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(pt) Italy, FDCA, Cantiere #45 - Editorial: Segurança ou Autoritarismo? -- O Decreto de Segurança e a Deriva Repressiva do Estado de Crise Global (ca, de, en, fr, it, tr)[traduccion automatica]
Date
Sat, 13 Jun 2026 07:59:59 +0300
Há uma palavra que tem reaparecido obsessivamente no léxico político dos
últimos anos: segurança. Uma palavra aparentemente neutra, quase
reconfortante. No entanto, em sua aplicação concreta, ela se traduz cada
vez mais em um fortalecimento dos aparatos repressivos, uma restrição da
liberdade e uma redefinição autoritária da relação entre Estado e
cidadãos. A Lei nº 54, de 24 de abril de 2026 - que converte o Decreto
de Segurança de 24 de fevereiro - se encaixa perfeitamente nessa
trajetória. E o faz com uma radicalidade difícil de ser lida
isoladamente, exceto dentro de uma transformação mais ampla do contexto
global.
A fase histórica que estamos vivenciando é marcada por uma ruptura
progressiva dos equilíbrios internacionais estabelecidos após o fim da
Guerra Fria. O sistema multilateral apresenta rachaduras evidentes, o
direito internacional é frequentemente aplicado seletivamente e a
competição entre grandes potências volta a dominar as relações globais.
Nesse cenário, a guerra se torna cada vez mais uma ferramenta comum para
regular as relações de poder. O conflito na Ucrânia, as tensões sobre
energia, semicondutores e matérias-primas estratégicas, as guerras por
procuração e as pressões econômicas moldam um mundo cada vez mais
instável e fragmentado, repleto de lógica de bloqueio.
É nesse contexto que o conceito de segurança está mudando. Ele não se
refere mais apenas à proteção dos cidadãos, mas se torna parte
integrante de uma estratégia mais ampla de gestão de crises. Os Estados,
mais uma vez centrais em seu papel após décadas de retórica neoliberal
sobre sua redução de tamanho, estão fortalecendo seus poderes não apenas
para governar a economia, mas também para controlar sociedades assoladas
pela desigualdade, tensão e insegurança generalizada.
O decreto de segurança de 2026 representa um elemento nacional de uma
tendência internacional mais ampla. Não se trata tanto de um desvio
excepcional, mas sim da expressão coerente de um modelo que, diante da
crise, prioriza o controle e a repressão da dissidência em vez de
abordar politicamente a desigualdade e a redistribuição de riqueza.
A dinâmica econômica das últimas décadas levou a uma significativa
concentração de riqueza. Uma parcela crescente da riqueza global é
detida por uma pequena minoria, enquanto grandes segmentos da população
vivenciam condições precárias cada vez mais disseminadas. Mesmo na
Europa, a divisão social permanece marcante. Nesse contexto, a promessa
neoliberal de bem-estar generalizado transformou-se gradualmente em uma
realidade caracterizada pela polarização econômica e fragmentação social.
Diante dessa divisão, a resposta política dominante não tem sido o
fortalecimento do bem-estar social, mas o desenvolvimento de novas
ferramentas para a gestão de conflitos sociais. O chamado "keynesianismo
de guerra" é um exemplo claro: enquanto a saúde, a educação e os
direitos sociais permanecem sob pressão, os gastos militares crescem
significativamente e se tornam uma alavanca para a política econômica.
Os recursos são arrecadados, mas direcionados para a guerra em vez do
bem-estar coletivo.
Nesse cenário, a segurança interna e externa tendem a se fundir. O
inimigo pode ser externo - geopolítico - mas também interno: o migrante,
o pobre, o dissidente.
É aqui que o decreto de segurança mostra sua face mais evidente.
Ampliar as "justificativas" para as forças policiais não é meramente uma
medida técnica: ajuda a criar um espaço no qual o uso da força é mais
facilmente legitimado. O que deveria permanecer excepcional é, portanto,
normalizado. Os cidadãos correm cada vez mais o risco de serem
percebidos não como sujeitos a serem protegidos, mas como potenciais
agentes disruptivos a serem controlados.
O fortalecimento das ferramentas de vigilância - escutas telefônicas,
coleta de dados, monitoramento - também se encaixa nessa mesma lógica.
Em uma sociedade marcada pela insegurança econômica e social, o controle
é frequentemente apresentado como a resposta mais imediata. Mas é uma
resposta que pode produzir um efeito específico: transformar a liberdade
em risco e a dissidência em suspeita.
A centralização do poder no Ministério do Interior segue uma trajetória
semelhante: menos mediação, menos autonomia, maior verticalidade na
tomada de decisões. É o modelo de um Estado que tende a se fortalecer
não pelo consenso social, mas pela capacidade de tomar decisões rápidas,
por vezes sufocando os processos democráticos normais.
Em termos de imigração, a lei consolida uma tendência agora estrutural:
a construção dos migrantes como preocupações de segurança. Detenção,
seleção, controle. Por trás dessa retórica, porém, reside uma dimensão
material: a produção de uma força de trabalho vulnerável, privada de
plenos direitos e a serviço de uma economia baseada na competição desigual.
Não menos significativo é o endurecimento das normas de ordem pública. O
conflito social é cada vez mais criminalizado. Protestar, ocupar e
resistir correm o risco de serem considerados não apenas atos políticos,
mas comportamentos potencialmente puníveis. Dessa forma, a dissidência
está gradualmente migrando do direito democrático para o direito penal.
Este é um passo crucial. Porque quando o conflito é reprimido, raramente
desaparece: com mais frequência, ele se radicaliza, se transforma ou
assume novas formas.
De uma perspectiva comunista libertária, tudo isso parece fazer parte de
um projeto coerente. Em um sistema marcado por desigualdades estruturais
e crises recorrentes, o Estado tende a intervir não tanto para
transformar as condições materiais, mas sim para gerir suas
consequências por meio de medidas cada vez mais autoritárias.
A segurança torna-se, assim, um dispositivo ideológico: serve para
legitimar a supressão de direitos, para construir consenso em torno do
medo e para desviar a atenção das causas profundas das crises para as
suas manifestações mais visíveis.
Ao mesmo tempo, as narrativas culturais de identidade que prometem
proteção e pertença ganham força. "Deus, pátria e família" tornam-se
novamente palavras de ordem num contexto marcado pela precariedade e
desorientação. Mas estas são, muitas vezes, respostas simplificadas, que
constroem comunidades excludentes com base na distinção entre aqueles
que pertencem e aqueles que permanecem de fora.
Neste contexto, a democracia não desaparece, mas sim muda de forma.
Mantém os seus procedimentos, mas tende a tornar-se progressivamente
menos substancial. O poder concentra-se, as elites económicas e
tecnológicas ganham cada vez mais influência e o espaço para a
dissidência diminui. Falamos de democracias "iliberais", mas talvez
fosse mais preciso falar de sistemas em que a forma democrática coexiste
com práticas cada vez mais autoritárias.
O decreto de segurança de 2026 representa uma expressão concreta desta
transformação. Não uma anomalia, mas um sintoma. Não se trata de uma
resposta puramente emergencial, mas de uma escolha estrutural.
E assim a pergunta retorna, mais urgente do que nunca: segurança para
quem? E contra quem?
Se segurança acabar significando, acima de tudo, controle, vigilância e
repressão, então corre o risco de não mais coincidir com a proteção
coletiva, mas com a gestão do medo e do conflito pela força.
Existe uma alternativa? Sim. Mas ela exige uma mudança radical de
perspectiva. Significa reconhecer que a verdadeira segurança provém de
condições materiais dignas: trabalho, moradia, saúde, educação.
Significa reconstruir os laços sociais, fortalecer a participação
democrática e redistribuir a riqueza e os recursos.
Acima de tudo, significa rejeitar a ideia de que o autoritarismo é uma
resposta inevitável.
Porque quando a segurança se torna o nome usado para justificar a
redução da liberdade, corremos o risco de cruzar um limiar perigoso.
E o decreto de segurança de 2026 parece apontar precisamente nessa direção.
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