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(pt) Spaine, Regeneracion - Trabalhar para viver ou viver para ser militante? -- Só uma militância que se cuida pode perdurar. E só uma que perdura pode transformar. Por Xesta Organización Anarquista Galega (ca, de, en, fr, it, tr)[traduccion automatica]

Date Thu, 16 Apr 2026 07:20:14 +0300


1. Militância como trabalho: um compromisso político necessário ---- Existe uma ideia que permeia boa parte das práticas militantes contemporâneas e que raramente é formulada explicitamente: a militância não é trabalho. Ela é apresentada como vocação, como compromisso ético, como dedicação pessoal, como sacrifício. Algo que se faz "porque tem que ser", porque não há alternativa moral, porque a causa merece, porque temos tempo livre... Essa forma de nomeá-la não é inocente. Ela serve para separar a militância do campo do trabalho e, com isso, excluí-la das questões fundamentais que o feminismo vem formulando há décadas: quem a apoia, em que condições, a que custos, com que reconhecimento e com que direito de parar.

Sumário
1. Ativismo como Trabalho: Um Compromisso Político Necessário
2. A Divisão entre Trabalho Produtivo e Reprodutivo: Uma Construção Política
3. Reproduzindo Socialmente: Ativismo, Sustento e Infraestrutura Política
4. Ativismo, Gênero e Poder
6. Os Custos de Não Reconhecer o Ativismo como Trabalho
7. Rumo a uma Ética Feminista do Ativismo em Tempos Sociais de Retrocesso

Este artigo parte de um objetivo político claro: a militância é trabalho, e mais especificamente, é trabalho reprodutivo. Isso porque ela não produz mercados ou valor diretamente realizável no mercado, mas produz algo essencial: comunidades políticas, laços sociais, consciência coletiva, continuidade organizacional, capacidade de loita (autonomia local), poder.

Nomear a militância como trabalho reprodutivo não implica negá-la ou sua natureza transformadora. Pelo contrário. Um erro comum é opor reprodução e transformação, pois o pensamento reprodutivo é sempre conservador e político, por definição, disruptivo. Das teorias marxistas, sabemos que a reprodução da vida social não é um processo neutro ou automático: é uma área de conflito central. Reproduzir não significa repetir-se, mas sim possibilitar que algo exista e continue. A militância reproduz - ou deveria reproduzir - sujeitos políticos, práticas coletivas e modos de vida que, precisamente, questionam a ordem vigente. Que o sexo esteja envolvido, consciente e orientado para a mudança, mas não menos reprodutivo; faina unha forma de reprodução social contra-hexemônica.

A dificuldade em reconhecer isso tem a ver com uma clivagem profundamente enraizada na modernidade capitalista: a separação entre o trabalho e tudo o que permanece fora do emprego remunerado . O trabalho, entendido em sentido estrito, aparece como produtivo, assalariado, mensurável e socialmente reconhecido. Em vez disso, a militância foi colocada em um registro moral: vocacional, heroico, sacrificial. Não é como o trabalho, você sente, apesar do trabalho, dedicando tempo ao descanso, à vida, às coisas que você teve. Essa divisão não descreve a realidade; produz. Ao remover a militância do campo do trabalho, torna-se impossível pensar em suas condições materiais de realização.

A economia feminista dedica tempo a alertar para as consequências dessa lógica: o que não é chamado de trabalho não conta. Não conta nas análises, não conta nas estatísticas, não conta na hora de distribuir encargos ou responsabilidades. O trabalho invisibilizado não é mensurado, não é organizado coletivamente, não é contabilizado. E, sobretudo, não é distribuído.

Essa invisibilidade não afeta a todos da mesma forma. Como ocorre com outros trabalhos reprodutivos, são principalmente homens e dissidentes que assumem tarefas menos visíveis, porém mais constantes: organizar, construir vínculos, resolver conflitos, manter a continuidade quando a epopeia se esgota. Não é coincidência que, quando certas formas de militância adquirem centralidade política, prestígio ou capacidade real de tomada de decisão, ocorra a depravação. Quando o trabalho reprodutivo se torna fundamental para o exercício do poder, aqueles que o apoiam são masculinizados, profissionalizados e expulsos.

Esse padrão não é novo. Ele se repete historicamente sempre que uma área antes considerada secundária se torna estratégica. Ou, o que é interessante destacar aqui, é que a militância não escapa a essa lógica. Pense no trabalho reprodutivo não como um exercício acadêmico, mas sim como uma ferramenta política para questionar seu significado, seus tempos e suas formas. Porque somente aquilo que é reconhecido como trabalho pode ser reorganizado a partir de critérios feministas: justiça, distribuição e sustentabilidade da vida.

2. A divisão entre trabalho produtivo e reprodutivo: uma construção política
Para afirmar que a militância é trabalho - e, além disso, que é trabalho reprodutivo - devemos primeiro desmantelar uma das ideias mais naturalizadas da modernidade capitalista: a suposta neutralidade da categoria "trabalho". O que conta como trabalho, quais atividades se enquadram nessa definição e quais ficam de fora, não é uma questão técnica ou descritiva. É uma decisão política, histórica e profundamente situada.

Na tradição marxista clássica, o trabalho produtivo é definido como aquele que produz valor, ou seja, valor que pode ser realizado fora do mercado, por meio da produção de mercados. O trabalho produtivo é, portanto, o trabalho assalariado inserido diretamente no processo de acumulação de capital. Essa definição não descreve todo o trabalho social existente, mas apenas aquele que é diretamente funcional à lógica capitalista. O restante - tudo o que é necessário para a existência desse trabalho produtivo - permanece fora do campo de visão.

Este é o "fórum" onde se situa o chamado trabalho reprodutivo. Um amplo conjunto de atividades relacionadas à produção seria impossível: alimentação, nutrição, educação, acompanhamento, sustento da vida cotidiana, manutenção dos corpos e dos vínculos em condições de continuidade da existência. Historicamente, esse trabalho foi apresentado como natural, privado, vinculado à esfera doméstica e às capacidades "próprias" das mulheres. Por não figurar como produtor de valor direto, foi invisibilizado, despolitizado e excluído das análises econômicas dominantes.

A teoria da reprodução social, desenvolvida e ampliada por autoras como Lise Vogel, Tithi Bhattacharya e Silvia Federici, rompe com essa cisão. Seu significado fundamental é sinxela e vigoroso: sem a reprodução da vida, não há produção possível. Ela não surge espontaneamente a cada manhã, fruto do trabalho árduo; é produzida e reproduzida por meio de um complexo conjunto de relações sociais, tempos, afetos e coidades. O capital depende estruturalmente desse trabalho, mesmo que não haja remuneração ou reconhecimento.

Dessa perspectiva, o trabalho reprodutivo não é um complemento nem uma esfera secundária. É socialmente essencial. Seu caráter não remunerado ou invisível não diminui sua centralidade; pelo contrário, revela uma relação de apropriação. Ou seja, o capitalismo resolve seu próprio limite externalizando os custos da reprodução da vida, transferindo-os para certos corpos e sujeitos. O que não entra na lista de resultados aparece como "natural", "privado" ou "profissional".

Essa lógica está intimamente ligada a uma visão capitalista ocidental que separa artificialmente a vida, a política e a economia. A economia é apresentada como um espaço autônomo, regido por suas próprias leis, enquanto a vida aparece como um fundo inesgotável que pode ser explorado com consequências. A política, por sua vez, é concebida como uma esfera elevada e abstrata, tão distante quanto possível das condições materiais. Essa tripla separação permite que o apoio da comunidade - material, emocional e relacional - seja expulso da política e atribuído a indivíduos e dissidentes como uma responsabilidade implícita.

É aqui que a militância precisa ser controlada. Estruturalmente, a militância não abrange nenhum trabalho reprodutivo. Ela não produz mercados nem valor de troca, mas produz algo fundamental: as condições de possibilidade da própria política. Ela produz ritmo coletivo, produz confiança, produz aprendizado, produz continuidade. Em suma, produz sujeitos capazes de agir politicamente de forma sustentada. Produz poder. Como todo outro trabalho reprodutivo, tende a ser invisível quando funciona e só se torna evidente quando falha.

Pensar a militância a partir da perspectiva da reprodução social permite-nos mudar o ponto de vista: da conquista heroica para o processo contínuo, da epopeia para a infraestrutura, do sacrifício individual para o apoio coletivo. Não se trata de reduzir a gestão da vida à política, mas de assumir que não existe política na vida que a sustente, e que esta vida, seja ela natural ou neutra, é um trabalho socialmente organizado - ou desorganizado - baseado em relações de poder muito concretas.

3. Reproduzir socialmente: militância, apoio e infraestrutura política.
A falha na reprodução social é a falha de tudo aquilo que possibilita a existência de uma sociedade - ou de uma comunidade política - ao longo do tempo. Não se trata apenas da reprodução de corpos, mas da reprodução de relações, conhecimento, normas, afetos e capacidades. A reprodução social abrange contribuições materiais e emocionais, a transmissão de conhecimento, os processos de socialização e a organização coletiva. É o conjunto de práticas que permite que a vida, e também a ação coletiva, não seja um evento isolado, mas algo sustentado e compartilhado.

Nesse sentido, a militância é uma prática reprodutiva em si mesma. Não apenas porque consome tempo e energia, mas porque produz e reproduz as condições sociais da política. A militância não começa nem termina em ação visível, em mobilização específica ou em conflito aberto. Ela começa muito cedo, na construção paciente de vínculos, e continua depois, sem se preocupar com as pessoas e as estruturas que são capazes de agir novamente.

Reproduzir-se socialmente implica coidar: duas pessoas, dois corpos, duas emoções e também dois tempos. Implica transmitir conhecimento, tanto técnico quanto político: como se organizar, como tomar decisões coletivas, como resistir, como negociar, como coidar sem desarmar. Implica socialização política, ou seja, garantir que novas pessoas possam entrar em um espaço comum, compreender seus códigos, participar sem serem excluídas. E implica organizar ou compartilhar: distribuir tarefas, gerir recursos, manter espaços, assumir responsabilidades que não são individuais, mas coletivas.

Todas essas dimensões estão no cerne da militância, embora raramente sejam reconhecidas como tal. A militância produz comunidade política: não se limita a somar vontades individuais, mas constrói um "nós" capaz de agir internamente ou em conjunto. Mantém redes de relacionamento que não se reduzem à unidade ideológica, mas incorporam afeto, confiança e memória compartilhada. Limita-se à continuidade organizacional, algo especialmente frágil em contextos de precariedade e desgaste. Resolve conflitos internos, evita rupturas desnecessárias, oferece apoio em momentos de crise. Forma-se politicamente, não apenas por meio de discursos, mas por meio da prática diária.

Portanto, nem toda militância ocupa o mesmo lugar no imaginário político. Há uma diferença persistente entre o que é considerado militância "visível" e o que permanece invisível. A primeira está associada ou liderada por discursos públicos, pelo confronto direto com um adversário, pela representação externa. É a militância reconhecida como política porque se encaixa nos códigos tradicionais do poder estabelecido. A segunda - a militância invisível - é aquilo que ela apoia: aquilo que organiza, intermedia, prepara, ensina, acompanha, possibilitando que o conflito não destrua a própria comunidade que promove. Essa divisão não é casual nem neutra. Ela reproduz, não dentro de dois movimentos distintos, a mesma lógica que separa produção e reprodução na sociedade capitalista.

Pensar na militância como infraestrutura ajuda a compreender essa relação. Infraestrutura não é o que se vê, mas sim o que permite que algo funcione. Não é espetacular, mas é essencial. A militância reprodutiva é infraestrutura política: apoia a nossa construção coletiva, distribui cargas, absorve impactos, permite a continuidade. Como toda infraestrutura, só se torna visível quando falha. E, como acontece com outras infraestruturas, deve permanecer livre de reconhecimento e poder de decisão.

4. Militância, gênero e poder
Se a militância é trabalho reprodutivo, e se o trabalho reprodutivo foi historicamente feminizado e invisibilizado, vale a pena perguntar por que tantas formas de militância se apresentam hoje profundamente masculinizadas. A resposta não pode ser psicológica ou acidental. Não se trata de estilos pessoais nem de "excessos individuais", mas sim de lógica estrutural: a masculinização da militância acompanha sua conversão em fonte de poder político reconhecido.

A militância que carregamos se apresenta com linhas muito concretas. É heroica, não um sentido construído em torno de figuras notáveis, nomes próprios ou personagens memoráveis. É sacrificial, porque se mede pela capacidade de suportar mais, de renunciar à vida pessoal, de assumir riscos ilimitados. Em suma, é uma disponibilidade absoluta que não admite interrupções nem dependências. E se apresenta, além disso, como algo à parte da vida: como algo que ocorre num plano diferente de duas coisas, das relações cotidianas ou das necessidades materiais.

Todas essas características estão historicamente associadas à masculinidade política moderna. Não uma masculinidade biológica, mas um modelo de existência política abstrata, autônoma e desimpedida, capaz de agir como se não tivesse corpo nem vínculos. Esse modelo não é neutro: ele se baseia na premissa de que alguém se encarrega de apoiar aquilo que pode ignorar. A militância heroica é possível porque existe uma militância infraestrutural que não é chamada assim.

Esse padrão não é novo. Ele se repete, com variações, ao longo da história. As formas de política intracomunitária são especialmente evidentes. Durante séculos, em contextos de crise e escassez, grupos de homens organizaram revoltas por pão, protestos de subsistência e ações coletivas para garantir a sobrevivência da comunidade. Essas práticas implicavam organização, risco, confronto com o poder e capacidade de mobilização. Eram, duvidosamente, políticas. No entanto, raramente eram reconhecidas como tal. A política "real" era reservada para guerras mais externas, negociações mais formais, instituições mais complexas (hexemônicas ou contra-hexemônicas), espaços liderados principalmente por homens e associados ao exercício e à disputa explícita do poder.

A política cotidiana, aquilo que garante a continuidade da vida, foi sistematicamente despolitizada. Não por falta de conflito, mas porque ele não se encaixava nos códigos masculinos da política.

Um processo semelhante pode ser observado tanto no âmbito das coisas quanto no do conhecimento. Curandeiras e terapeutas foram figuras centrais nas comunidades durante séculos. Possuíam um saber situado, transmitido coletivamente, ligado à experiência, ao território e à coexistência de dois corpos. Esse saber lhes conferia autoridade e prestígio. Quando a saúde começou a se institucionalizar e a se tornar um campo de poder e reconhecimento social, produziu uma transformação radical: o saber foi profissionalizado, regulamentado, masculinizado.

Esse mesmo movimento pode ser observado hoje na militância. Sem querer cair em binarismos de gênero, mas seguindo a realidade socioeducativa que nos influencia e constrói, vemos como homens e mulheres tendem a ocupar os espaços de organização, apoio e cuidado: coordenam tarefas, mantêm o grupo unido, acompanham processos, absorvem conflitos, garantem a continuidade. Enquanto isso, as figuras mais masculinizadas, ao lado delas, aparecem com mais frequência na esfera pública, liderando visivelmente a acumulação de capital simbólico. Não porque algumas sejam mais capazes do que outras, mas porque os códigos de reconhecimento político privilegiam certas formas de presença e desvalorizam outras.

Nomear essa dinâmica não implica idealizar um passado ou essencializar seus sucessos. Trata-se de compreender como operam as relações de poder, inclusive fora do âmbito de dois movimentos que se dizem emancipatórios. Enquanto o militantismo continuar a se medir por parâmetros de vida heroicos, sacrificiais e segregacionistas, continuará a reproduzir uma divisão sexual do trabalho que contradiz os próprios valores feministas que frequentemente proclama.

Reconhecer a militância como trabalho reprodutivo permite, precisamente, desativar essa lógica. Permite-nos questionar quem decide, quem aparece, quem se desgasta e quem capitaliza politicamente sobre esse desgaste. Abre a possibilidade de contestar não só os objetivos da coisa, mas também as próprias formas de fazer política.

6. Cuidado para não encarar a militância como um trabalho.
Não se trata apenas de um problema conceitual, mas sim de um problema lógico com consequências materiais, políticas e afetivas muito concretas. A negação da militância como trabalho opera como uma tecnologia de poder: permite que o trabalho seja extraído sem materialidade, que se exclua a entrega sem oferecer direitos e que se normalize ou se desgaste como prova de compromisso. Como ocorre com outros trabalhos reprodutivos, esses custos não são distribuídos igualmente, mas sim recaem desigualmente sobre certos corpos. Um dos dois efeitos mais óbvios é a sobrecarga feminizada: quando a militância não é pensada como trabalho, as tarefas necessárias para sustentar o coletivo aparecem como algo que "alguém fará", e esse alguém tem um rosto específico. Organizar reuniões, gerenciar horários, monitorar conflitos, manter contato, fazer acordos ou lidar com o desconforto é naturalizado como uma disposição pessoal - caráter, compromisso ou capacidade de cooperar - e não como uma responsabilidade política coletiva.

Ligado a isso, ele aparece como um militante da queimada. A epopeia do sacrifício transforma a exaustão em virtude e a resistência ao limite em critério de legitimidade política. Aqueles que aguentam mais tempo sem cair, aqueles que abrem mão de mais coisas, aqueles que suportam mais pressão parecem mais comprometidos. Essa lógica não é apenas insustentável; é profundamente seletiva e capacitista. Penaliza corpos cansados, vidas marcadas pela falta de alimento, precariedade, doença ou dependência. O que é apresentado como igualdade de entrega é, na realidade, desigualdade de condições.

O resultado é a exclusão sistemática daqueles que não podem "dar tudo de si". A militância, concebida como um todo, deixa espaço para pessoas com filhos, idosos dependentes, problemas de saúde mental ou física, longas jornadas de trabalho ou simplesmente limites que não estão dispostas a ultrapassar. Essa exclusão raramente é formulada explicitamente. Ocorre silenciosamente, através da acumulação de existências, da falta de adaptação a dois ritmos, da culpa pelo que não acontece. O espaço militante se apresenta como aberto, mas só é praticável para que possa arcar com seus custos ocultos.

Essas dinâmicas têm uma consequência mais profunda: a reprodução de lógicas capacitistas e patriarcais não em espaços considerados emancipatórios. O discurso pode ser feminista, anticapitalista ou antiautoritário, mas a prática organiza ou exerce poder de uma maneira já conhecida.

Existe um crescente abismo entre os valores feministas declarados e as práticas militantes reais. Há consenso, mas os tempos e as responsabilidades não são reorganizados. Defende-se a igualdade, mas não se questiona quem falha, quem decide e quem desaparece. A militância torna-se, assim, um espaço de contradição permanente: o que se combate face a face reproduz-se face a face internamente, corroendo a credibilidade política e a capacidade transformadora de ambos os movimentos.

Reconhecer a militância como trabalho não resolve automaticamente esses problemas, mas é uma condição necessária para enfrentá-los. Somente quando ela é nomeada ou trabalhada é que se torna possível distribuí-la, limitar seus horários, torná-la compatível com a vida e submetê-la a critérios de justiça. Enquanto a militância continuar sendo situada fora do campo do trabalho, continuará sendo um espaço onde se extrai valor político à custa da vida daqueles que a apoiam.

Consuelo Meitín e La Corales (Mapoulas Libertarias) em 1949.
7. Diante de uma ética feminista de militância em tempos sociais de regressão
Aceitamos que a militância é trabalho, e mais especificamente trabalho reprodutivo; não podemos continuar organizando-a como uma atividade em torno das questões que o feminismo vem levantando há décadas sobre o apoio à vida. Nomeá-la como tal não é um fenômeno teórico ou simbólico, mas sim uma operação política necessária para tornar visível ou apoiar a ação coletiva e questionar como ela é apoiada. Não se trata de introduzir os "coidados" como uma falácia moral ou de suavizar o conflito político, mas sim de assumir uma consequência radical: a militância deve ser organizada sob critérios de justiça, responsabilidade coletiva e convivência sustentável.

Isso implica, antes de tudo, assumir que a militância deve ser compartilhada. O trabalho realizado por um coletivo não pode recair sistematicamente sobre os mesmos corpos, nem ser delegado a funções informais e invisíveis. Distribuir não significa apenas rotacionar tarefas visíveis ou cargos formais, mas assumir coletivamente aqueles que tendem a permanecer nas sombras: ou acompanhar dois processos, mediar conflitos, lidar com desconfortos, preservar a memória organizacional ou garantir a continuidade. Enquanto esse trabalho não for reconhecido ou distribuído, a igualdade política permanecerá puramente formal.

Isso também implica que a militância deve ser coidada. Coidar não significa proteger a dureza do conflito ou evitar o confronto, mas sim criar condições para que esse confronto não destrua a capacidade coletiva de sustentar tudo ao longo do tempo. Coidar significa atentar para os ritmos, reconhecer os limites, permitir pausas, entradas e saídas sem penalidades políticas. Uma militância construída sobre o esgotamento constante não é mais radical nem mais comprometida; é mais frágil, mais seletiva e mais excludente.

Da mesma forma, uma ética feminista de militância deve estabelecer limites. A lógica do "sempre mais" - mais horas, mais presença, mais disponibilidade - reproduz internamente dois movimentos com a mesma racionalidade expansiva e utilitarista que caracteriza o capitalismo. Estabelecer limites não é uma concessão individual nem um problema de atitudes pessoais, mas sim uma decisão política coletiva. Significa reconhecer que a vida não é um recurso inesgotável e que a transformação social exige duração, não o consumo acelerado de pessoas.

Tudo isso nos leva a uma premissa fundamental: a militância deve ser compatível com a vida. Rompa com a ideia de que a militância é algo imposto a tudo ou em excesso, e passe a ser uma condição para ampliar, e não reduzir, os sujeitos capazes de sustentá-la. Uma política que exclui aqueles que precisam comer, trabalhar, descansar ou simplesmente sobreviver não é mais eficaz nem mais coerente com seus próprios princípios. Tornar a militância e a vida compatíveis não diminui a força da loita; é ou que fai possible no tempo.

Essas orientações se traduzem em uma concepção diferente de poder e organização política. Uma ética feminista da militância questiona a ideia de militância como uma trajetória individual de acumulação simbólica - reconhecimento, autoridade, liderança - e compreende o poder como uma capacidade coletiva de se sustentar e agir. O que importa não é aparecer mais ou falar mais alto, contanto que a comunidade não se fragmente, que mais pessoas possam participar, permanecer e fazer política sem se esgotarem ou serem expulsas. Em nenhuma militância como essa, todos somos necessários e nenhum de nós é essencial.

Concebe-se como trabalho socialmente necessário que fortalece, e não enfraquece, o compromisso militante, porque coloca a militância fora da responsabilidade coletiva e não do voluntarismo moral. A disciplina deixa de se basear no sacrifício individual e passa a se basear em acordos mútuos, ritmos comuns e trabalho coletivo. Quando a militância é entendida como trabalho, realização, conquista e apoio, não é hora de se tornar uma obrigação política compartilhada, nem uma conquista heroica excepcional.

O dilema é claro. Nossa militância é pensada a partir da reprodução da vida - da convivência, dos limites, da redistribuição do trabalho e do poder - ou continuará a se reproduzir fora da lógica capitalista e patriarcal que separa política e vida, heroísmo e apoio, visibilidade e trabalho. Recuperar a militância para a vida não é uma concessão nem um retrocesso: é uma condição para que a transformação social não se construa sobre a sua própria destruição. Porque só a militância que é feita pode perdurar. E só a que perdura pode transformar.

Inés Kropo, ativista Xesta

https://regeneracionlibertaria.org/2026/03/12/traballar-para-vivir-ou-vivir-para-militar/
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