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(pt) Brazil, OSL, Libera #183 - KROPOTKIN E AS ESTRATÉGIAS ANARQUISTAS EDUCACIONISMO, INSURRECIONALISMO E SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO - Felipe Corrêa II. (2/2) (ca, de, en, fr, it, tr)[traduccion automatica]

Date Wed, 11 Feb 2026 08:33:59 +0200


Em 1914, escreveria a Luigi Bertoni:

Minha opinião é exatamente aquela exprimida por Malatesta em Volontà em 7 de fevereiro de 1914, e com a qual você concorda. O sindicato é absolutamente necessário. Ele é a única forma de associação operária que permite a luta direta contra o capital ser levada a cabo sem submergir no parlamentarismo.18 (apud Nettlau, 1996, p. 280) . ---- Ou seja, para Kropotkin, nessa distinta perspectiva, são os sindicatos os únicos agrupamentos de trabalhadores capazes de reunir as massas para combater o capitalismo e o Estado sem ceder ao reformismo socialdemocrata. Os anarquistas (preferencialmente articulados em agrupamentos específicos) participam da construção dos sindicatos e promovem, por sua crescente influência, uma linha sindical que inclui: ação direta das massas, independência de classe, protagonismo democrático (federalista, autogestionário) das bases e perspectiva revolucionária. A prática anarquista e a ação sindical são, elas mesmas, formas de propaganda que, juntamente à propaganda falada e escrita, contribuem para a difusão desse ideário anarquista e sindicalista, e para o incremento desse movimento transformador.

Tal noção, tipicamente vinculada ao anarquismo de massas sindicalista, se reforça ainda pelas posições possibilistas (favoráveis às lutas de curto prazo pelas reformas) que Kropotkin manifestou em certas ocasiões. Em 1906, no artigo "Syndicalisme et Parlamentarisme"[Sindicalismo e Parlamentarismo]reconheceu a importância das lutas por melhores condições de trabalho como: "melhor pagamento, redução nas horas de trabalho, fábricas mais salubres, máquinas menos perigosas etc." (Kropotkin, 2014m, p. 384)

Como se pode notar, a depender do enfoque (temporal, dos escritos discutidos etc.) é possível aproximar Kropotkin mais das perspectivas insurrecionalistas ou das perspectivas de massas. E Cahm nota isso muito bem na conclusão de seu livro:

Se Kropotkin enfatizou o papel das minorias heroicas na preparação da revolução e[...]vislumbrou claramente o envolvimento dos anarquistas em atos de terrorismo, ele preocupou-se igualmente com a ideia da Internacional Grevista para desenvolver a luta direta das massas contra o capital.[...]Na verdade, ele nunca se preocupou estreita ou acriticamente com as táticas terroristas ou sindicalistas, mas apreciou o valor de ambas. (Cahm, 1989, pp. 276, 280)

É verdade que tal conclusão refere-se apenas ao período que vai de 1872 a 1886; para conclusões mais precisas acerca do período posterior, seria necessário empreender uma continuidade deste estudo iniciado por ela, tomando como base os escritos de 1887 a 1921.

De qualquer forma, o cerne do argumento parece-me bem colocado. Nos praticamente 50 anos de anarquismo de Kropotkin há diferentes posições sendo por ele defendidas. Se há mais homogeneidade nas posições filosóficas e teóricas, há posições mais plurais no debate organizativo e nas relações com as históricas correntes do anarquismo insurrecionalista e do anarquismo de massas. As hipóteses explicativas para tanto foram apontadas anteriormente: talvez pela posição de Kropotkin como jornalista do "movimento", talvez pela crença numa heterogeneidade de estratégias e táticas; talvez por ambas.

E se é verdade que não se pode desvinculá-lo completamente da "propaganda pelo fato", também não é possível fazê-lo com o sindicalismo revolucionário, como no caso de René Berthier (2018, p. 12), que afirma ver apenas "distorções que são feitas ao pensamento de Kropotkin com o único propósito de provar que ele foi um pensador sindicalista revolucionário".

Realmente Kropotkin não pode ser considerado apenas um pensador sindicalista revolucionário, mas, como pretendo mostrar a seguir, parece inegável que ele tenha sustentado, em diferentes momentos de sua vida, particularmente entre os anos 1881 e 1912, posições bastante vinculadas ao sindicalismo revolucionário.

KROPOTKIN E O SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO (1881-1912)

Entre 1881 e 1912, em diversos momentos, Kropotkin discutiu e defendeu o sindicalismo revolucionário. Cumpre, entretanto, antes de expor e analisar suas posições a este respeito, apresentar brevemente alguns elementos conceituais.

Syndicalism: Sindicalismo Revolucionário e Anarcossindicalismo

Quando se estuda globalmente a história do movimento sindical, é possível notar que, a partir dos anos 1870, no seio da AIT, emerge uma forma inovadora e revolucionária de sindicalismo.

De acordo com Van der Walt (2019a, pp. 253-254), em termos teóricos, ela se expressa na obra de Bakunin, em seu período anarquista e internacionalista, ainda no fim dos anos 1860; em termos práticos, inicia-se com a Federación Regional Española[Federação Regional Espanhola](FRE), organização sindical fundada em 1870 na Espanha e vinculada à "Primeira Internacional", que alguns anos depois de sua fundação chegou a 60 mil membros. Tal tradição sindical desenvolveu-se ao longo dos anos 1870 e 1880, em escritos de distintos autores e em sindicatos de diferentes países, inclusive da América Latina.19

Ou seja, quando a CGT foi fundada, em 1895, havia já uma tradição, em termos de pensamento e ação, dessa forma de sindicalismo que ela praticará até a Primeira Guerra. A CGT foi importante não apenas por sua práxis na França, e por tornar-se referência sindical para o mundo europeu e hispano-lusófono, mas também por difundir amplamente o termo "syndicalisme révolutionnaire"[sindicalismo revolucionário], para expressar suas concepções e práticas sindicais. A adjetivação "révolutionnaire", no francês, era necessária, na medida em que o termo "syndicalisme", como no português, referia-se ao sindicalismo de maneira geral, abarcando o sindicalismo revolucionário e o anarcossindicalismo, mas também as formas de sindicalismo patronais, amarelas, reformistas, corporativistas etc.

Entretanto, quando se observa o mundo anglófono, a questão é distinta. Em inglês, o termo "syndicalism", utilizado a partir do início do século XX, derivou do "syndicalisme révolutionnaire" francês; trata-se, portanto, de um sinônimo de "revolutionary unionism" (inglês) e distingue-se dos termos mais amplos "unionism" (inglês), "syndicalisme" (francês) e "sindicalismo" (português).

Portanto, a experiência teórico-prática do sindicalismo revolucionário precedeu, em algumas décadas, não apenas a CGT francesa, mas a própria invenção dos termos "syndicalisme révolutionnaire" (francês) e "syndicalism" (inglês).

Essa tradição de pensamento e ação que se iniciou entre o fim dos anos 1860, que se consolidou nos anos 1870 e 1880, e que passou a se expressar pelos mencionados termos entre os anos 1890 e 1900, possui continuidade depois disso. Grandes exemplos dessa tradição syndicalist incluem, além da CGT, a mencionada Internacional Sindicalista, fundada na passagem de 1922 para 1923, em Berlim, na Alemanha, e inúmeras outras experiências em todo o mundo, ao longo do século XX, e mesmo deste início de século XXI.20

Cumpre ainda notar que o termo "anarcossindicalismo" é posterior ao "syndicalism", tendo-se difundido desde os anos 1920 e ganhado destaque com a Confederação Nacional dos Trabalhadores (CNT), protagonista da Revolução Espanhola (1936-1939). Ainda assim, dependendo de como o anarcossindicalismo for conceituado, também é possível encontrar experiências históricas anteriores às próprias invenção e difusão do termo. Desde o surgimento do termo "anarcossindicalismo", têm havido inúmeros esforços de se conceituar o sindicalismo revolucionário e o anarcossindicalismo - em alguns casos, se enfatiza a diferença entre essas duas formas de sindicalismo; em outros, se afirma que são praticamente sinônimos -, e, no mundo anglófono, uma tendência de abarcar ambos com o conceito de "syndicalism".21

Foi por não haver um sinônimo em português para "syndicalism" - visto que, no Brasil, não utilizamos com rigor a diferença entre "sindicalismo" e "unionismo", e nos referimos a todas as formas de sindicalismo sob este termo - que propusemos, em inúmeras ocasiões, expressões como "forma revolucionária de sindicalismo" ou "sindicalismo de intenção revolucionária" para nos referir a este "syndicalism", que abarca tanto o sindicalismo revolucionário quanto o anarcossindicalismo. (Ver, por exemplo: Santos e Silva, 2018; Corrêa, 2018; Van der Walt, 2019b)

Esse syndicalism, forma revolucionária de sindicalismo, pode ser definido da seguinte maneira:

O sindicalismo[syndicalism]concentra-se na reivindicação de que os sindicatos - construídos por meio de lutas diárias, práticas radicalmente democráticas e educação popular - constituem uma força insubstituível para defender e estender conquistas e direitos da classe trabalhadora e são alavancas cruciais para a revolução social. Ação direta, solidariedade, autoatividade e desenvolvimento de conhecimento técnico e político são meios para permitir a acumulação de forças individuais e organizativas para uma greve geral revolucionária[...], na qual trabalhadores ocupam seus locais de trabalho, tomam o controle dos meios de produção e constroem uma ordem socialista livre, baseada na autogestão, no planejamento participativo vinculado a assembleias e conselhos, e na produção voltada para a necessidade e não para o lucro ou o poder de uma minoria dominante. (Van der Walt, 2019a, p. 249)

O syndicalism - e, portanto, o sindicalismo revolucionário e o anarcossindicalismo - constitui uma forma de sindicalismo que surgiu na AIT e que depois disso espalhou-se pelo mundo.

Trata-se de uma estratégia sindical para a luta de classes, que envolve a articulação de trabalhadores por local de trabalho, mas não apenas, e que opera com independência de partidos, classes dominantes, Estado etc. Sob tal estratégia, os sindicatos operam por meio da ação direta, com os trabalhadores atuando em seu próprio favor, e do exercício prático da autogestão e do federalismo, construindo lutas com protagonismo das bases, em processos amplamente democráticos ("de baixo para cima").

Esses sindicatos têm como foco as lutas reivindicativas de base econômica (e, em certos casos, políticas, não eleitorais, no sentido de reivindicações frente ao Estado) e como objetivo uma revolução social, na qual o protagonismo das massas é imprescindível, que possa substituir a sociedade capitalista por uma sociedade livre e igualitária. A cultura revolucionária de classe - que estimula a solidariedade, a luta coletiva, os fins transformadores, o internacionalismo, o antimilitarismo etc. -, assim como a pedagogia dessas lutas, que ensina e educa os trabalhadores na prática, e se complementa com os esforços educativos de maneira geral, contribuem com a radicalização necessária dos trabalhadores para a revolução e a nova sociedade.

* * *

Quando sustento, neste texto, que Kropotkin discutiu e defendeu o "sindicalismo revolucionário", considero que se trata deste syndicalism, que emerge na Internacional, que se difunde pelo mundo com outras experiências, incluindo a CGT francesa, e que nem sempre é chamado por esses nomes.

Os textos citados a seguir foram escritos originalmente em francês e em inglês, e neles Kropotkin utiliza distintos termos para se referir ao sindicalismo. Usufrui daqueles mais neutros como "syndicalisme" (francês) e "trade-unionism" (inglês). (Kropotkin, 1907, p. 2; 2014l, p. 373) E também dos termos adjetivados, como no caso de "revolutionary unionism" (inglês), ou quando reconhece que o "syndicat" pode tornar-se "révolutionnaire" (francês). (Kropotkin, 2014r, p. 407; 1907, p. 2) Enfim, ele recorre também ao "syndicalism", quando escreve em inglês. (Ver, por exemplo, as inúmeras menções em: Kropotkin, 2014r22)

Referindo-se a essa forma de sindicalismo, em 1912, no artigo "Syndicalism and Anarchism"[Sindicalismo e Anarquismo], Kropotkin a define como "luta direta do trabalho contra o capital no campo econômico". (Kropotkin, 2014r, p. 403) Ainda em 1907, numa carta ao jornal sindicalista The Voice of Labour, ele a definiu como "a livre organização do trabalho, independente de todos os partidos parlamentares, visando à solução direta - pelos próprios trabalhadores e por meio de seus sindicatos - do imenso problema social". (Kropotkin, 2014n, p. 387)

Para Kropotkin, esse sindicalismo possui "dois princípios mais importantes". O primeiro deles, "ação direta", que se vincula exatamente às mencionadas luta direta e solução direta, e que implica a auto-organização dos trabalhadores, por si e para si, no intuito de promover a luta de classes no campo econômico. O segundo, as "novas formas de vida social baseadas na federação de sindicatos", que têm a ver com uma perspectiva prefigurativa da luta sindical, que, ao mesmo tempo, constrói e protagoniza a luta cotidiana, por meio de organismos de base e altamente democráticos, e faz destes organismos os embriões da sociedade futura pós-revolucionária. (Kropotkin, 2014r, p. 405) Mais adiante será possível compreender em maiores detalhes esses e outros aspectos do sindicalismo revolucionário defendido por Kropotkin.

Importante notar que, para ele, esse syndicalism teve origem na AIT, a qual ele caracteriza como "um grande movimento sindicalista[syndicaliste]".

(Kropotkin, 1907, p. 2) E mais, considera que ambos os citados princípios do sindicalismo revolucionário (ação direta e prefiguração) "foram, desde o início, os princípios orientadores da Associação Internacional dos Trabalhadores". (Kropotkin, 2014r, p. 405) Associação esta que foi formada por mutualistas franceses (discípulos de Pierre-Joseph Proudhon) e trade-unionistas ingleses (seguidores de Robert Owen) e, pouco tempo depois de seu período fundacional (1864-1866), adotou estratégias sindicalistas revolucionárias, hegemônicas pelo menos até 1871. (Kropotkin, 1987, p. 27; 2014v, p. 207; 1964, p. 103)

Kropotkin reconheceu o movimento anteriormente descrito, segundo o qual uma nova forma de sindicalismo emergiu na AIT, expressando-se em ideias, práticas, pensamentos e ações. Ele também admitiu que os anarquistas tiveram papel muito importante nesse processo. (Kropotkin, 1987, pp. 27-29; 1964, p. 136) Explicou que as iniciativas syndicalists que tiveram continuidade a partir de então em distintas localidades - incluindo aquela da CGT francesa, a partir de 1895, e cuja influência para ele foi relevante - tiveram como berço e referência histórica a "Primeira Internacional", e que, não raro, desenvolveram novos termos para se referir às concepções e práxis internacionalistas. (Kropotkin, 2014r, pp. 405, 411; 2014u, pp. 466-467; Nettlau, 1996, p. 279)

Aspectos Fundamentais do Sindicalismo Revolucionário Kropotkiniano

Em grandes linhas, a estratégia sindicalista revolucionária (syndicalist) defendida por Kropotkin reivindica a construção de sindicatos massivos e fortes, abarcando todos os setores da classe trabalhadora, para a luta econômica imediata contra a exploração capitalista. Nessa luta - que, segundo Kropotkin, precisa ser realizada desde uma concepção de federalismo, ação direta e prefiguração -, é possível não apenas radicalizar os sujeitos envolvidos, mas avançar na luta para uma perspectiva revolucionária, de transformação política radical da sociedade. Os sindicatos são capazes de encabeçar essa transformação e de assumir as funções na nova sociedade socialista, sem Estado e classes sociais. Tais posições serão discutidas mais detalhadamente a seguir.

Ao analisar a luta de classes na sociedade, Kropotkin constata, sem dificuldades, que, apesar de serem maioria, os trabalhadores (operários e camponeses) vêm sofrendo a imposição da vontade de uma minoria capitalista poderosa. De modo que, para potencializar a força desses oprimidos, é fundamental promover sua organização.

Conforme sustenta: "Temos de organizar as forças dos trabalhadores[...]para transformá-las numa formidável máquina de luta contra o capital" (Kropotkin, 2014a, p. 294); numa "organização que coloque todas as forças para esmagar o feudalismo capitalista" (Kropotkin, 2014b, p. 300). E a organização capaz de dar conta desse objetivo é o sindicato, e não o partido. "Nada pode inclinar a balança a seu favor[dos trabalhadores]senão sindicatos enormes, que abarquem milhões de proletários contra os exploradores". (Kropotkin, 2014e, p. 318; Ver também: Kropotkin, 2014a, p. 294)

Ou seja, é a organização sindical que possui as melhores condições de potencializar a incidência dos trabalhadores na luta de classes contra a exploração. É ela que permite transformar a capacidade de realização dos trabalhadores numa força social e concreta capaz não apenas de incidir no jogo de forças da realidade social, mas de buscar e garantir a vitória dos trabalhadores.

Kropotkin (2014u, p. 469) compreende que tal esforço organizativo pode se dar tanto por meio da conformação de novos sindicatos, quanto pela participação em organizações sindicais já existentes. E que é preciso dar conta da organização não apenas de um ou outro setor da classe trabalhadora, mas de seu conjunto, abarcando, o máximo possível, o conjunto de explorados, dominados e oprimidos. Assim, tanto os operários quanto os camponeses - e mesmo os setores socialmente marginalizados - devem encontrar possibilidades de se organizar em "sindicatos operários e camponeses".

De modo que não há em Kropotkin certas posições que foram difundidas por correntes do marxismo histórico. Destacadamente, aquelas que consideram que apenas o proletariado urbano-industrial é o sujeito destinado a fazer a revolução, graças à posição que ocupa na sociedade, ou aquelas que consideram que o campesinato e o "lúmpem" são classes essencialmente conservadoras ou reacionárias. Para ele, a capacidade revolucionária de uma classe tem a ver não apenas com a posição social de seus membros, mas também com sua trajetória; assim, a organização e a luta de classes convertem-se em fatores determinantes.

Não se trata, contudo, de virar de cabeça para baixo a centralidade do proletariado urbano-industrial e defender, como contraponto, a centralidade do campesinato ou dos marginalizados. Kropotkin (2014d, p. 315) reconhece que, para o sucesso de greves e outros movimentos reivindicativos, assim como para as transformações de maior envergadura, os setores mais importantes da economia de uma sociedade precisam estar envolvidos.

Portanto, é essencial que façam parte desses sindicatos operários e camponeses todos os trabalhadores - da cidade e do campo, assalariados ou não - que reconheçam sua condição subalternizada e que concordem em enfrentar as classes dominantes por meio do conflito econômico-social. Algo que envolve uma ênfase na economia e assume dois desdobramentos.

Primeiro, a necessidade de uma luta que se dê prioritariamente no campo econômico: "Visto que a grande luta para a qual nos preparamos é uma luta essencialmente econômica, é no campo econômico que nossa agitação deve se dar". (Kropotkin, 2014c, p. 306) Se em última instância a luta de classes precisa apontar para uma revolução social que ponha fim ao capitalismo, a disputa (via reforma ou revolução) do aparelho de Estado, restrita ao campo político, é insuficiente.

Segundo, Kropotkin (2014k, p. 360) considera que, ao passo que o critério econômico une os trabalhadores, em torno de condições e interesses comuns de classe, para a luta unificada contra a exploração, os critérios políticos e/ou ideológicos, que incluem a partidarização da militância sindical, os distancia, os separa uns dos outros. Essa "luta entre o trabalho e o capital[...]exige que os trabalhadores apresentem ao capitalista uma massa compacta - unida, e não subdividida por suas opiniões políticas".

Tal é o motivo da necessidade desse sindicalismo encampar uma sincera independência de classe frente aos partidos políticos.

As demandas da batalha cotidiana entre o trabalhador e o patrão, os milhares de confrontos dessa luta oculta que os trabalhadores devem travar em toda oficina, em toda fábrica, em toda mina, são tão visíveis, que não pode haver a menor dúvida quanto à necessidade de sindicatos operários completamente independentes de partidos políticos, socialistas ou não. (Kropotkin, 2014m, p. 386)

Independência que, como apontado, tem de ser afirmada, inclusive, frente aos partidos políticos de esquerda. As experiências históricas da socialdemocracia e do comunismo evidenciam marcadamente a natureza da relação desses partidos com os sindicatos e o movimento operário e camponês em geral. Subordinação de suas estruturas e suas lutas aos interesses político-partidários de conquista e/ou manutenção do poder de Estado; hierarquia e substituísmo dos partidos frente aos movimentos. E as consequências históricas dessa relação foram projetos que avançaram muito pouco nas reformas e, em distintas ocasiões, conformaram-se, de fato, em forças contrarrevolucionárias.

Sustentar essa posição não significa, para Kropotkin, a defesa do economicismo ou o descarte da luta política. Essa luta no campo do trabalho - por meio da qual operários e camponeses enfrentam diretamente patrões e latifundiários contra a exploração - coloca-se como única alternativa às lutas pela conquista reformista ou revolucionária do Estado (socialdemocracia ou comunismo).

Esse é o único campo a partir do qual se pode iniciar e desenvolver um processo revolucionário capaz de conduzir à anarquia socialista. As lutas econômicas (que podem ser reivindicações ou greves nos locais de trabalho, sabotagem ou "terrorismo econômico", todos os quais, em algum momento, foram defendidos por Kropotkin) são formas de ação direta e podem se tornar políticas. Isso ocorre na medida em que as lutas extrapolam a categoria ou o local de trabalho em que tiveram início, ampliam-se para outros ramos, envolvem locais de moradia, radicalizam-se e avançam em sentido revolucionário, visando ao fim do capitalismo e à destruição do Estado, ou seja, à socialização econômica (da propriedade) e política (do poder) e ao fim das classes sociais.

Tais lutas tornam-se políticas porque promovem um enfrentamento sistêmico à dominação em geral e às classes dominantes em particular, e porque, ao colocarem realmente em xeque o capitalismo, colocam também o Estado, visto que este faz parte do sistema capitalista, quando tomado em sentido ampliado. (Kropotkin, 2014c, p. 306)

Esse movimento de radicalização e ganho de força não é apenas possível, senão necessário no projeto político kropotkiniano. Lutas econômicas imediatas precisam avançar para uma transformação política revolucionária; os ganhos parciais têm de converter-se em uma vitória duradoura, na qual os trabalhadores, por meio de suas organizações sindicais e comunitárias, imponham sua vontade às classes dominantes. Kropotkin oferece mais detalhes acerca desses dois momentos da luta de classes.

Conforme mencionado, ele defende a promoção cotidiana das lutas visando às conquistas econômicas imediatas. Argumenta que os sindicatos têm de "construir uma força capaz de impor melhores condições de trabalho aos patrões". E, com isso, garantir conquistas como "melhor pagamento, redução nas horas de trabalho, fábricas mais salubres, máquinas menos perigosas etc." (Kropotkin, 2014m, pp. 384-385) Para a realização de tais reivindicações considera ser substancial um trabalho cotidiano e permanente, que se faça presente em "repetidos atos de guerra, empreendidos diariamente e em cada oportunidade que se possa preparar para a batalha decisiva e a vitória". (Kropotkin, 2014c, p. 306) Reivindica ele: "Temos de agrupar trabalhadores de todos os setores sob esse único propósito: 'Guerra à exploração capitalista!' E temos que buscar essa guerra implacavelmente, dia a dia, pela greve, pela agitação, por todos os meios revolucionários". É essa prática que permitirá aos trabalhadores que desenvolvam e aprofundem seu próprio programa. (Kropotkin, 2014a, p. 294)

Ferramenta importante para o exercício cotidiano da luta de classes é a greve. Escreve Kropotkin (2014c, pp. 308-310) que a greve é uma "arma que os trabalhadores empunham em diferentes contextos, onde quer que estejam", e que "pode ser utilizada a qualquer momento, de acordo com as circunstâncias." Essa forma de resistência coletiva pressiona os patrões a aceitarem as reivindicações dos trabalhadores, e, ao mesmo tempo, cumpre um papel pedagógico, na medida em que estimula nos sindicatos a solidariedade e a organização. "Longe de desenvolver os instintos egoístas, a greve serve para desenvolver o senso de solidariedade que emerge do próprio coração da organização". Ademais, "a resistência e a greve são meios excelentes por meio dos quais os trabalhadores podem se organizar" e fortalecer sua capacidade auto-organizativa, pois não se pode esquecer que "a massa dos trabalhadores deve organizar-se por si mesma".

Kropotkin reivindica ainda, também como mencionado, que haja uma radicalização e um ganho de força permanentes, permitindo ao movimento que supere as reivindicações econômicas imediatas e busque uma transformação política revolucionária.

O objetivo da revolução é a expropriação daqueles que detêm a riqueza da sociedade, e é contra esses proprietários que devemos nos organizar. Devemos reunir todos nossos esforços visando à criação de uma organização vasta de trabalhadores para buscar esse objetivo. A organização da resistência e da guerra ao capital deve ser o principal objetivo da organização dos trabalhadores, e seus métodos devem ser informados não pelas lutas sem sentido da política burguesa, mas pela luta, por todos os meios possíveis, contra aqueles que atualmente detêm a riqueza da sociedade - e a greve é um excelente meio de organização e uma das ferramentas mais poderosas na luta. (Kropotkin, 2014c, p. 311)

Se o movimento fizer dos pequenos ganhos sua finalidade, abrindo mão desta perspectiva revolucionária, terá sucumbido ao reformismo e não atingirá os referidos objetivos finalistas. O desafio é, portanto, construir "um movimento sindical não apenas interessado em aumentos de salário e redução de horas de trabalho, mas inspirado pela grande ideia de se livrar dos parasitas e tomar posse de suas obras". (Kropotkin, 2014j, p. 356) Ou seja, promover esse finalismo revolucionário e socialista. "É importante que todos à frente do movimento tenham clareza sobre qual é o objetivo final da organização". Os sindicatos precisam construir "uma poderosa força que, no dia da revolução, irá impor sua vontade sobre exploradores de todo tipo". (Kropotkin, 2014c, pp. 303, 306)

Para esse avanço, é muito importante garantir um crescimento geográfico, articulado de baixo para cima, por meio do federalismo:

Seções profissionais, federações abarcando todos os trabalhadores da mesma profissão, federação de todas as profissões de uma mesma localidade, de uma região, e grupos de combate independentes das profissões, mas, antes de tudo, socialistas - é assim que eles[os sindicalistas espanhóis fiéis às tradições anarquistas da Internacional]constituem as estruturas do exército revolucionário. (Kropotkin, 2014b, p. 299)

E reforçar esse combate por meio de ferramentas como a greve geral, os combates de rua e a força das armas. Kropotkin (2014p, p. 395) enfatiza que "a greve foi uma lição maravilhosa em muitos aspectos. Demonstrou-nos a possibilidade prática de uma greve geral." A greve geral envolve uma paralização generalizada dos trabalhadores em uma localidade, e mobiliza uma força relevante dos trabalhadores no enfrentamento aos patrões. Se é verdade que ela não é e nem substitui a revolução social, não se pode negar que constitua um passo importante para sua aproximação; a greve geral tem potencial para radicalizar o movimento sindical, estimular outras iniciativas combativas e criar condições para insurreições e lutas mais avançadas.

A força das reivindicações econômicas, das greves parciais e da greve geral para o projeto revolucionário aumenta, na medida em que podem se somar aos combates de rua, às barricadas e às ações armadas. Kropotkin acredita na necessidade de um trabalho de base prolongado e na conciliação entre lutas de massa e formas mais avançadas de combate; e, com isso, nega o espontaneísmo e o insurrecionalismo.

Argumenta que as "barricadas têm de ser preparadas por meio da atividade prolongada no seio das massas, algumas vezes durante anos". De modo que os conflitos e as trincheiras de luta mais acirrada não são protagonizados por indivíduos heroicos, pequenos grupos de vanguarda ou militantes descolados das bases; eles devem expressar um trabalho prévio prolongado e com envolvimento significativo das massas. É preciso ter em mente que "sem um povo rebelde não há barricadas", e que os revolucionários precisam "tornar-se o povo no seio do povo". Vale o mesmo quando se trata de aliar os sindicatos às distintas formas de conflito armado: lutas armadas e lutas de massas são indissociáveis. "Sem as massas não há barricadas! Sem as massas não há luta armada!" (Kropotkin, 2014f, p. 324)

Essa radicalização e esse avanço precisam ser permanentemente estimulados pelos revolucionários socialistas (incluindo os anarquistas) nos sindicatos. Mas não é só isso. A maneira como isso é feito no cotidiano organizativo, os meios que são fortalecidos e estimulados estão completamente vinculados aos fins que serão ou não atingidos; são esses meios que indicarão se o objetivo final anteriormente enunciado será ou não concretizado. "Os meios de ação propostos" devem estar "em concordância com os objetivos propostos". (Kropotkin, 2014c, p. 304)

Como indicado, Kropotkin (2014r, p. 405) compreende que são dois os princípios mais importantes na construção desses meios: a ação direta e a perspectiva prefigurativa. Ambos são centrais na construção de uma linha sindical adequada.

Para ele, é imprescindível a "ação direta das organizações operárias", das massas, ou seja, "a ideia precisa de uma ação direta por meio de seus próprios sindicatos". (Kropotkin, 2014n, pp. 387-388) Isso exige um sindicalismo que tenha por base a "auto-organização dos trabalhadores", que não conceda a outros (classes dominantes, vanguardas supostamente iluminadas, partidos políticos ortodoxos, políticos eleitos etc.) seu protagonismo organizativo e de ação; um sindicalismo que proporcione condições de organização e que estimule a luta dos trabalhadores, por si e para si. (Kropotkin, 2014u, p. 467) Algo que vale tanto para o caso da busca dos ganhos econômicos imediatos quanto do caso da busca da transformação política revolucionária.

Ao mesmo tempo, é imprescindível a prefiguração, que implica "promover entre as massas as ideias que consideramos ser as bases do desenvolvimento vindouro". (Kropotkin, 2014h, p. 344) Isso significa que aqueles elementos vinculados ao protagonismo democrático, federalista e autogestionário - associação voluntária, decisões de base, articulação de baixo para cima, combate permanente ao centralismo e à burocratização -, todos os quais são imprescindíveis numa sociedade federalista e autogestionária (socialista, sem Estado e sem classes), devem também nortear a prática sindical de organização e lutas.

Esse exercício prático do federalismo e da autogestão na organização e nas lutas sindicais constrói o futuro no presente, produz os sujeitos da mudança; trata-se, enfim, de um meio substancial para que os fins pretendidos possam ser atingidos. Note-se que, para Kropotkin, isso não implica construir uma realidade utópica para isolar da sociedade essa iniciativa e as pessoas que dela fazem parte. Implica, distintamente, produzir uma cultura de classe capaz de apontar estrategicamente para o objetivo pretendido: a transformação desta sociedade na direção da socialização da propriedade e do poder.

Também conforme mencionado, Kropotkin (2014u, pp. 467, 469) destaca que os sindicatos têm uma função importante nesse movimento de revolução e socialização. Afinal, eles são não apenas "meios poderosos de preparar a revolução social", mas também "células para a ordem social futura". "Os sindicatos operários são não apenas "um poder revolucionário" na sociedade presente, mas "uma força para a organização futura" da sociedade.

Eles possuem um papel importante na expropriação das classes dominantes: as "organizações sindicais poderiam tomar posse das docas, das ferrovias, das minas, das fábricas, das terras, dos comércios e geri-los não mais para o interesse de alguns capitalistas, mas para a sociedade como um todo." (Kropotkin, 2014r, p. 407) Para tanto, é indispensável, desde o presente, "criar entre as classes trabalhadoras estruturas sindicais que possam um dia substituir os patrões e tomar em suas próprias mãos a produção e a gestão de toda indústria". (Kropotkin, 2014m, p. 385) Por esse motivo, são os sindicatos os organismos mais adequados para assumir a autogestão da produção num momento pós-revolucionário, mas não apenas da produção. De acordo com a posição de certos anarquistas e trabalhadores europeus:

No primeiro esforço para o estabelecimento da ordem futura - seja nas aldeias, entre o campesinato, numa cidade ou província que proclame a comuna - a organização da vida e da produção, sob princípios comunistas, será responsabilidade dos sindicatos operários, e que somente eles podem levar a cabo a enorme tarefa da reconstrução da indústria para os interesses de toda a sociedade. (Kropotkin, 2014u, p. 467)

Os sindicatos não servem, portanto, apenas para a resistência e a luta na sociedade presente. Eles também possuem serventia na transformação desta sociedade e na construção da nova sociedade. De maneira que eles não desaparecem com a revolução social e tornam-se centrais no período reconstrutivo.

Os anarquistas, as massas e os sindicatos

O anarquismo só terá um papel relevante na sociedade se conseguir penetrar amplamente no universo dos trabalhadores e converter-se num enorme movimento de massas. Para Kropotkin (2014h, p. 345), "é apenas nas grandes massas trabalhadoras[...]que nossas ideias atingirão seu pleno desenvolvimento". E para garantir essa influência sobre as massas, Kropotkin (2014f, p. 325) sustenta serem insuficientes os esforços insurrecionalistas protagonizados com certa frequência pelos anarquistas. Considera ele que o povo já "não está exigindo uma ação isolada, mas homens de ação em suas fileiras", homens estes que têm como tarefa não substituir os trabalhadores e nem protagonizar atos heroicos ou aventureiros descolados das bases, mas ajudar as massas "a avançar e a dar os poucos passos que as separam da revolução". Posição esta que motivou Kropotkin a fazer cinco grandes recomendações à militância anarquista.

Primeiro, os anarquistas não podem se isolar das massas trabalhadoras; é essencial que estejam permanentemente com o povo, que vivam e ajam com ele. "As massas devem saber quem somos, e os anarquistas devem ter coragem para engajar-se" em suas lutas. Sem essa relação íntima com o universo popular, o anarquismo simplesmente perde seus propósitos, sua razão de ser. (Kropotkin, 2014f, p. 323)

Segundo, esse engajamento nas lutas dos trabalhadores exige que os anarquistas participem do movimento operário e sindical, pois é nesses espaços que acontecem os esforços organizativos e combativos das massas. A partir desse engajamento, torna-se relevante "fazer com que as ideias anarquistas penetrem no grande movimento operário" e "introduzir nos sindicatos operários as ideias anarquistas". (Kropotkin, 2014h, p. 344; 2014i, p. 347)

Terceiro, é indispensável encontrar um termo adequado para a relação entre anarquismo e movimento operário-sindical. Antes de tudo, deve-se "estar no movimento, mas, ainda assim, sempre permanecer sendo nós mesmos". Ou seja, o movimento operário e o sindicalismo, mesmo em suas formas revolucionárias e libertárias, não podem e nem devem substituir o anarquismo; eles têm de contar com a participação e a influência dos anarquistas.

Quarto, não basta estar entre os trabalhadores, no movimento operário, nos sindicatos; é imprescindível estar ali com um propósito, um objetivo, uma linha a seguir. E essa linha é a estratégia do sindicalismo revolucionário, conforme delineada anteriormente. Os anarquistas devem "trazer[essas]nossas ideias ao movimento, difundi-las, por todos os meios, entre as massas"; eles têm de contribuir para "despertar nos operários e nos camponeses uma compreensão de seu próprio poder", e para fazer com que se engajem nas lutas econômicas e políticas. (Kropotkin, 2014h, p. 344; 2014u, p. 468, grifos meus)

Quinto, é crucial saber como promover essa linha estratégica entre os trabalhadores. Deve-se ter em mente que essa mobilização das massas é algo que "requer muito trabalho de base, a ser feito com antecedência", algo que exige esforço, tempo e regularidade. (Kropotkin, 2014f, p. 323) E que precisa ser feito por aqueles meios, e somente por eles, que estejam em estrita concordância com nossos princípios - sem qualquer concessão às atuais tendências autoritárias ou estreitas do movimento[...], sem fazer nenhuma daquelas concessões que muitas vezes parecem convenientes, mas que, no longo prazo, sempre se mostram como abandono dos verdadeiros princípios em função de uma mera sombra de sucesso momentâneo. (Kropotkin, 2014h, p. 344)


Se a estratégia e, principalmente, as táticas podem ter certa flexibilidade, os princípios não. Eles não podem ser abandonados em favor de um pragmatismo que retire do movimento sua capacidade transformadora.

Finalmente, é imprescindível que a relação dos anarquistas com as massas, seus movimentos, seus sindicatos, seja antiautoritária, libertária. Por um lado, os anarquistas precisam garantir a "ascendência que nossas ideias terão no[s]movimento[s]"; eles têm de afirmar sua influência na organização, no crescimento e na radicalização desses movimentos, para que caminhem nessa linha desejada. Por outro lado, os anarquistas precisam fazer isso dentro de certos pressupostos éticos e políticos; eles não devem se "juntar a essa luta por supremacia. Não podemos, não devemos alimentar ideias tais como aquela de tomar posse do[s]movimento[s]". Isso porque esses movimentos das massas não podem ser dominados, aparelhados, subordinados, alienados. Devem ter assegurada sua condição de verdadeiros protagonistas das conquistas populares, sejam elas reformas ou mesmo revoluções. (Kropotkin, 2014h, p. 344)

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* Este texto foi escrito sob inspiração de minha intervenção no Colóquio Internacional "Piotr Kropotkin: Ativismo e Pesquisa", realizado em São Paulo, em julho de 2021.

1 Insisto em colocar "tese" entre aspas pois, conforme argumentarei, se trata de uma hipótese que, por meio de análise rigorosa, não se confirma verdadeira.

2 Quando se fala em comunismo anarquista, anarcocomunismo ou anarquismo comunista não se deve pensar - como algumas vezes se tem feito, inclusive por certos partidários desta posição - que isso se refere a algum tipo de união ou meio-termo entre o anarquismo (de Bakunin, Kropotkin, da Revolução Espanhola etc.) e o comunismo (de Marx, Lenin, Trotsky, da Revolução Russa etc.) históricos.

3 Com uma cisão da Federação Românica da AIT na Suíça, a Federação Jurassiana passou, a partir de 1871, a agregar a militância federalista daquela localidade. Sob enorme influência anarquista, a Federação Jurassiana esteve à frente da conformação da chamada Internacional Antiautoritária, continuadora legítima da AIT até 1877, e nos anos seguintes teve papel central nas discussões do anarquismo suíço e europeu. (Enckell, 1991)

4 Coloco o termo corrente entre aspas, pois não concordo que esta seja uma corrente anarquista. A forma de distribuição dos frutos do trabalho na sociedade futura (coletivista ou comunista) envolveu, realmente, um debate relevante entre os anarquistas, mas não para fundamentar o estabelecimento das correntes anarquistas. Sobre essa discussão, ver: Corrêa, 2015, pp. 208-210, 234-251.

5 Ver, por exemplo, minha crítica a Nettlau e a outros autores dos estudos de referência do anarquismo em: Corrêa, 2015, pp. 55-100.

6 Baseio-me aqui nas posições de Errico Malatesta acerca da distinção entre as categorias ciência e doutrina/ideologia, que foram por mim discutidas em: Corrêa, 2013a.

7 Para que essa discussão seja realizada com seriedade, alguns passos são ainda necessários. Antes de tudo, solucionar como se posicionar em relação à utilização histórica desses termos ("bakuninismo", "bakuninistas" etc.) Eles têm sido utilizados de três maneiras distintas: 1.) Para se referir ao conjunto de federalistas-coletivistas da AIT, que abarcavam anarquistas e não anarquistas, como na trajetória da Internacional Antiautoritária; 2.) Para se referir ao conjunto de anarquistas da AIT, que poderiam ou não fazer parte da Aliança pública e/ou secreta; 3.) Para se referir ao conjunto dos aliancistas. Supondo que a terceira maneira fosse considerada a mais adequada (e isso também pode ser discutido), seria necessário, então, identificar quem eram os aliancistas, ou ao menos os aliancistas mais importantes, quais foram suas posições teóricas e práticas. E, com isso, verificar em que medida havia ou não homogeneidade com as ideias e ações de Bakunin e de outros anarquistas no contexto da AIT. Do meu ponto de vista, isso ainda não foi devidamente realizado. De modo que creio não ser possível, até o presente, falar em "bakuninismo" ou "bakuninistas" na AIT. Tenho empreendido alguns esforços para contribuir com a investigação dessas questões. Apesar das pouquíssimas referências bibliográficas sobre a história da Aliança, tanto em sua forma secreta quanto pública, tentei resgatar, ao menos em linhas gerais, o que se sabe desta história, e também os aspectos da concepção organizativa de Bakunin que envolvem a Aliança. (Corrêa, 2019, pp. 315-397; 495-549) Também cheguei a um conjunto de nomes dos aliancistas que, dentre outros, incluem: James Guillaume, Adhémar Schwitzguébel, Giuseppe Fanelli, Charles Perron, Benoît Malon, Nikolai Jukovski, Valerien Mroczkowski, Louis Palix, Tomás Gonzáles Morago, Rafael Farga-Pellicer, Gaspard Sentiñon e Charles Alerini (Élisée Reclus também chegou s ser membro da Aliança). (Corrêa, 2019, pp. 334-346)

8 Tradução ajustada a partir do livro original de Skirda, escrito em francês.

9 Importante destacar que essa tese da hegemonia insurrecionalista entre 1880 e 1895 só é verdadeira quando se trata do anarquismo europeu. Se se expande o escopo geográfico da análise, é possível notar uma correlação de forças bem distinta, quando se leva em conta países como México, Uruguai, Argentina, Estados Unidos e Egito. Para saber mais, ver: Corrêa, 2013b, pp. 30-35 e as referências que constam em nota nesse texto.

10 Esses possibilistas da "Segunda Internacional" faziam parte do campo socialdemocrata, no qual rivalizavam com os marxistas. Tal possibilismo era, à época, liderado por ex-anarquistas, como Paul Brousse e Benoît Malon. Entretanto, não se pode confundir esse possibilismo com as mencionadas posições dos anarquistas (socialistas, revolucionários), que chamei anteriormente de possibilistas; estes, distintamente, não eram socialdemocratas, mas socialistas revolucionários e antiautoritários, que entendiam ser as reformas um possível caminho para a revolução. Kropotkin foi favorável à participação dos anarquistas na "Segunda Internacional", visando a disputar os rumos do movimento operário e socialista. Sua maior crítica era em relação à hegemonia socialdemocrata e dos partidos políticos; para ele, esta associação deveria contar apenas com a presença de trabalhadores, ou, como sustentou em 1901, tornar-se uma Internacional de sindicatos. Em 1896, destacou: "queremos delegados[na "Internacional Socialista"], não como socialdemocratas ou anarquistas, mas como homens que ganharam confiança em uma associação de trabalhadores, qualquer que seja sua opinião pessoal". (apud McKay, 2014, p. 86)

11 Possivelmente, a maior contradição de Kropotkin nesse período (1872-1921) foi o apoio que manifestou aos Aliados na Primeira Guerra Mundial, rompendo com princípios históricos do anarquismo. Ao manifestar tal posição, alinhou-se a uma pequena minoria de anarquistas com visão semelhante; a imensa maioria manifestou-se contrária à guerra, numa perspectiva antiestatista, revolucionária e internacionalista. Esse posicionamento fez com que Kropotkin fosse expulso do Grupo Freedom, o qual havia ajudado a criar em 1886, e que perdesse parte importante de sua influência entre os anarquistas. (McKay, 2014, pp. 91-93) Para uma discussão mais aprofundada do tema, ver: Berthier, 2014.

12 Este último livro foi publicado no Brasil em 1964, pela editora Mundo Livre, do Rio de Janeiro. Visando a driblar a censura e a repressão, que se aprofundariam ao longo da ditadura militar brasileira (1964-1985), o título foi modificado para Humanismo Libertário e a Ciência Moderna.

13 Para uma discussão acerca da presença de certo espontaneísmo na obra de Kropotkin entre 1872 e 1886, ver: Cahm, 1989, em particular as páginas 135, 151, 213, 242. Importante notar que, se por um lado essa defesa da ação natural e espontânea pode implicar contraposição, ausência ou falta de ênfase organizativa (espontaneísmo), por outro, ela também pode significar a defesa de uma forma de ação não artificial e antiautoritária.

14 Até recentemente, esse texto não tinha tradução para outros idiomas além do original russo em que foi escrito e publicado: ?????? ? ????????? "???????????? ??????????". ??????? ?.?. ????????? ??????? ? ??????? ? ?????????????????. - (??????): ???. ?????? ??????????, 1892. - ?. 1 -10. Articulada por Lucien van der Walt, a tradução de Will Firth ao inglês foi pela primeira vez publicada em McKay, 2014. É esse o texto de Kropotkin que está citado na "Plataforma Organizacional da União Geral dos Anarquistas", publicada na revista Dielo Truda em 1926. ([Dielo Truda], 2017, p. 19) Realmente contrastante com inúmeras publicações do próprio Kropotkin, esse seu texto, além de defender a formação de um "partido anarquista" na Rússia, considera: "A experiência da vida na Europa Ocidental nos ensina que grupos e associações de pessoas com convicções heterogêneas e frequentemente contraditórias não são de grande benefício para a causa comum. Diferenças de opinião ou mesmo simpatias divergentes permanecem e apenas atrapalham umas às outras, muitas vezes paralisando a energia dos indivíduos. Por outro lado, quando partidos com visões bem definidas são criados, compostos por pessoas que realmente podem ser consideradas afins - elas podem mais tarde unir-se muito mais facilmente, quando for necessário agir em conjunto contra o inimigo comum". Ainda que no contexto do prefácio em questão Kropotkin pareça estar reivindicando que os anarquistas se articulassem como um campo próprio e distinto de outros revolucionários russos, suas reflexões também podem ser entendidas - como, ao que parece, realmente foram, por parte dos russos de Dielo Truda - como a necessidade de, dentro do próprio campo anarquista, operar com essas considerações. Algo que se vê com clareza na "Plataforma Organizacional". ([Dielo Truda], 2017)

15 De acordo com Cahm (1989, pp. 145-146, 317-318), no contexto do Congresso de Londres de 1881, Kropotkin desenvolveu tais ideias. Marcos para tanto são uma carta de 27 de fevereiro de 1881 enviada a um companheiro belga (State Archive of Vienna, Information Bureau 143[1881]51/ad1525) e uma circular enviada em junho para Malatesta, Cafiero e Schwitzguébel (Circular Letter to Malatesta, Cafiero and Schwitzguébel, no date, Kropotkin-Malatesta Correspondence). Kropotkin "sugeriu que dois níveis de organização eram necessários, um que seria aberto e baseado na AIT, e outro que seria secreto.[...]A base para a organização secreta, argumentou ele, já existia na antiga Intimité[Aliança?]da Internacional", que continuara a exercer influência na Internacional Antiautoritária. A proposta era "aumentar esse grupo por meio do recrutamento em meio a todos os conspiradores ativos e hábeis, conforme eles aparecessem". Para Kropotkin, a organização secreta deveria ter base nacional e se articular internacionalmente. Considerava que alguns quadros[cadre]dela já existiam: Malatesta, Cafiero, Schwitzguébel, Pindy, Viñas e Morago. "A organização internacional que ele vislumbrava era secreta, muito pequena e informal, e não pretendia tomar nem substituir o desenvolvimento da ação de massas por meio da organização aberta da AIT. A vasta maioria dos trabalhadores que apoiavam ou simpatizavam com o movimento revolucionário, argumentava Kropotkin, não poderiam se envolver numa organização secreta, mas estavam prontos para a ação militante grevista e não poderiam ser deixados a mercê dos parlamentaristas. Uma Internacional Grevista poderia reunir as forças da classe trabalhadora em ações de massa para transformar essas greves em levantes."

16 Trata-se de um trecho do artigo "L'Action", publicado em 25 de dezembro de 1880, no jornal Le Révolté. Ali se lê: "Nossa ação tem de ser a revolta permanente, pela palavra falada e escrita, pelo punhal, pelo fuzil, pela dinamite.[...]Tudo aquilo que não estiver na legalidade é bom para nós". Conforme apontam Cahm (1989, pp. 139-140) e Berthier (2007, p. 19), esse artigo foi, na realidade, escrito por Carlo Cafiero e atribuído erroneamente a Kropotkin, por Jean Maitron, em seu conhecido Histoire du Mouvement Anarchiste en France (1880-1914). Interessante que quando essa citação foi retomada e atribuída a Kropotkin retirou-se dela a defesa do voto de protesto como forma de ação que se encontrava originalmente no texto.

17 Alguns meses antes do Congresso de Londres de 1881, Kropotkin escreveu o já citado artigo "Inimigos do Povo", no qual sustenta, entre outras coisas, a necessidade de operários e camponeses encabecem um processo de luta contra o capital e o Estado. (Kropotkin, 2014a) Alguns meses depois do Congresso, escreveu "Le Mouvement Ouvrier en Espagne"[O Movimento Operário na Espanha], em que defende o sindicalismo da Federación de Trabajadores de la Región Española (FTRE), explicitando suas concepções gerais, sua estratégia revolucionária e reconhecendo a eficácia das greves. (Kropotkin, 2014b) Depois disso, ainda no fim de 1881, escreveu, no também já citado "A Organização Operária", sobre a necessidade de se construir organizações de massas dos trabalhadores, explicitando seus fins, seus meios e como elas poderiam ser constituídas; enfatizou, novamente, a importância das greves. (Kropotkin, 2014c) Isso mostra que, mesmo no contexto do Congresso, quando o anarquismo europeu estava imerso nas perspectivas insurrecionalistas, Kropotkin mantinha, concomitantemente, posições distintas.

18 Interessante que aqui, novamente, Kropotkin não apenas reivindica o sindicalismo revolucionário, mas enfatiza que para que ele funcione como essa ferramenta de luta contra o capital e o Estado, é necessária uma organização anarquista. Ou seja, mais uma vez lança mão da defesa do dualismo organizacional. A continuação da citação de Kropotkin é a seguinte: "Mas, evidentemente, ele[o sindicato]não atinge esse objetivo automaticamente, visto que na Alemanha, na França e na Inglaterra temos o exemplo de sindicatos vinculados à luta parlamentar, ao passo que na Alemanha os sindicatos católicos são muito poderosos, e assim por diante. É necessário aquele outro elemento do qual Malatesta fala e o qual Bakunin sempre defendeu." (apud Nettlau, 1996, pp. 280-281) Nettlau explica esta última frase de Kropotkin: "No artigo ao qual Kropotkin se refere, publicado em Volontà, Malatesta declarou: 'Bakunin esperava muito da Internacional, mas fundou, contudo, a Aliança, que foi a alma da Internacional em todos os países latinos'. O 'outro elemento' do qual fala Kropotkin é a Aliança, à qual ele próprio havia pertencido a partir de 1877, e que apoia em suas cartas de 1881 e 1902. A Aliança, segundo Kropotkin, era indispensável para manter as massas de trabalhadores unidas e apontando dessa maneira em direção ao 'ateísmo, socialismo, anarquismo, revolução', nas palavras de Malatesta, já que, de outro modo, outras forças iriam influenciar os sindicatos no sentido da socialdemocracia, do catolicismo etc." (Nettlau, 1996, p. 281) Tanto nestas citações no corpo do texto quando nesta nota coloquei a referência à edição inglesa do livro de Nettlau, porque a edição em português (Nettlau, 2008 / no prelo), traduzida da edição francesa, é um pouco diferente e suprime certos trechos.

19 Os principais exemplos foram: no México, o Congreso General de Obreros Mexicanos[Congresso Geral de Trabalhadores Mexicanos](CGOM), fundado em 1876; nos Estados Unidos, a Central Labor Union[Sindicato Central](CLU), fundada em 1884; em Cuba, o Círculo de Trabajadores de La Habana[Círculo de Trabalhadores de Havana](CTH), fundado em 1885. (Hart, 2007; Gutiérrez Danton, 2010, p. 27; Fernández, 2000, p. 126)

20 "A influência e o papel histórico do sindicalismo foram substanciais, em especial entre os anos 1890 e 1920. Nesse período, anarquistas e sindicalistas fundaram, conduziram ou influenciaram sindicatos em países tão distintos como: África do Sul, Alemanha, Argentina, Austrália, Bolívia, Brasil, Bulgária, Canadá, Chile, China, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Egito, El Salvador, Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Guatemala, Holanda, Irlanda, Itália, Japão, México, Nova Zelândia, Paraguai, Peru, Polônia, Portugal, Suécia, Uruguai e Venezuela." (Van der Walt, 2019, p. 254) Depois disso, houve inúmeros outros casos, sendo o mais expressivo deles o da Confederação Nacional do Trabalho (CNT), em particular durante a Revolução Espanhola de 1936-1939. Diversas experiências foram levadas a cabo não apenas ao longo de todo o século XX, mas mesmo neste início de século XXI. (Van der Walt, 2016a, 2016b, 2019) Para conhecer os principais casos de 1990 a 2019, ver: Corrêa, 2020, no prelo.

21 Para conhecer o debate conceitual e as distinções entre sindicalismo revolucionário e anarcossindicalismo, ver: Corrêa, 2011; Berthier, 2017; Damier, 2009, pp. 23-41.

22 A publicação original deste texto, realizada nas edições de julho e agosto de 1912 no periódico Freedom, pode ser encontrada nestes links: https://freedomnews.org.uk/wp-content/uploads/2018/02 /Freedom-1912-07.pdf e https://freedomnews.org.uk/wp-content/uploads/2018/02/Freedom-1912-08.pdf.

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