileiro em 1922, com marcante presença
de antigos anarquistas, e que passou a disputar mais decididamente o
movimento sindical com os anarquistas, defendendo bandeiras como a
vinculação partidária e estatal dos sindicatos. Por fim, a dificuldade
na articulação de um campo político próprio dos anarquistas, em nível
mais ou menos nacional. (Santos, 2018, pp. 89-92; Oliveira, 2018, pp.
231-239; Romani, 2003)
2. EDUCAÇÃO E CULTURA POPULAR NA PRIMEIRA REPÚBLICA (1903-1930)
Juntamente com o sindicalismo revolucionário, e em grande medida como
seu complemento, desenvolveu-se, no Brasil da Primeira República um
verdadeiro movimento educativo-cultural, que encontrou lastro em
periódicos, livros, universidades populares, escolas, centros de
cultura, ateneus, grupos de teatro, bibliotecas, festas e festivais
operários. Tais ferramentas foram comuns para a difusão do ideário
anarquista e sindicalista revolucionário no país, e contribuíram tanto
para alfabetizar e educar formalmente os trabalhadores, muitos
analfabetos, quanto para instrui-los politicamente e criar uma cultura
política libertária. (Castro, 2017, pp. 133-204)
Antes mesmo do sindicalismo de influência anarquista, houve um conjunto
de medidas nesse campo educativo-cultural que merecem destaque. Por um
lado, a resolução do Congresso Socialista de 1894 de comemorar,
oficialmente, a partir de então, o Primeiro de Maio no Brasil. (Lopes,
2015, p. 219) Por outro, e de maneira bem mais determinante, a
publicação de jornais. Os pioneiros foram: Gli Schiavi Bianchi (1892),
L'Asino Umano (1893) e L'Avvenire (1894), publicados por imigrantes
italianos. No Rio de Janeiro, os primeiros periódicos anarquistas foram
O Despertar (1898) e O Protesto (1899). (Batalha, 2000, p. 23; Santos,
2018, p. 75)
De 1903 até o final dos anos 1920, um conjunto enorme de periódicos foi
publicado. Dentre os mais importantes, estão:
O Amigo do Povo (fundado em 1902 em São Paulo), La Battaglia (fundado em
1904 em São Paulo), A Luta (fundado em 1906 no Rio Grande do Sul), A Voz
do Trabalhador (fundado em 1908 no Rio de Janeiro), A Plebe (fundado em
1917 em São Paulo), A Hora Social (fundado em 1919 em Pernambuco). Tal
produção editorial envolvia uma complexa rede de editores, autores e
leitores, geralmente formada por trabalhadores autodidatas, que
escreviam, traduziam, produziam e distribuíam conteúdo com o intuito de
internalizar e difundir ideias, assim como propagar estratégias
políticas e sociais.3 (Toledo e Biondi, 2014, pp. 375, 388, 441; Godoy,
2018, pp. 79-93)
Ainda no campo da produção editorial, outro aspecto relevante foi a
publicação, no início do século XX, de obras marcadamente doutrinárias
do anarquismo: livros traduzidos de Élisée Reclus, Errico Malatesta,
Jean Grave, Saverio Merlino, Piotr Kropotkin, Carlo Cafiero e, em menor
frequência, de Pierre-Joseph Proudhon e Mikhail Bakunin. Outro tipo de
produção unia a literatura aos objetivos ideológicos. Um marco dessa
experiência foi o livro O Ideólogo, de 1903, escrito pelo médico
anarquista Fábio Luz, que inaugurou o gênero do romance social no país.
Entre 1903 e 1925, Fábio Luz, Avelino Fóscolo, Manuel Curvello de
Mendonça e Domingos Ribeiro Filho - principais referências, nesse
estilo, do universo literário libertário - publicaram 25 romances,
contos e novelas. (Luizetto, 1986, pp. 134-135, 142).
O Primeiro Congresso Operário, de 1906, ao mesmo tempo, contribuiu para
o desenvolvimento das iniciativas educativas e culturais, encaminhando a
criação de universidades populares e escolas laicas, que deveriam estar
vinculadas às associações operárias. (Machado, 2017, pp. 53-56) A
primeira escola operária surgida por influência anarquista foi a Escola
União Operária, no Rio Grande do Sul, em 1895. Mas, a partir do
congresso, o movimento de fundação de escolas espalhou-se pelo país,
com: a Escola Eliseu Reclus, em Porto Alegre; a Escola Germinal, no
Ceará; a Escola da União Operária, em Franca; a Escola da Liga Operária,
em Sorocaba; a Escola Operária 1º de Maio, no Rio de Janeiro; a Escola
Moderna, em Petrópolis; a Escola Moderna nº 1, em 1912, e a Escola
Moderna nº 2, em 1913, ambas em São Paulo. Tais escolas funcionaram
vinculadas ao movimento sindicalista e revolucionário até 1919, quando
tiveram problemas, dentre outras coisas, com a repressão. (Castro, 2017,
pp. 175-181; Moraes, 2006, pp. 17-21)
Outro aspecto a ser mencionado foi a ação pedagógica anarquista que se
deu nos centros de cultura e ateneus, cujo objetivo era "complementar a
educação dos trabalhadores", "criar um vínculo com os operários" e
"aumentar o número de militantes simpáticos ao pensamento libertário".
Cursos de datilografia, idiomas, contabilidade, assim como festas,
conferências, corais e declamação de poesias também eram realizados
nesses espaços. Algumas dessas iniciativas visavam angariar fundos para
dar suporte aos sindicatos ou mesmo às iniciativas anarquistas.
Houve, ainda, ações de solidariedade a militantes eventualmente enfermos
ou em apoio a revistas e iniciativas internacionais. (Moraes, 2000, pp. 6-7)
Em relação ao lazer dos trabalhadores, podemos destacar duas
experiências importantes: as festas operárias e os festivais. Tais
atividades, que mesclavam o lúdico e os objetivos propagandísticos, eram
feitas em salões operários ou ao ar livre, e contavam geralmente com a
apresentação de grupos teatrais formados pelos próprios operários. O
teatro operário desse período tinha como formato, em geral, o melodrama
e folhetim, e eram vinculados a sindicatos ou centros operários.
As peças também eram encenadas com objetivos de angariar fundos para
algum periódico ou, simplesmente, entreter os trabalhadores, difundindo
a perspectiva política anarquista e sindicalista. (Hipólide, 2012) O
período de maior vigor desses festivais foi a década de 1920,
sobressaindo-se na participação o Grupo Arte e Instrução, o Grupo de
Teatro Social, o Grupo Dramático Germinal entre outros. Tais grupos
contavam com orquestras (geralmente alugadas) e corpo cênico, eram
constituídos por trabalhadores e sindicalistas, muito dos quais
anarquistas, e não raro encenavam peças traduzidas do exterior. (Ramos,
2009)
A mencionada crise dos anos 1920 e 1930 que afetou o sindicalismo
revolucionário, e por consequência o anarquismo, também incidiram nesses
instrumentos educativos e culturais.
3. EDUCAÇÃO, CULTURA e SINDICALISMO NA ERA VARGAS E NA REDEMOCRATIZAÇÃO
(1930-1964)
Essa crise terminou subsidiando a afirmação de alguns autores - como,
por exemplo, Dulles (1977, pp. 159-193) - de que os anos 1930 teriam
marcado o fim do sindicalismo revolucionário no Brasil e, mesmo, da
influência anarquista no movimento sindical. No entanto, essa
constatação não está correta. E mesmo o diagnóstico de que, "sem espaços
para inserção[...]os libertários passam a se organizar em grupos de
cultura e preservação da memória", é bastante questionável. (Samis,
2004, p. 181)
Ainda que num contexto de crise e refluxo, os anos 1930 contaram com
presença e influência dos anarquistas nos sindicatos, algo que se
confirma pelos próprios agentes da repressão e pela atuação de
organismos sindicais como a Federação Operária de São Paulo (FOSP), que,
naqueles anos, tinha ainda centenas de filiados. Além disso, importantes
periódicos como A Plebež O Trabalhador e A Lanterna seguiram sendo
publicados e, dentre outras coisas, demonstravam o vivo interesse dos
anarquistas nos movimentos sociais. (Silva[Rodrigo], 2018) Enfim, as
experiências das décadas posteriores ainda atestam que o sindicalismo,
mesmo sob forte crise e refluxo, continuou a ser um espaço buscado pelos
anarquistas, tendo ocorrido alguns casos modestos de presença e
inserção. (Silva[Rafael], 2017)
Passado o crítico período da ditadura do Estado Novo, entre 1937 e 1945
- em que os anarquistas tiveram de operar de maneira quase clandestina,
graças à enorme repressão -, as atividades militantes foram sendo
retomadas. Com a redemocratização, passaram a rearticular sua imprensa;
em São Paulo, destacam-se os jornais A Plebe (1947-1960, editado por
Edgar Leuenroth) e O Libertário, que o substituiu nos anos 1960; no Rio
de Janeiro, destacam-se Remodelações (1945-1947, editado pelo cearense
Moacir Caminha), Ação Direta (1946-1959, editado por José Oiticica) e O
Archote.
Dois objetivos para aquele momento eram apontados nas páginas dos
periódicos anarquistas. Primeiro, empreender esforços para a formação de
uma organização política anarquista de amplitude nacional - tarefa que
entendiam ter deixado de lado no passado. Naquele contexto de Guerra
Fria e de alinhamento do governo Dutra aos EUA, os anarquistas buscavam
apresentar uma via distinta e para além da polarização entre o
"socialismo" real e capitalismo. Segundo, retomar o trabalho nas
entidades sindicais; para tanto, era necessário conceber estratégias
adequadas para lidar com os dois adversários que hegemonizavam o
movimento sindical brasileiro: os trabalhistas e os comunistas.
(Silva[Rafael], 2018a, pp. 301-303)
Aproveitando uma onda de mobilizações sindicais entre 1945 e 1946, que
colocavam em crescente conflito as bases de trabalhadores e as direções
trabalhistas, os anarquistas passaram a concentrar-se na formação de
grupos de oposição sindical, ainda em 1946. A primeira iniciativa foi
formação, em São Paulo, da União Proletária Sindicalista, que teve curta
duração. Na categoria dos trabalhadores da Light, no Rio de Janeiro, os
anarquistas formaram, com outros trabalhadores, um Grupo de Orientação
Sindical dos Trabalhadores da Light, que editou um jornal específico
para as questões da categoria, o UNIR. Este jornal, segundo relato dos
próprios militantes nas páginas de Ação Direta, vinha "difundindo
naquela empresa de transportes, os princípios do sindicalismo
revolucionário e de ação direta, em frente aos demagogos de partidos
políticos e do Ministério do Trabalho".
Ondas sindicais massivas estouraram em meados dos anos 1950; em São
Paulo, chegaram a reunir, em greve, 300 mil trabalhadores em 1953, e 400
mil em 1957. Aproveitando esse fluxo de mobilização, os anarquistas
conformaram, junto com os socialistas independentes, ainda em 1953 em
São Paulo, o Movimento de Orientação Sindical (MOS), que propunha "lutar
pela completa autonomia e liberdade dos sindicatos de Trabalhadores" e
que disputou uma chapa na categoria dos gráficos, em 1957.
(Silva[Rafael], 2018a, pp. 311-314)
O período pós-1945 também permitiu o desenvolvimento de iniciativas
educativas e culturais. Em São Paulo, o Centro de Cultura Social (CCS) -
que havia sido fundado em 1933 e fechado pela repressão em 1937 -
reabriu em meados de 1945, vinculando-se às tentativas de reorganizar a
ação sindical anarquista e realizando conferências, palestras e
espetáculos teatrais. Promoveu saraus literários, editou livros,
organizou exposições artísticas e cursos, auxiliando "a fundação de
centros com igual finalidade em subúrbios de S. Paulo e em outras
cidades". (CCS, 1945, pp. 2-3) No Rio de Janeiro, um espaço similar foi
fundado em 1958 e manteve-se funcionando até 1968: o Centro de Estudos
Professor José Oiticica (CEPJO), que, do mesmo modo, organizou cursos,
palestras e atividades de debate; ajudou, ainda, a fundar, em 1961, uma
editora anarquista: Mundo Livre.
A redemocratização vinha se caracterizando por uma lenta retomada das
atividades anarquistas. No campo sindical, algumas vezes em aliança com
outros setores da esquerda, os anarquistas rompiam a inatividade do
período ditatorial da Era Vargas, ainda que encontrassem dificuldades
nas disputas com o corporativismo, o PCB e o PTB. No campo educativo e
cultural, havia uma limitação grande de militantes e recursos
financeiros, que se explicava, como que num círculo vicioso, pela
dificuldade de garantir presença e influência mais massiva nos
movimentos sociais. Contudo, essa retomada foi dificultada pelo golpe
militar de 1964, que colocou a militância em estado incerteza e, um
pouco adiante, sob forte repressão.
4. EDUCAÇÃO, CULTURA, MOVIMENTO ESTUDANTIL E SINDICALISMO NA DITADURA
MILITAR (1964-1985)
Se, antes de 1964, o anarquismo estava enfraquecido, procurava restituir
suas bases sociais e crescer num período de polarizações e dúvidas, com
o golpe e o início da ditadura militar, as coisas complicaram ainda
mais. Os anarquistas decidiram então operar com cautela, priorizando
seus espaços de educação e cultura, mais discretos frente aos radares da
repressão. "Vivia-se uma ditadura suficientemente forte para reprimir os
movimentos sociais e políticos, mas taticamente moderada para permitir
que a esquerda derrotada na política parecesse triunfar na cultura".
(Napolitano, 2014, pp. 97-98) Iniciativas marcantes nesse campo foram: a
editora anarquista Germinal, do Rio de Janeiro, e o jornal Dealbar, de
São Paulo - o qual teve 17 números publicados, entre 1965 e 1968 e, por
meio de uma linguagem inovadora, abordou questões como cultura, racismo,
saúde, psicologia e guerra fria.
Antes do AI-5, mantinham-se em funcionamento o CCS, em São Paulo, e o
CEPJO, no Rio de Janeiro, aproximando e formando jovens interessados no
anarquismo. Depois, no fim dos anos 1960, com o grande aumento da
repressão e o fechamento desses centros pela ditadura, esses jovens -
como Milton Lopes, do Rio de Janeiro, à época estudante - ocorriam na
residência de militantes como médico Ideal Peres e sua companheira
Esther Redes. Ali eram recebidos, estudavam e eram orientados pelos
anarquistas mais antigos. (Silva[Rafael], 2018b)
Muitos desses jovens eram estudantes, que usufruíam da grande ampliação
do ensino superior ocorrida nas décadas anteriores. (Toledo, 2014, p.
97) Algo que tinha impacto direto no fortalecimento e nas disputas do
movimento estudantil. Conjugada à ação de velhos militantes anarquistas,
a publicação do jornal libertário O Protesto fez com que, em dezembro de
1967, fosse fundado o Movimento Estudantil Libertário (MEL), reunindo
algumas dezenas de militantes do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Rio
Grande do Sul. O movimento foi fundado com a intenção de "fixar posição
e dar combate", assim como "ter presença ativa nas lutas de classe e
ideológicas marcando rumos mais de acordo com os princípios
federalistas, que devem reger a vida de toda organização de classe".
(ENEL, 1967, pp. 6-7) Também pretendia interferir na União Nacional dos
Estudantes e construir outra referência política, estudantil e libertária.
Mas a repressão, que se aprofundada e se refinava com o tempo, impediu
que se colhessem mais frutos dessas iniciativas. Depois do assassinato
do estudante Edson Luis, no Rio de Janeiro, e da promulgação do AI-5,
tanto o MEL quando o CCS e o CEPJO foram duramente perseguidos. Membros
do MEL e do CEPJO - o qual teve sua sede invadida, em outubro de 1969,
por agentes da Aeronáutica, resultando em 18 detidos e processados -
foram presos e torturados, dentre os quais Ideal Peres, que permaneceu
um mês detido. Entre 1972 e 1977, graças a esse complicado contexto, os
anarquistas conseguiam apenas reunir-se em pequenos grupos e sustentar
uma existência quase clandestina; Foi, decerto, em termos organizativos,
o pior momento do anarquismo no Brasil. (Dias, 2012; Rodrigues, 1993;
Silva[Rafael], 2018c)
Essa situação modificou-se apenas em 1977, quando a ditadura perdia
força, com a publicação do periódico anarquista O Inimigo do Rei, na
Bahia. Participavam do grupo editor militantes estudantis e sindicais,
não só da Bahia, mas também do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Rio
Grande do Sul, da Paraíba e do Pará; contribuíam, não sem conflitos
internos e divergências doutrinais, com a reorganização do anarquismo, e
discutiam, dentre outros assuntos e sob forte influência da
contracultura, temas como sindicalismo revolucionário,
anarcossindicalismo, movimento estudantil, e também relativos a gênero,
sexualidade e teoria política. O jornal funcionou até 1982 e, depois de
um longo intervalo, foi retomado entre 1987 e 1988.
Nesse mesmo período ocorreram as primeiras tentativas de uma retomada do
trabalho anarquista nos sindicatos. Elas ocorreram depois de uma forte
onda sindical no Brasil, que envolveu mais de 40 mil trabalhadores, e
questionavam a estrutura sindical burocratizada, que já marcava o
chamado novo sindicalismo. Em São Paulo, foi criado o Coletivo
Libertário de Oposição Sindical (COLOPS) que tinha proximidade com as
ideias da Oposição Operária Metalúrgica. O COLOPS organizou-se durante o
I Encontro Nacional dos Trabalhadores em Oposição à Estrutura Sindical
(ENTOES), que reuniu, em setembro de 1980, em Niterói, oposições
sindicais de 16 estados do país. Também funcionou em São Paulo o
Coletivo Libertário do Funcionalismo, que, após realizar um balanço
crítico das lutas do funcionalismo nos anos 1980, ensaiou articulações
nas categorias dos bancários e da educação. (Silva[Rafael], 2018b, pp.
351-372)
5. RESISTÊNCIA CONTRA O NEOLIBERALISMO, MOVIMENTOS POPULARES E
SINDICALISMO NA NOVA REPÚBLICA (1985-2013)
O contexto de reabertura, de estabelecimento da Nova República e da
ascensão do neoliberalismo no Brasil contou com a presença de inúmeros
movimentos sociais. Nesse contexto, sobretudo a partir dos anos 1990, os
anarquistas não apenas impulsionaram a criação de alguns desses
movimentos, mas também integraram outros, buscando promover seus
princípios e suas estratégias.4
Dentre os movimentos que, no Brasil, tiveram papel fundamental dos
anarquistas em sua criação e desenvolvimento, está o Movimento de
Resistência Global ou "Antiglobalização", que se articulou, em grande
medida, na Ação Global dos Povos (AGP), que ficou conhecida pela
organização dos "dias de ação global". Esse movimento, inicialmente
articulado na Europa e nos Estados Unidos na segunda metade dos anos
1990, propunha enfrentar a ascensão do neoliberalismo no mundo, cujos
efeitos negativos às pessoas e ao meio ambiente tornavam-se cada vez
mais evidentes. E, para tanto, se deu por objetivo mobilizar diversos
países nesses dias de ação global; foi um desses dias, conhecido por N30
- um enorme protesto contra a Organização Mundial do Comércio ocorrido
em 30 de novembro de 1999, em Seattle - que tornou o movimento
mundialmente conhecido. (Corrêa, 2015, pp. 289-290)
Nesse contexto, sob inspiração desse "movimento dos movimentos" global,
formou-se, no Brasil, um movimento social análogo. Sua primeira
iniciativa ocorreu em Santos, naquele mesmo 30 de novembro de 1999, num
protesto modesto, chamado por ecologistas, libertários e anarquistas;
depois, o movimento estendeu-se para São Paulo, Belo Horizonte,
Fortaleza, Rio de Janeiro e outras localidades. Foi importante, nessa
difusão, a formação, em São Paulo, em maio de 2000, da "coalizão de
grupos e indivíduos inspirados pela AGP". No Brasil, o movimento durou,
nesses moldes, até 2003, e teve participação determinante dos anarquistas.
Ainda que estes não constituíssem a totalidade do movimento - havia
localidades, como Fortaleza, por exemplo, em que correntes libertárias
do marxismo tinham papel bastante significativo - não parece haver
dúvida que os anarquistas, em suas expressões menos ou mais organizadas,
não apenas tiveram participação decisiva no movimento, mas tiveram mesmo
papel hegemônico na definição de sua trajetória. (Vinicius, 2014, p.
221-223, 233, 270; Ortellado, 2004, pp. 9-10)
Dentre as realizações mais importantes do movimento estão,
primeiramente, a articulação dos próprios dias de ação global. Foram
quase uma dezena de manifestações, entre 2000 e 2003, principalmente em
São Paulo, com presença média de 2 mil pessoas nas ruas, e também
algumas centenas de pessoas em outras localidades como Belo Horizonte,
Fortaleza5, Rio de Janeiro, Salvador e Curitiba.
As pessoas mobilizaram-se contra os organismos que promoviam
mundialmente o neoliberalismo (Fundo Monetário Internacional, Banco
Mundial, Organização Mundial do Comércio, Banco Interamericano de
Desenvolvimento), contra os grandes agentes do poder mundial, como o G8,
e também contra as guerras imperialistas dos Estados Unidos no
Afeganistão e no Iraque. Foram nessas manifestações que apareceram, pela
primeira vez no Brasil, os black blocs. (Ryoki e Ortellado, 2004, pp.
140-145)
Além dessas ações, foi também muito importante a rede de comunicação
independente que se articulou, como fruto desse movimento, no Centro de
Mídia Independente (CMI), também com presença significativa dos
anarquistas. Essa iniciativa era parte da rede global Indymedia, fundada
em 1999 nos Estados Unidos e que proporcionava, por meio de um site, as
condições para a publicação de textos e fotos dos próprios
manifestantes. No Brasil, entre 2001 e 2005, o CMI esteve presente em 14
cidades e envolveu outras 16 em suas atividades, conformando, na
internet e fora dela, um marco nacional na ruptura com a exclusividade
da grande imprensa ao noticiar os fatos - algo se generalizaria anos
depois com as redes sociais. (Rocha et alli, 2018, p. 420) Foi também
relevante a rede de contatos e o ambiente proporcionado por este
movimento, que terminou por colocar em contato seus membros entre si e
com outras correntes libertárias e anarquistas, possibilitando um
fortalecimento de outras iniciativas do campo anarquista depois disso.
Mas houve, ainda, outros movimentos sociais que contaram, nesse período,
com a participação mais ou menos determinante dos anarquistas.
Militantes de organizações vinculadas à corrente especifista do
anarquismo protagonizaram parte considerável desse trabalho.6 Atuaram
diretamente ou por meio de outros agrupamentos, como a tendência
Resistência Popular, existente desde 1999, na construção de distintos
movimentos sociais.
Dentre eles, encontram-se movimentos sem-teto, como aquele que ocorreu
em São Paulo no início dos anos 2000, com as ocupações Anita Garibaldi
(Guarulhos) e Carlos Lamarca (Osasco) que, somadas, chegaram a
praticamente 7 mil famílias; e também como aquele que aconteceu no Rio
de Janeiro em torno da Frente Internacionalista dos Sem-Teto, que, entre
2004 e 2008, organizava algumas centenas de famílias de 11 ocupações.
(SOAG, 2013; FARJ, 2007, 2008; Rocha et alli, 2018, p. 422) Dos anos
1990 até 2013, houve participação de anarquistas dessa corrente em
outros movimentos sem-teto, nesses e em outros estados, como Rio Grande
do Sul, Ceará, Santa Catarina e Minas Gerais.
Encontra-se, também, o Movimento Nacional dos Catadores de Material
Reciclável (MNCR), no qual os anarquistas especifistas do Rio Grande do
Sul tiveram destacado papel - os impactos de sua prática política foram
sentidos nacionalmente. (MNCR, 2008) Os anarquistas gaúchos contribuíram
com a articulação do movimento desde meados dos anos 1990 e participaram
de seu congresso de fundação, em 2001, que contou com 1700 delegados de
18 estados do Brasil; tal contribuição deu-se até 2011, encontrando seu
auge em meados dos anos 2000. (FAG, 2005, p. 22; MNCR, 2011) Um
ex-dirigente anarquista do movimento relata que, em 2009, ele contava
com 730 cooperativas e associações, 400 grupos em processo de
formalização e uma base de 39 mil catadores, sendo 70% mulheres.
Anarquistas de Goiás tiveram também papel importante no movimento entre
2004 e 2009 e estados como Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo
contribuíram com alguma participação.
No período pré-2013 também se destacam, por parte desses anarquistas, a
participação na construção: de lutas e espaços comunitários, como os
Comitês de Resistência no Rio Grande do Sul, no início dos anos 2000, e
o Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro, fundado em 2004 e ativo
até o presente; de coletivos feministas como o Mulheres Resistem em
Alagoas e no Mato Grosso; de movimentos estudantis universitários e
secundaristas, em distintas regiões do país, incluindo norte e nordeste
- que se destacaram também na construção de outros movimentos,
principalmente nos estados do Pará, da Bahia, do Ceará e de Alagoas.
Ainda que como força bem minoritária na maior parte dos casos, tais
anarquistas também tiveram participação em movimentos sociais mais
amplos, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Movimento dos Atingidos por
Barragens (MAB) e Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), e
também de distintos sindicatos e da INTERSINDICAL em São Paulo, Rio
Grande do Sul, Mato Grosso e Alagoas. Compuseram a articulação nacional
do Encontro Latino-Americano de Organizações Populares Autônomas
(ELAOPA), que se iniciou em 2003 e que em 2013 estava em sua 10ª edição.
(Rocha et alli, 2018, pp. 421-424)
Outra corrente anarquista, encabeçada pela União Popular Anarquista
(UNIPA), teve participação determinante, ao longo dos anos 2000, quando
se separou do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), na fundação da Rede
Estudantil Classista e Combativa (RECC) e na construção do Fórum de
Oposições de Base (FOB) - hoje Federação das Organizações Sindicalistas
Revolucionárias do Brasil. Em grande medida, essa alternativa estudantil
e sindical construiu-se por meio das oposições do CONLUTE e da CONLUTAS,
consolidando-se a partir de 2010. (UNIPA, 2013)
Além disso, anarquistas de diferentes correntes em todo o Brasil, com
maior ou menor organização, participaram de várias outras iniciativas no
campo dos movimentos sociais: integraram, em diversos estados, o
Movimento Passe Livre (MPL), assim como movimentos negros, feministas,
indígenas e LGBTs; construíram movimentos e oposições sindicais e
estudantis, assim como movimentos em favelas; impulsionaram iniciativas
de cooperativas, ocupações, centros culturais e educação popular. (Rocha
et alli, 2018)
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1 Em seu relato do I COB publicado em A Terra Livre, de 13 de agosto de
1906, Neno Vasco, militante anarquista e sindicalista, defenderia que,
naquele momento, o objetivo dos anarquistas não era constituir outros
grupos anarquistas, mas dar força às associações operárias por meio do
incentivo ao sindicalismo revolucionário: "O Congresso não foi, de
certo, uma vitória do anarquismo. Não o devia ser. A Internacional,
desfeita por causa das lutas de partido no seu seio, deve ser memorável
lição para todos. Se o Congresso tivesse tomado um caráter libertário,
teria feito obra de partido, não de classe. O nosso fim não é constituir
duplicatas dos nossos grupos políticos. Mas se o Congresso não foi a
vitória do anarquismo, foi, porém, indiretamente útil à difusão das
nossas ideias." (apud Rodrigues, 1969, p. 131)
2 Conforme afirmação do marxista Ricardo Antunes (2003, p. 42): "Esse
período[fim dos anos 1910 e início dos anos 1920]correspondeu ao auge do
movimento anarquista, que era até então a liderança mais significativa
do movimento operário brasileiro".
3 Em um mapeamento dos jornais operários desse período, muitos deles
vinculados explicitamente ao anarquismo, é possível dizer que, de meados
do século XIX até 1920, foram publicados aproximadamente 343 de
periódicos no território brasileiro. Desses, 149 foram publicados no
estado de São Paulo, 100 no Rio de Janeiro e 94 espalhados por Rio
Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas e Paraná. Desses 343,
283 eram editados em português e 60 em outros idiomas - um em alemão,
quatro em espanhol e 55 em italiano. (Ferreira, 1978, p. 89-90) Cumpre
enfatizar, também, a frequente utilização de imagens nos jornais, que
rompiam as barreiras linguísticas, universalizavam a mensagem a ser
transmitida e consolidavam um imaginário em favor dos trabalhadores,
frequentemente acossados pela prática discursiva dos jornais burgueses.
(Poletto, 2018, pp. 251-260)
4 De algum modo, toda essa mobilização libertária relaciona-se com o
processo de rearticulação do anarquismo no país, que passa pela fundação
de periódicos (como o já mencionado Inimigo do Rei, na Bahia, em 1977),
revistas (como a Utopia, no Rio de Janeiro, em 1988) e editoras (como a
Achiamé, no Rio de Janeiro, em 1978, e a Novos Tempos, em Brasília, em
1985). E também pela organização de espaços como o Círculo de Estudos
Libertários (CEL), no Rio de Janeiro, em 1985, e o Centro de Cultura
Social (CCS), que foi reaberto, em São Paulo, neste mesmo ano. Passa,
ainda, pela tentativa de reativação da Confederação Operária Brasileira
(COB), também em meados dos anos 1980, que terminou por estimular
núcleos em diversas partes do país, e pela politização, nos fins dos
anos 1980 e início dos 1990, de um setor importante da juventude que
participava de movimentos contraculturais, em especial o punk/anarcopunk
e o straight edge. (OASL/FARJ, 2012; Vinicius, 2014, pp. 224-227)
5 Destacam-se também, nesta cidade, as manifestações contra o Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre 11 e 13 de março de 2002,
que superara muito a média de público das outras manifestações e
chegaram a reunir 5 mil pessoas nas ruas. (Ryoki e Ortellado, 2004, p. 143)
6 Corrente anarquista que existe no Brasil desde meados dos anos 1990 e
que se articulou, desde então, na Organização Socialista Libertária
(1997-2000), no Fórum do Anarquismo Organizado (2002-2012) e depois na
Coordenação Anarquista Brasileira (2012- ). Grande parte das
experiências dos anarquistas nos movimentos sociais brasileiros tem
relação com essa corrente, pois essa participação nas lutas populares é
vista como algo central em seu projeto de construção do poder popular.
(OASL/FARJ, 2012; CAB, 2012)
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