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(pt) Brazil, OSL, Libera #183 - KROPOTKIN E AS ESTRATÉGIAS ANARQUISTAS EDUCACIONISMO, INSURRECIONALISMO E SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO - Felipe Corrêa II. (1/2) (ca, de, en, fr, it, tr)[traduccion automatica]
Date
Mon, 9 Feb 2026 07:38:35 +0200
Resumo ---- Este texto tem como objetivo expor as posições do clássico
anarquista russo Piotr Kropotkin (1842-1921) acerca das estratégias
anarquistas e suas posições frente a tal debate. Ele contesta que
Kropotkin tenha sido um educacionista/culturalista e que seu
"anarcocomunismo" tenha implicado uma ruptura completa com o
"bakuninismo" da Internacional. Depois de uma contextualização
histórica, que mapeia os grandes debates e dilemas estratégicos do campo
operário-socialista e anarquista entre os anos 1880 e 1910, o texto
expõe e analisa o pensamento político de Kropotkin. Argumenta que,
quando situadas em relação aos grandes debates anarquistas, as posições
kropotkinianas são ambíguas, de diálogo ou mesmo adesão a distintas
perspectivas. E que elas podem ser associadas ao anarquismo
insurrecionalista, mas, principalmente, ao anarquismo de massas - em
particular ao sindicalismo revolucionário. Enfim, o texto avança para
uma exposição analítica das ideias de Kropotkin sobre o sindicalismo
revolucionário e sobre o papel dos anarquistas frente a essa forma
revolucionária de sindicalismo.
Palavras chave: Piotr Kropotkin, anarquismo, sindicalismo
revolucionário, anarcossindicalismo, syndicalism ---- "É apenas nas
grandes massas trabalhadoras[...]
que nossas ideias atingirão seu pleno desenvolvimento". - Piotr Kropotkin
Este texto tem como objetivo expor as posições do clássico anarquista
russo Piotr Kropotkin (1842-1921) acerca das estratégias anarquistas e
suas posições frente a tal debate. Ele divide-se em quatro grandes
partes, que se encadeiam logicamente e permitem subsidiar algumas
afirmações mais conclusivas, as quais enuncio nesta introdução e, em
seguida, discuto de maneira mais pormenorizada.
Em "Kropotkin, Comunismo Anarquista e Educacionismo" contesto uma "tese"
que circula atualmente no Brasil. Buscando suas raízes historiográficas
e suas expressões contemporâneas, exponho suas linhas mestras para negar
que Kropotkin tenha sido um educacionista/culturalista, e que o
"anarcocomunismo" por ele defendido tenha constituído uma ruptura
absoluta (ou mesmo um "revisionismo") em relação ao chamado bakuninismo
da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT ou "Primeira
Internacional").
Em "Movimento Operário-Socialista e Anarquismo" retomo o contexto
organizativo em meio ao qual o pensamento político kropotkiniano foi
produzido. Isso é feito a partir da discussão dos principais esforços
organizativos internacionais que ocorreram ao longo da vida política de
Kropotkin, e que se estendem da "Primeira Internacional", fundada em
1864, até a Internacional Sindicalista, fundada entre 1922 e 1923. Nessa
contextualização, mapeio os grandes debates e dilemas estratégicos
ocorridos entre os anos 1880 e 1910, no campo operário-socialista em
geral e anarquista em particular.
Em "Kropotkin e os Grandes Debates Anarquistas" e "Entre o Anarquismo
Insurrecionalista e o Anarquismo de Massas" analiso o pensamento
político de Kropotkin à luz desses debates e dilemas estratégicos e o
situo frente a eles. Discutindo as características fundamentais e as
ambiguidades desse pensamento, mostro que, por um lado, as posições de
Kropotkin certamente se distanciam do marxismo e se aproximam do
anarquismo. Por outro lado, entretanto, evidencio que, quando situadas
em relação aos grandes debates anarquistas, as posições kropotkinianas
são mais ambíguas, de diálogo ou mesmo adesão a distintas perspectivas.
O principal argumento dessa parte é que, ao passo que Kropotkin tem
poucas contribuições que permitem aproximá-lo da "tese"
(educacionista/culturalista), ele possui uma produção intelectual
considerável que torna possível associá-lo ao anarquismo
insurrecionalista, mas, principalmente, ao anarquismo de massas - em
particular ao sindicalismo revolucionário. Não se trata aqui de afirmar
Kropotkin como um teórico sindicalista revolucionário, mas que parece
inegável que, entre 1881 e 1912, ele desenvolveu um conjunto de ideias
que possibilitam certa aproximação com o sindicalismo revolucionário.
Em "Kropotkin e o Sindicalismo Revolucionário" exponho justamente
aqueles que, a meu ver, são os aspectos mais importantes da visão
kropotkiniana desta forma revolucionária de sindicalismo, assim como a
perspectiva dos anarquistas em relação a ela. Para estabelecer esse
vínculo entre o pensamento político de Kropotkin e o sindicalismo
revolucionário foi essencial extrapolar seus livros mais conhecidos e me
debruçar sobre um conjunto de artigos escritos em francês e em inglês
para a imprensa anarquista entre 1881 e 1912, e que foram reunidos por
Iain McKay naquela que considero a melhor antologia de Kropotkin: Direct
Struggle Against Capital: A Peter Kropotkin Anthology[Luta Direta Contra
o Capital: uma antologia de Piotr Kropotkin](McKay, 2014).
Nesses artigos, Kropotkin defende uma estratégia sindicalista
revolucionária (syndicalist) pautada na necessidade de construção de
sindicatos massivos, que abarquem todos os setores da classe
trabalhadora para a luta econômica imediata contra a exploração
capitalista. Sustenta que esse sindicalismo deve funcionar a partir dos
pressupostos federalistas e com base nos princípios da ação direta e da
prefiguração, e que é possível e necessário, em especial com a
participação anarquista, garantir sua radicalização e seu avanço para
uma perspectiva revolucionária, de transformação política da sociedade.
KROPOTKIN, COMUNISMO ANARQUISTA E EDUCACIONISMO
A mencionada "tese"1 bebe nas narrativas dos próprios anarquistas,
elaboradas desde o século XIX e reproduzidas enfaticamente ao longo
século XX, inclusive no Brasil. Mas se consolida apenas com a retomada
de parte dos discursos e produções historiográficas anarquistas e com a
elaboração, no início dos anos 2000, de uma versão mais radicalizada,
que permanece sendo reproduzida por alguns setores do anarquismo brasileiro.
O fato histórico mais importante para a compreensão dessa "tese" é a
passagem do coletivismo anarquista (ou "anarcocoletivismo") defendido
por Mikhail Bakunin, membros da Aliança e da AIT, para o comunismo
anarquista (ou anarcocomunismo) defendido por Kropotkin, Élisée Reclus,
Errico Malatesta e outros.2 Esse processo ocorreu no contexto da chamada
Internacional Antiautoritária (1872-1877), entre 1874 e 1880. E
implicou, em meio a grandes e acalorados debates, uma mudança importante
de projeto, naquilo que se referia à forma de distribuição dos frutos do
trabalho na sociedade pós-revolucionária - socialista, sem Estado e
classes sociais.
De uma parte, os coletivistas consideravam que essa distribuição deveria
se dar segundo o princípio "a cada um segundo seu trabalho"; de outra,
para os comunistas, ela precisava ocorrer conforme o princípio "a cada
um segundo suas necessidades". Posição esta que se consolidou entre os
anarquistas europeus em 1880 e, a partir de então, tornou-se hegemônica.
(Nettlau, 2008, pp. 180-188).
Tanto os anarquistas, quando a historiografia do anarquismo,
consideraram essa passagem do coletivismo ao comunismo um acontecimento
central. E praticamente todos, em alguma medida, posicionaram-se sobre o
assunto em discussões, artigos de jornal e livros. Dois importantes
exemplos podem ser mencionados.
Kropotkin (1946, pp. 419-420), o anarquista mais lido do século XX, em
sua autobiografia de 1899 já ressaltava que "quando a Federação
Jurassiana3 se declarou ousadamente anarquista-comunista, no seu
Congresso de 1880", rompendo com o coletivismo da AIT, "o anarquismo
ganhou numerosos partidários na França". Em 1910, no verbete sobre
anarquismo que escreveu para a Encyclopaedia Britannica, Kropotkin
(1987, p. 30) também enfatizava que, nos anos 1880, "a maioria dos
operários anarquistas prefere as ideias anarcocomunistas, que
gradualmente evoluíram a partir do coletivismo anarquista da Associação
Internacional[dos]Trabalhadores".
Nettlau (2008, p. 188), historiador profundamente influente do
anarquismo, em seu livro escrito e publicado entre os anos 1920 e 1930,
narrou os principais marcos do debate entre coletivistas e comunistas e
concluiu que "essa concepção[anarquista comunista]iniciada em 1876 foi
retomada de início pelos italianos, depois se tornou geral na Suíça, na
França e na Bélgica a partir de 1880". Nettlau (no prelo) refere-se, o
tempo todo, às categorias de "comunistas/comunismo" e
"coletivistas/coletivismo" para explicar os debates e posições, e
identifica, na Europa, duas grandes correntes anarquistas: a "concepção
coletivista" e a "concepção comunista".
Escritos como estes de Kropotkin e Nettlau influenciaram amplamente a
militância, a historiografia e as discussões teóricas do anarquismo ao
longo do século XX, e continuam a ser marcantes neste início de século
XXI. No Brasil, tais posições foram incorporadas, dentre outros, num bom
trabalho acadêmico, influente na consolidação da "tese" ao longo dos
anos 2000. Trata-se de Presença do Anarquismo no Brasil: um estudo dos
episódios literário e educacional (1900-1920), de Flávio V. Luizetto,
tese de doutorado apresentada ao Departamento de História da
Universidade de São Paulo em 1984. (Luizetto, 1984)
Seu primeiro capítulo, "Apontamentos sobre a história do comunismo
libertário", propõe, como sustenta o próprio Luizetto (1984, p. 18),
discutir a trajetória desta "corrente" do anarquismo que se vem chamando
de comunismo anarquista/ libertário, anarquismo comunista ou
anarcocomunismo.4 Nesse capítulo, ele toma como principal referência
historiográfica a obra de Max Nettlau. Os clássicos anarquistas mais
discutidos por ele são Piotr Kropotkin, Élisée Reclus e, em menor
medida, Errico Malatesta - aqueles que, segundo Nettlau, são os maiores
representantes dessa "corrente" anarquista.
Para Luizetto (1984, p. 41), o livro A Evolução, a Revolução e o Ideal
Anarquista, de Reclus, "contém o essencial daquilo que se pode denominar
de teoria do comunismo libertário". Neste livro, Reclus (2002), um
ex-communard, ao fazer uma autocrítica da Comuna de Paris, sustenta que
as revoluções só podem se levadas a cabo depois de uma evolução social,
um crescente movimento de opinião que tem de conquistar os corações e
mentes de parte ampla da sociedade.
De modo que a tarefa fundamental dos anarquistas deve ser contribuir com
essa mudança, em especial por meio das iniciativas educativas e culturais.
Tal teoria seria complementada, ainda segundo Luizetto (1984, p. 49),
pelo livro Apoio Mútuo[Ajuda Mútua, em algumas traduções]: um fator de
evolução, de Kropotkin. Neste livro, Kropotkin (2009), no intuito de
combater o darwinismo social, mostra, por meio de investigações de
comunidades animais e humanas, que também a cooperação é responsável
pela evolução. E, desde uma perspectiva evolucionista, sustenta a
necessidade da ampla difusão do princípio do apoio mútuo para uma
evolução ou progresso mais elevado da humanidade rumo à revolução e à
anarquia.
Ainda que relativize tais posições com escritos de Malatesta e algumas
posições sindicalistas anarquistas, inclusive as de Kropotkin, a tese
promovida por Luizetto (1984, p. 31) é que a Federação Jurassiana,
"mesmo não tendo a pretensão de polemizar com as ideias defendidas por
Bakunin, significou, na prática, um afastamento da tradição
bakuninista". Ruptura que teria se dado em relação às organizações
secretas, às concepções ditatoriais, destrutivas e classistas de
Bakunin. (Ver também: Luizetto, 1984, pp. 67-70, 81-82)
Entretanto, foi um texto publicado em 2003 que consolidou e difundiu a
"tese" nos meios libertários e, em alguma medida, acadêmicos do Brasil.
Trata-se da introdução do livro Anarco-Comunismo Italiano, com textos de
Malatesta e Luigi Fabbri, organizado pelo coletivo Luta Libertária. Como
explicaram em nota, os autores retomaram a estrutura, o argumento e
trechos do capítulo de Luizetto, ao produzir "A Corrente
Anarco-Comunista: histórico, crítica e permanência". (Luta Libertária,
2003) Ainda assim, vale ressaltar que, neste texto, para o
desenvolvimento da "tese", os argumentos de Luizetto foram bastante
acentuados.
O Luta Libertária argumenta que "no anarquismo há um antes e um depois
do anarcocomunismo, um divisor de águas no pensamento anarquista". Pois
o anarcocomunismo teria implicado um "rompimento com o anarquismo
bakuninista", em inúmeros aspectos. A ideia sustentada pelo grupo é que
a concepção anarcocomunista de "evolução, progresso, revolução, ciência,
determinismo, natureza" subsidiou uma perspectiva determinista e
evolucionista de mundo, a qual terminou não apenas colocando em segundo
plano os aspectos históricos e sociais, mas também promovendo a noção de
que "a revolução seria uma tendência natural e inevitável da história".
Graças a tal inevitabilidade, a revolução se daria espontaneamente e,
portanto, não exigiria a "necessidade de preparação da nova sociedade",
"da projeção de formas de organização social" ou de formas de
organização anarquista. (Luta Libertária, 2003, pp. 12, 19)
Ainda assim, esse processo revolucionário poderia ser preparado, e mesmo
acelerado pela ação humana. Algo que os anarcocomunistas pretendiam
fazer "apenas cumprindo o papel de explicar às pessoas o rumo da
história, de prepará-las para o que inevitavelmente virá". De modo que
"o único espaço deixado para a intervenção dos militantes"
anarcocomunistas seria aquele do "campo das ideias". Todos esses
militantes teriam em comum "a valorização da propaganda conscientizadora
como a estratégia fundamental", e, por meio dela, buscariam "educar as
massas de modo a prepará-las para o momento revolucionário". Isso
poderia ser confirmado pela frequente utilização que fazem de termos
como "convencimento, persuasão, conscientização, ilustração e educação".
(Luta Libertária, 2003, pp. 29, 16, 22)
Dessa maneira, os anarcocomunistas teriam adotado uma estratégia que,
como no Reclus de A Evolução, a Revolução..., recomendaria, primeiro,
transformar as mentes, para, apenas depois, transformar o mundo.
Perspectiva que demonstraria a "raiz idealista do anarcocomunismo",
segundo a qual "é a ideia que move a história, que gera os fatos". Algo
que não apenas refletiria o afastamento entre os anarquistas e os
trabalhadores, reforçado pelo contexto posterior à Comuna de Paris, mas
que também contribuiria para reforçar este afastamento até fins do
século XIX. (Luta Libertária, 2003, pp. 30, 23)
Em alguma medida, esses argumentos do Luta Libertária foram ainda mais
radicalizados por uma organização conformada no ano de publicação do
livro de Malatesta e Fabbri: a Federação Anarquista Insurreição (FAI),
que logo modificaria seu nome para União Popular Anarquista (UNIPA). O
ponto de partida mais importante para o desenvolvimento que essa
organização fez da "tese" é o texto "A Revolução Social no Brasil",
aprovado em seu segundo congresso, em 2004. (UNIPA, 2004) Argumentos
desenvolvidos e aprofundados nos anos seguintes, por exemplo, na
"Plataforma Internacional do Anarquismo Revolucionário", de 2011.
(OPAR/UNIPA, 2011) Com o fim do coletivo Luta Libertária e da
Organização Socialista Libertária de São Paulo (OSL-SP) que o sucedeu,
tais argumentos encontraram na UNIPA e em seu entorno seus maiores
difusores.
Propondo discutir "o anarquismo e sua verdadeira história", a militância
da UNIPA considera que, com a derrota da Comuna de Paris, a morte de
Bakunin e o fim da AIT, o bakuninismo teria sido caricaturado, desviado
e enfrentado pelos anarquistas, ainda no século XIX. Isso teria dado
corpo àquilo que a organização chama de "revisionismo", "ecletismo" e
"liquidacionismo". O que interessa neste momento é a noção de
"revisionismo", a qual considera que o "anarcocomunismo" constituiu uma
ruptura - nesse caso, uma revisão - dos pressupostos centrais do
"bakuninismo".
Segundo os autores do documento, tal revisionismo, de caráter
pequeno-burguês ou mesmo burguês, teria duas matrizes. Uma delas "se
origina a partir da revisão dos pressupostos básicos do anarquismo com a
introdução da noção de comunismo - em oposição de coletivismo - como
eixo do programa anarquista". Algo que teria sido concretizado pela
"revisão proposta conjuntamente por Errico Malatesta e Carlos Cafiero no
congresso da Internacional Antiautoritária de 1875 e tem em Kropotkin
seu principal difusor", mas também em Reclus. (UNIPA, 2004, pp. 15-16)
No limite, esse anarcocomunismo revisionista não seria sequer
anarquista, visto que "ataca os fundamentos ideológicos, teóricos,
estratégicos e programáticos do anarquismo, inverte seu significado e
assim simula reivindicá-los, buscando confundir-se com o anarquismo".
Entre outras coisas porque substitui o "classismo proletário anarquista"
pelo "educacionismo pequeno-burguês revisionista", subsidiado numa
perspectiva "cientifico-evolucionista". Predominante em diversos
contextos até 1900, esse revisionismo - cuja versão mais acabada seria
"a proposta de 'síntese' elaborada por Vóline e Sebastien Faure na
década de 1920" - não teria apenas afastado o anarquismo "da luta e da
causa do povo", mas influenciado seu desenvolvimento histórico até o
presente, como demonstrariam as posições, autointituladas anarquistas,
de "caráter individualista, educacionista e liberal". (UNIPA, 2004, pp.
16-17)
O quadro abaixo resume, em linhas gerais, os aspectos fundamentais da
"tese", conforme discutida até aqui:
Quando se analisa o contexto de produção dos textos em questão, é
possível fazer alguns comentários. No caso de Luizetto, trata-se de uma
produção acadêmica dos anos 1980, quando a discussão e a bibliografia no
Brasil eram limitadíssimas. Creio que ele fez o melhor que era possível
naquele momento, adotando uma perspectiva interessante, de priorizar,
por meio das obras de Nettlau e de outros autores - várias delas em
outros idiomas -, a visão do próprio movimento e de sua historiografia
sobre si mesmo. Perspectiva que era hegemônica entre os estudos do
anarquismo feitos com alguma seriedade, e muitíssimo melhor do que
aquela adotada por autores marxistas ou liberais. Mas, como se sabe
hoje, apesar de suas imensas qualidades, Nettlau possui também problemas
consideráveis, e isso acaba se refletindo no trabalho do autor.5
Nos casos da produção de Luta Libertária e UNIPA, o caso é diferente.
Ainda que seus autores reivindiquem certo rigor, não são textos que se
pretendem acadêmicos; foram produzidos já nos anos 2000, com bem mais
discussão acumulada e bibliografia disponível sobre o tema. Ainda assim,
surpreende que os referenciais não sejam muito diferentes daqueles de
Luizetto. Ademais, há um fator que contribui para explicar por que os
argumentos de Nettlau, Luizetto e outros foram tão acentuados nesses
textos. A meu ver não se trata apenas de questões historiográficas e
teóricas, mas da intencionalidade político-ideológica desses textos.
Para o Luta Libertária, contou a necessidade de marcar uma ruptura com
aquilo que julgavam o passado recente "educacionista/culturalista" do
anarquismo brasileiro, que tinha nas palestras e eventos culturais seus
principais meios de ação, para promover um anarquismo organizado e
inserido nas práticas das lutas populares de massas. Para a UNIPA, foi
importante a necessidade de disputar a linha desse "anarquismo
organizado" brasileiro, que tomava corpo no Fórum do Anarquismo
Organizado (FAO), fundado em 2002. A organização pretendia, no intuito
de alinhar as posições em torno do "bakuninismo" por ela defendido,
mostrar os limites e equívocos daquilo que classificou como
"revisionismo", "ecletismo" e "liquidacionismo".
É óbvio que toda produção textual, inclusive as acadêmicas, contam com
uma perspectiva ideológica norteadora, seja ela declarada ou não. Mas,
quando se trata de discutir seriamente um objeto do passado - fazer
ciência de maneira rigorosa, seja para subsidiar um projeto político ou
não -, é importante ter a precaução de não substituir aquilo que foi por
aquilo que se gostaria que tivesse sido.6 E, na minha avaliação, apesar
dos méritos que os textos de Luta Libertária e UNIPA possam ter, isso
foi feito em vários momentos. Ou seja, na intenção de construir um
argumento politicamente útil, ambos, em muitas ocasiões, terminaram por
substituir o rigor historiográfico e teórico por afirmações sem respaldo
na realidade e generalizações grosseiras.
A seguir, aponto rapidamente aqueles que considero ser os maiores
problemas dos textos - e, portanto, da "tese" - em questão.
O primeiro aspecto é a própria divisão das correntes anarquistas. Como
argumentei em Bandeira Negra: rediscutindo o anarquismo, foram inúmeras
as maneiras que os estudos de referência do anarquismo propuseram para
conceituar as correntes anarquistas. E a grande maioria delas é bastante
problemática. Por exemplo, quando operam com critérios que se sobrepõem
e que são insuficientes para explicar os grandes debates anarquistas.
Conforme sustentei nesse livro, considero que, ao analisar o anarquismo
em toda sua história e em perspectiva global, é possível falar em duas
correntes anarquistas: o anarquismo de massas e o anarquismo
insurrecionalista. Ambas as correntes distinguem-se a partir das
posições assumidas frente aos três grandes debates históricos entre
anarquistas. Sobre a questão da organização, os anarquistas de massas
sustentam uma perspectiva organizacionista (necessidade de organização
em nível de massas, político-ideológico anarquista ou ambos) e os
anarquistas insurrecionalistas uma perspectiva antiorganizacionista
(risco ou irrelevância das organizações estruturadas, e preferência por
grupos informais ou atuações individuais).
Sobre a questão das reformas, os primeiros são possibilistas (defendem
que as lutas por reformas, ganhos imediatos, são parte importante da
luta revolucionária, a depender de como forem levadas a cabo) e os
segundos são impossibilistas (contrários às lutas por reformas, ganhos
imediatos, entendendo-as como ineficazes ou prejudiciais ao projeto
revolucionário anarquista). Sobre a questão da violência, os primeiros
sustentam sua necessidade simultânea ou concomitante à construção de
movimentos de massas (violência simultânea/derivada) e os segundos
consideram que ela funciona como gatilho para a criação de movimentos
revolucionários (violência como gatilho). (Para aprofundamentos, ver:
Van der Walt, 2016a, pp. 95-97; Corrêa, 2015, pp. 234-248)
Portanto, o comunismo anarquista (ou anarcocomunismo) não constitui uma
corrente anarquista, principalmente por três razões: 1.) Porque, desde
uma perspectiva global (mundo todo) e de longa duração (1868 ao
presente), os debates que envolvem a defesa da autogestão (projeto de
sociedade futura) não são os mais importantes. 2.) Porque, nessa mesma
perspectiva, o debate entre coletivismo e comunismo como formas de
distribuição dos frutos do trabalho não teve grande impacto. Foi
marcante na Europa dos anos 1870 até o início do século XX, mas, depois
disso, preponderaram amplamente as posições comunistas; aquelas
intermediárias, que propunham modelos híbridos, também ganharam certo
destaque. 3.) Porque, nessa categoria unem-se anarquistas que, naquilo
que há de essencial, são completamente diferentes: por exemplo, Luigi
Galleani (antiorganizacionista, impossibilista e partidário da violência
como gatilho) com Luigi Fabbri e Nestor Makhno (organizacionistas,
possibilistas e partidários da violência concomitante aos movimentos de
massa). (Corrêa, 2015, pp. 234-251)
O segundo aspecto tem a ver com a excessiva generalização para a
conformação da categoria comunismo anarquista / anarcocomunismo.
Considerar que o Reclus de A Evolução, a Revolução..., ou mesmo o
Kropotkin de O Apoio Mútuo... constituam os maiores fundamentos de todos
aqueles considerados "anarcocomunistas" é um equívoco.
É verdade que os argumentos educacionistas e culturalistas de Reclus
aparecem nesse e em outros de seus escritos políticos. Contudo, mesmo
nesse escrito, ele defende a greve e a greve geral como ferramentas
transformadoras. (Reclus, 2002, pp. 122-123) Num outro texto, ele
sustenta que, numa greve, o que mais importa para os grevistas é "tomar,
para benefício de todos, toda a propriedade feita para explorá-los".
(Reclus, 2020) Também é verdade que tais argumentos conduziram a uma
crença de que, passando por uma evolução plena (em termos do
convencimento acerca das ideias revolucionárias e anarquistas), os
trabalhadores poderiam protagonizar revoluções quase pacíficas ou mesmo
pacíficas. (Reclus, 2002, p. 131) Entretanto, Reclus também reconhece,
em outros escritos, que, "sem dúvida, o movimento de transformação
acarretará violências", e que "nunca qualquer progresso, seja parcial,
seja geral, realizou-se por simples evolução pacífica". (Reclus, 2011a,
p. 40; 2011b, p. 44)
Ou seja, há, mesmo em Reclus, certas ambiguidades, que permitem pôr em
xeque o "tipo ideal" do anarcocomunismo construído na "tese". Ainda
assim, é necessário reconhecer certo respaldo às posições da "tese" em
distintos momentos da obra reclusiana. Agora, quando se passa a outros
"anarcocomunistas", o cerne da "tese" se dissolve completamente. Mesmo
que possam, em alguns momentos, dialogar com os argumentos de Reclus,
anarquistas como Kropotkin, Malatesta, Fabbri, Cafiero e muitos outros
definitivamente não compartilham o conjunto dessas posições
educacionistas e culturalistas.
Kropotkin, como pretendo mostrar a seguir, se por um lado possui ideias
que reforçam a leitura e a generalização feitas por Luizetto e outros de
O Apoio Mútuo... - e, portanto, da "tese" - por outro, tem argumentos
que as contrapõem. Malatesta não possui uma leitura biologizante,
evolucionista e positivista da sociedade; foi defensor da organização,
das lutas por reformas e, em diversos momentos, da ação do movimento
operário e dos sindicatos. (Malatesta, 2014a, 2000a, 2000b, 1989, 2014b,
2014c, 2014d) Fabbri, num sentido analítico semelhante ao de Malatesta,
também defendeu a organização, assim como as lutas por reformas, greves,
movimentos operários, sindicatos, e também uma revolução que se
realizasse a partir da ação dos trabalhadores. (Fabbri, 2003a, 2012a,
2012b, 2003b) Cafiero reforçou que os fatos são mais importantes que as
ideias e, justamente por isso, uma transformação que não viria apenas
das iniciativas educacionais, mas da propaganda pelo fato e,
principalmente, dos fatos revolucionários. (Cafiero, 2012a, 2012b)
O que sustento aqui não é que esses e outros "anarcocomunistas"
mantiveram todos os fundamentos do "bakuninismo" da AIT. Certamente,
quando se realiza uma análise mais pormenorizada de suas obras, é
possível notar aproximações e distanciamentos, tanto em relação a
Bakunin, quanto a Kropotkin e Reclus, para não falar de outros
"bakuninistas" e "anarcocomunistas". Considero, nesse sentido, que não
há generalização possível nos termos propostos pela "tese".
O terceiro aspecto refere-se às afirmações sobre Bakunin, os
"bakuninistas" e o "bakuninismo". Algumas dessas afirmações são
equivocadas e, em certos casos, há generalizações não comprováveis e
mesmo certa idealização.
Das afirmações equivocadas destaca-se aquela que, tanto Luizetto (1984,
p. 60) quanto Luta Libertária (2003, p. 12), colocam em relação às
"organizações secretas" serem um traço central do "bakuninismo". Cumpre
notar que, em Bakunin, realmente há o projeto de uma Aliança secreta;
mas também é verdade que tal organização estaria articulada com uma
Aliança pública e com a Internacional (também pública). De modo que o
projeto organizativo de Bakunin não se restringe e nem prioriza as
formas secretas e clandestinas de organização em relação às formas
públicas, mas as combina. (Corrêa, 2019, pp. 335-346)
Das generalizações e idealizações destaca-se aquela que envolve a
própria noção de "bakuninismo", conforme formulada por Luta Libertária e
UNIPA. Afinal, quem foram os "bakuninistas"? Quais eram suas concepções
teóricas, e em que medidas elas tiveram respaldo na prática? Como
sustentei num outro momento, tais questões não possuem respostas mais
definitivas até este momento. Por exemplo, não se sabe exatamente quem
foram os aliancistas, em que medida eles compartilhavam as posições de
Bakunin, e nem se tudo que Bakunin escreveu sobre a Aliança secreta e
pública foi ou não colocado em prática. (Corrêa, 2019, p. 336)
É por isso que, desde uma perspectiva teórica e histórica, considero
muito difícil, ao menos até este momento, falar na existência de um
"bakuninismo" - como conjunto de teorias, práticas e/ou expressão
anarquista na AIT. Parece-me que, ao reivindicar esse "bakuninismo", o
que faz o Luta Libertária e, especialmente, a UNIPA, é alçar algumas
posições teóricas de Bakunin ao nível de um anarquismo supostamente
homogêneo dos tempos da Internacional. Algo que entendo como uma
idealização de aspectos da teoria bakuniniana que, conforme argumentei,
não se sabe exatamente por quem eram defendidos, em que medida eram
defendidos e menos ainda se foram ou não incorporados na prática desses
militantes.7
Em suma, como afirmei em outros momentos, a pesquisa anarquista, tanto
em termos teóricos quanto historiográficos, tem se desenvolvido de
maneira mais significativa e de fato apresenta perspectivas animadoras.
Mas há, ainda, aspectos fundamentais a serem desenvolvidos, e que
exigirão esforços consideráveis. Não devemos investir na elaboração de
teses mais gerais sem nos debruçar sobre os casos particulares. E,
definitivamente, não se trata aqui de sustentar um particularismo
histórico que recusa as generalizações. Mas de entender que as
necessárias generalizações (conceitos, teorias, teses etc.) não podem
ser feitas de modo arbitrário e/ou abstrato, sem fundamentos
historiográficos; tais generalizações, inúmeras vezes importantes ou
mesmo imprescindíveis, têm de ser feitas a partir desses fundamentos
historiográficos e/ou ser testadas por eles.
Isso vale para teorias sobre a existência de uma corrente
anarcocomunista e também de um bakuninismo na Internacional. É ainda
fundamental nos debruçarmos de modo aprofundado sobre as contribuições
teóricas dos anarquistas e sobre os grandes episódios da história do
anarquismo. Assim como ampliar os estudos comparativos e as elaborações
mais generalizantes.
MOVIMENTO OPERÁRIO-SOCIALISTA E ANARQUISMO: DA "PRIMEIRA INTERNACIONAL"
À INTERNACIONAL SINDICALISTA
Em seu período anarquista, Kropotkin viveu na Rússia e, principalmente,
na Europa Ocidental. Naqueles anos, a Europa era palco de grandes
disputas no movimento operário e socialista internacional, e também de
intensos debates entre os próprios anarquistas. (Berthier, 2015; Skirda,
2002, pp. 32-104) Nas próximas páginas, tais disputas e debates serão
mapeados e discutidos à luz dos principais esforços organizativos
internacionais do período.
Observando a história da AIT (e da Internacional Antiautoritária) até
1877, é possível compreender como essas disputas foram se consolidando.
Como expliquei em Liberdade ou Morte: teoria e prática de Mikhail
Bakunin (Corrêa, 2019, pp. 315-387), até a chamada "cisão" de 1872, no
Congresso de Haia, os campos em disputa, federalista e centralista,
assumem certas características. Os federalistas, preponderantes nas
seções, são majoritariamente coletivistas - mudança ocorrida entre 1868
e 1869, quando sucedem os mutualistas -, e dentre os coletivistas, os
anarquistas são hegemônicos. Anarquistas que se organizam politicamente
(na Aliança) e atuam na Internacional, por meio de uma perspectiva
socialista, antiestatista e da promoção das formas revolucionárias e
massivas de sindicalismo. Os centralistas, preponderantes no Conselho
Geral, são majoritariamente socialdemocratas, apesar de outras posições
mais próximas do comunismo, do blanquismo e do trade-unionismo.
São socialistas, estatistas e concentram seus esforços, na maior parte
dos casos, na conformação de partidos nacionais com foco nas disputas
eleitorais.
Como se sabe, a "cisão" de 1872 - que já se operou num contexto
complicado, posterior à Guerra Franco-Prussiana, à Comuna de Paris, com
toda a repressão internacional que se seguiu (Musto, 2014, pp. 43-54) -
significou, na prática, o fim da Internacional Centralista (ainda que
este só tenha sido formalmente declarado em 1876), e o início da
Internacional Antiautoritária, legítima continuadora da AIT. (Corrêa,
2015, p. 264; Berthier, 2015, pp. 81-103; Van der Walt, 2016a, p. 87)
Em seus cinco anos de existência (1872-1877), a Internacional
Antiautoritária, hegemonicamente federalista-coletivista, também contou
com posições que ajudam a compreender as disputas e debates
anteriormente mencionados. Sua história se deu num contexto complicado
para o movimento operário europeu, marcado pela dura repressão,
especialmente na França, na Itália e na Espanha, onde a Internacional
foi formalmente proibida; em distintas localidades, os movimentos
tiveram de operar clandestinamente, e muitos de seus membros ativos
foram perseguidos, presos ou tiveram de se exiliar. (Berthier, 2015, pp.
196-200; Musto, 2014, pp. 52-54)
Aspecto importante nessa trajetória foi o crescimento significativo das
perspectivas contrárias à organização, e mesmo antiorganizacionistas,
que passaram a ser não só aceitas, mas ativamente defendidas, como
reação às práticas centralistas de Marx e do Conselho Geral;
expressaram-se vigorosamente desde a "cisão" de 1872 por meio da defesa
da completa autonomia das seções. (Skirda, 2002, pp. 33-36)
Além disso, se esta "cisão" já havia separado o Conselho Geral da base
da Internacional (Corrêa, 2019, p. 376), e contraposto, em grande
medida, autoritários e antiautoritários, a Internacional Antiautoritária
terminou de separar, com as defecções e outra cisão, em 1877, os
"defensores reformistas do socialismo de Estado e da conquista do poder
político" que haviam restado, dos "revolucionários, determinadamente
comprometidos com a luta econômica". (Skirda, 2002, p. 38) Apenas os
segundos permaneceram na Internacional; terminaram, no fim das contas,
por impor seu programa anarquista à associação, "anarquizando" a
Internacional, e contribuindo para transformar um organismo de massas,
forjado para a luta popular e sindical, num conjunto de grupos
anarquistas mal articulados sem base popular significativa. (Berthier,
2015, p. 81; Skirda, 2002, p. 39)
Outro aspecto a ser levado em conta foi o crescimento das perspectivas
insurrecionalistas, que, se já estavam presentes nos tempos da AIT -
como, por exemplo, no episódio da Comuna de Lyon, em 1870 (Corrêa, 2019,
pp. 350-353) -, acabaram avançando bastante com as insurreições na
Itália (1874, em Bolonha; 1877, em Benevento), e com as posições
assumidas pela militância. (Pernicone, 2009, pp. 90-95, 118-128)
Já em 1876, os internacionalistas italianos defendiam a "propaganda pelo
fato", utilizando uma interpretação distinta daquela de Bakunin, quando
falava da relevância dos fatos revolucionários. Para eles, as
insurreições armadas, mesmo sem base popular, seriam a melhor maneira de
difundir o anarquismo; isso não se faria por meio da palavra, mas da
ação insurrecional, daquilo que entendiam como fatos revolucionários.
Perspectiva que foi assumida por parte importante da militância
internacionalista de outros países e que, concretamente, se em alguns
poucos casos serviu para mobilizar as massas, na grande maioria deles
foi central para intensificar a repressão e para aprofundar a distância
entre os anarquistas e os trabalhadores. (Skirda, 2002, pp. 39, 42, 47-50)
Na Europa Ocidental, os anos 1880-1890 abarcaram desdobramentos dessas
posições. No campo do movimento operário e socialista, enfrentam-se:
perspectivas reformistas e revolucionárias; estratégias de construção de
partidos políticos para a disputa de eleições e aquelas de construção de
grupos ou sindicatos para a luta fora das instituições do Estado;
perspectivas estatistas e antiestatistas; posições que enfatizam, em
seus discursos e escritos, a necessidade de transformação, sem fazer
muito para que ela se torne realidade, e aquelas que afirmam a
necessidade de uma transformação prática, por meio de atos concretos.
No campo do anarquismo - cuja grande maioria de seus membros alinhou-se
às segundas posições em detrimento das primeiras - também se enfrentaram
posições distintas: perspectivas antiorganizacionistas e
organizacionistas, sendo que dentre os organizacionistas se discutiu a
melhor maneira de promover a organização; perspectivas
insurrecionalistas, de defesa da "propaganda pelo fato" por meio de
insurreições armadas sem base popular, e mesmo por atentados
individuais, e perspectivas de massas ou sindicalistas, de defesa da
propaganda e da organização entre os trabalhadores e a construção de
lutas massivas concretas, que poderiam envolver as lutas por ganhos
imediatos. De certo modo, tais enfrentamentos e divergências avançaram
para as décadas seguintes. (Eckhardt, 2016; Skirda, 2002, pp. 42-70;
Nettlau, 2008, no prelo; Woodcock, 2002, vol. 2, pp. 30-39, 73-107,
126-131, 188-190)
Tais posições, ao longo das décadas de 1880 e 1910, refletem, por um
lado, as diferenças entre o marxismo (pré-bolchevismo) e o anarquismo;
por outro, as diferenças entre os próprios anarquistas. Essas diferenças
envolvem, como discutido, os grandes debates que aconteceram ao longo de
toda a história do anarquismo, e que distinguiram o anarquismo de massas
do anarquismo insurrecionalista.
Nesses anos, os esforços organizativos internacionais levados a cabo
pelo movimento operário-socialista e pelos anarquistas passam por esses
enfrentamentos e divergências. E, a depender do projeto organizativo e
da correlação interna de forças, solucionam-se, temporariamente, em
favor de certas posições e em detrimento de outras. Esses esforços
envolvem não apenas a continuidade dos debates da Internacional, mas
contribuem para que se compreenda o contexto em que Kropotkin estava
inserido, e que subsidiou, como pano de fundo, sua produção intelectual.
O Congresso Socialista Revolucionário, ocorrido em Londres, em 1881, e
que teve Kropotkin como delegado, deu continuidade aos mencionados
enfrentamentos e divergências. Reuniu anarquistas, sindicalistas,
comunistas e blanquistas para conceber formas de enfrentar o crescente
reformismo socialdemocrata e seus discursos radicalizados sem qualquer
respaldo na realidade. (Pateman, 2013/2017; Woodcock, 2002, vol. 2, pp.
30-32) Como contraponto, o congresso defendeu, majoritariamente, a
necessidade da ação revolucionária, sendo a propaganda pelo fato ilegal
uma ferramenta central. Em sua principal resolução, recomendou "fazer
todos os esforços possíveis para propagar, por meio de atos, a ideia
revolucionária e o espírito de revolta", sendo para tanto necessário
"levar nossa ação para o campo da ilegalidade". Para os congressistas,
"o mais simples fato, dirigido contra as instituições atuais, fala
melhor às massas do que milhares de impressos e um mar de palavras
faladas". De modo que encorajaram "o estudo das ciências
técnicas[conhecimento e manejo de armas]e químicas, meios para a defesa
e o ataque".8 (Skirda, 2002, p. 47)
Tal deliberação anunciava o fortalecimento da noção de "propaganda pelo
fato" em particular, e do insurrecionalismo em geral, que marcaria a
posição da maioria dos anarquistas da Europa Ocidental ao longo dos anos
1880 e da primeira metade dos anos 1890.9
Nesse período, o insurrecionalismo foi considerado a principal
ferramenta tanto para disputar o movimento operário-socialista com a
socialdemocracia quanto para promover a transformação revolucionária da
sociedade. Individualmente ou em pequenos grupos, muitos anarquistas
protagonizaram episódios de violência política, que incluíram atentados
a bomba, armas de fogo e outros artefatos, buscando a eliminação física
ou o ataque de seus inimigos. Inspiraram-se em ações semelhantes
realizadas por militantes de outras correntes, dentre as quais o
assassinato do czar Alexandre II na Rússia. (Woodcock, 2002, vol. 2, pp.
30-39, 73-107, 126-131, 188-190; Skirda, 2002, pp. 42-59; Joll, 1970,
pp. 135-172)
Contudo, esses esforços anarquistas foram completamente insuficientes
para conter o crescimento da socialdemocracia. A bem da verdade, o
insurrecionalismo terminou contribuindo consideravelmente para o
aprofundamento daquela distância entre os anarquistas e as massas, já
significativa nos últimos anos da Internacional Antiautoritária. E, com
isso, mesmo que num sentido contrário ao pretendido, abriu mais espaço
para a socialdemocracia, cuja força potencializou-se ainda mais com a
fundação da Internacional Socialista (ou "Segunda Internacional"), em
1889, depois de um conjunto conferências.
Nessa associação, que durou até a Primeira Guerra Mundial, as disputas
da "Primeira Internacional" foram retomadas, juntamente com os conflitos
interiores à própria socialdemocracia, como aquele entre possibilistas e
marxistas.10 (Cole, 1959, vols. III e IV) Desde o início da
Internacional Socialista, como raramente se recorda, os anarquistas se
fizeram presentes, disputando os rumos da associação; permaneceram até
1896, quando foram expulsos, garantindo a hegemonia socialdemocrata.
Ainda assim, militantes e iniciativas sindicalistas revolucionários
continuaram participar da associação, em distintos países, até sua
extinção em 1916. (Turcato, 2010; Woodcock, 2002, vol. 2, pp. 34-39)
Até o Congresso de Mainnheim, em 1906, a "Segunda Internacional"
desprezou os sindicatos, as greves e a ideia de greve geral; priorizou
enfaticamente as disputas político-partidárias. Depois disso, passou a
reconhecer neles alguma importância, mas recomendando que fossem
utilizados em função do crescimento parlamentar socialdemocrata.
(Kropotkin, 2014m, p. 383)
Quase concomitantemente à mencionada expulsão dos anarquistas, era
fundada, em 1895, na França, a Confederação Geral do Trabalho (CGT),
organização sindicalista revolucionária que contava com a ampla
participação anarquista. Manteve-se, até a Primeira Guerra, como
referência do sindicalismo revolucionário europeu, exercendo enorme
influência, não apenas no movimento operário-socialista da França, mas
de vários outros países da Europa, como Itália, Espanha, Alemanha,
Suécia, Portugal.
A CGT também influenciou diversos países hispano-lusófonos fora da
Europa, como no caso do próprio Brasil.
Aprovada no congresso da CGT de 1906, a "Carta de Amiens" reivindicava e
recomendava a luta sindical de massas com o duplo objetivo de defender
as exigências imediatas dos trabalhadores, como a diminuição da jornada
de trabalho e o aumento de salários, e de sustentar uma transformação
revolucionária da sociedade, empreendendo uma reorganização social
baseada nos próprios sindicatos. Propunha fazer isso por meio da luta de
classes com independência dos partidos políticos e por meio da ação direta.
O sindicalismo revolucionário da CGT também exerceu ampla influência
entre os anarquistas e foi central, tanto para tornar esta forma de
sindicalismo a principal força de oposição à socialdemocracia no campo
socialista, quanto para alterar a correlação de forças dentro do próprio
campo anarquista. Somando-se às iniciativas revolucionárias e
sindicalistas anteriores à sua fundação, e reforçando a crítica às ações
de "propaganda pelo fato", a CGT - por suas concepções e,
principalmente, pelas lutas e ações práticas que levou a cabo - foi peça
central para que o anarquismo insurrecionalista voltasse a ser
minoritário na Europa e o anarquismo de massas, sindicalista
especialmente, se tornasse majoritário, posição que se manteria nas
próximas décadas. (Skirda, 2002, pp. 60-79; Nettlau, no prelo; Woodcock,
2002, vol. 2, pp. 103-111, 197-198, 132-134, 243-244; Samis, 2004, p.
134; Van der Walt, 2016b)
Essas posições pautaram os debates do Congresso Anarquista, realizado em
Amsterdã, em 1907. Retornaram com força as questões da organização
anarquista e das relações entre anarquismo, movimento operário e
sindicalismo. E continuaram a preponderar as posições organizacionistas
e aquelas que consideravam imprescindível a reaproximação entre os
anarquistas e as massas trabalhadoras. (Antonioli, 2009) Junto a um
considerável crescimento das organizações sindicalistas revolucionárias
e anarcossindicalistas, essas posições também pautaram, foram reforçadas
e desenvolvidas no Congresso Sindicalista de Londres, em 1913, cujos
esforços foram interrompidos com a eclosão da Primeira Guerra. (Thorpe,
1978)
Enfim, cumpre ainda mencionar que organizações sindicalistas
revolucionárias e anarcossindicalistas tiveram participação no início da
Internacional Comunista (ou "Terceira Internacional"), fundada em 1919.
No entanto, apesar da proximidade com os revolucionários bolcheviques no
enfrentamento aos reformistas socialdemocratas, a trajetória da
Revolução Russa - na qual os bolcheviques foram se tornando hegemônicos,
acabando com a revolução e reprimindo os anarquistas e outros
trabalhadores - e o papel assumido pelo PC Russo no COMINTERN e no
PROFINTERN - subordinando progressivamente as lutas e movimentos
sindicais aos seus interesses autoritários e contrarrevolucionários -
implicaram a decisão, por parte dos antiautoritários, de saírem para
criar uma nova Internacional Sindicalista, processo que se concretizou
na passagem de 1922 para 1923, e que contou com a participação de muitos
anarquistas. (Thorpe, 1989; De Jong, 2004)
KROPOTKIN E OS GRANDES DEBATES ANARQUISTAS
Kropotkin - desde sua conversão ao anarquismo, que se deu no contato com
a Federação Jurassiana da AIT em 1872 (Kropotkin, 1946, p. 273), até sua
morte em 1921, na Rússia (McKay, 2014, p. 93) - acompanhou tais esforços
organizativos, com maior ou menor proximidade, a depender do caso.
Quando se observam suas posições frente a esses acontecimentos, e a
maneira que ele se posicionou frente ao conjunto de debates
anteriormente elencados, é possível avançar na compreensão de suas
concepções político-ideológicas e estratégicas, de certos traços de seu
anarquismo.
De maneira geral, durante essas quase cinco décadas, Kropotkin
contrapôs-se às perspectivas estatistas, reformistas e às propostas de
construção de partidos políticos para disputas eleitorais - as quais
eram então encampadas pela quase totalidade do marxismo, na crescente
forma da socialdemocracia. Reivindicou, distintamente, as perspectivas
antiestatistas, revolucionárias e de construção de grupos ou sindicatos
para a luta fora (e contra) as instituições do Estado - as quais eram
sustentadas pelo anarquismo.11 Esse anarquismo kropotkiniano pode ser
conhecido, em grandes linhas, em seus livros mais difundidos, como
Palavras de um Revoltado (1885), A Conquista do Pão (1892) e A Ciência
Moderna e o Anarquismo (1901-1913)12. (Kropotkin, 2005a, 1975, 1964;
McKay, 2021, pp. 22-24)
Entretanto, quando se trata de avaliar como Kropotkin se posicionou
entre 1872 e 1921 sobre os grandes debates anarquistas, suas posições
são mais ambíguas, de diálogo ou mesmo adesão a distintas perspectivas.
Aspecto importante a ser destacado é que, para conhecer de maneira mais
precisa as posições estratégicas de Kropotkin - ou seja, como ele
entendia ser mais adequado promover uma transformação revolucionária,
que pudesse superar a sociedade capitalista e estabelecer a anarquia
socialista - é essencial ir além de seus livros, que incluem, além
daqueles já mencionados, Apoio Mútuo: um fator de evolução e Campos,
Fábricas e Oficinas. (Kropotkin, 2009, 1998a)
McKay (2021, p. 22) notou acertadamente que, "para entender como
Kropotkin via a anarquia sendo atingida, precisamos retornar aos artigos
que ele redigiu para a imprensa anarquista e que foram mais tarde
reunidos em livros". Artigos estes que são pouco conhecidos, e dentre os
quais se encontram aqueles que foram incluídos pelo próprio McKay no já
livro citado Luta Direta Contra o Capital (McKay, 2014).
De modo que é possível afirmar que, de uma parte, os temas estratégicos
estão muito pouco presentes nas principais obras de Kropotkin; de outra,
quando analisamos esses temas, notam-se as mencionadas ambiguidades e
adesões diversas. Isso parece ter algumas explicações; parece, pois,
para uma resposta mais definitiva - como aquela que dei sobre Bakunin
(Corrêa, 2019) -, é necessário uma analise aprofundada de toda sua obra
e de seus principais comentadores, algo que não fiz e nem pretendi fazer
neste escrito. Por isso, tanto essa constatação das ambiguidades e
adesões diversas de Kropotkin em termos estratégicos, quando suas
explicações devem ser consideradas hipóteses, que precisarão ser mais
profundamente discutidas. Aparentemente, essas explicações são três.
Primeiro, os rumos assumidos pelos anarquistas europeus e
norte-americanos no período em questão, certamente influenciados pela
conjuntura política e pelas experiências concretas que protagonizaram e
das quais participaram. E, assim, as mudanças de posição coletivas
frente aos grandes debates anarquistas e às variadas preponderâncias do
anarquismo insurrecionalista e do anarquismo de massas. Segundo, a
posição de influente jornalista que Kropotkin assumiu naquilo que se
chamou "movimento anarquista".
Em importantes periódicos como Le Révolté, La Révolte, Les Temps
Nouveaux e Freedom, com os quais frequentemente contribuiu, ele
possivelmente abriu espaço para distintas posições do "movimento" e
manifestou-se de maneiras distintas frente aos grandes debates e
correntes do anarquismo; a depender do momento, sustentou posições mais
ou menos próximas daquelas do "movimento". Terceiro, a aparente crença
de que certa heterogeneidade de meios poderia, de algum modo, fazer
avançar os fins pretendidos. Ou seja, mesmo que conservando certas
preferências, Kropotkin parece ter concordado que, em alguma medida,
tudo aquilo que fosse feito no sentido do socialismo anarquista poderia
contribuir com a sua chegada.
Numa análise do pensamento político de Kropotkin constata-se que há, em
suas posições filosóficas e teóricas, alguma proximidade com a
caracterização dos autores da "tese". Entretanto, quando se observam
suas posições frente ao debate das estratégias anarquistas, constata-se
que, a depender do momento e do texto em questão, Kropotkin tem
aproximações com o anarquismo insurrecionalista e, principalmente, com o
anarquismo de massas.
Não há dúvida que, em geral, o pensamento político de Kropotkin foi
marcado por aspectos do positivismo, do determinismo biológico e do
cientificismo, como se evidencia em sua noção mesma de "anarquismo
científico". Em A Ciência Moderna e o Anarquismo, por exemplo, ele
afirma que o anarquismo é uma concepção do universo baseada na
interpretação mecânica dos fenômenos da natureza, compreendendo nesta
igualmente os fenômenos da vida social e seus múltiplos problemas de
ordem econômica, moral e política. Seu método de análise e de
investigação é o das ciências naturais. (Kropotkin, 1964, p. 80)
Para Kropotkin, esse método é o "método naturalista", o "método
indutivo-dedutivo, único[método]científico conhecido"; bem diferente
daquilo que ele considera a abstração anticientífica do método
dialético. Nesse quadro de referência de investigação, a humanidade é
considerada parte da natureza, e, tendo em vista o sucesso do método
naturalista para o estudo dos fenômenos da natureza não humana,
pareceria adequado pautar-se nesses mesmos fundamentos para a
investigação da sociedade.
Por meio desse método, subsidiado na "filosofia materialista (mecânica,
ou melhor, cinética)", seria possível "expor e compreender, à luz
meridiana dos fatos positivos" os fenômenos da natureza em geral, e da
sociedade em particular. Esse método, eficazmente comprovado nas
ciências da natureza, permitiria proceder "passando da flor ao homem, de
uma comunidade de castores às populosas cidades humanas", e chegar a uma
compreensão adequada dos "fenômenos da vida, da inteligência, das
emoções e das paixões", os quais "podem reduzir-se a fenômenos físicos e
químicos", e também das "leis que os regem". (Kropotkin, 1964, pp. 81-82)
Também não há dúvida que Kropotkin sustentou uma noção em certa medida
evolucionista da sociedade. Para ele, ainda em A Ciência Moderna e o
Anarquismo, o próprio anarquismo contém em si um "prognóstico certo dos
aspectos da marcha futura da humanidade para a liberdade, a igualdade e
a fraternidade". (Kropotkin, 1964, p. 170) Prognóstico que asseverava -
em escritos como "Fatalidade da Revolução", sem data conhecida, e "A
Anarquia, sua Filosofia, seu Ideal", de 1896 - que "a revolução é
inevitável", um "fato incontestável", um "fato matemático", que
garantiria o progresso necessário da sociedade. (Kropotkin, 2007a, pp.
42-43; 2000, pp. 40, 67)
Curiosamente, como não raro acontece com inúmeros pensadores clássicos,
tais posições não são exatamente encontradas em suas obras
historiográficas. O caso mais evidente é A Grande Revolução (1789-1793),
de 1893, "uma das melhores abordagens da Revolução[Francesa]", que
constitui "um clássico exemplo de história social, de uma história vista
de baixo que enfatiza as ações das massas para impulsionar a revolução".
(McKay, 2014, p. 90)
Nesse estudo de Kropotkin, há aspectos teórico-metodológicos embutidos,
e mesmo uma teoria da história, ambos os quais não usufruem dos
pressupostos teórico-filosóficos anteriormente mencionados. (Kropotkin,
2021) Além disso, em inúmeros outros momentos, ele não deixou de
reconhecer que a propaganda e a ação anarquistas poderiam contribuir
para acelerar esse processo evolutivo. (Kropotkin, 2007a, p. 42; Cahm,
1989, p. 92)
Agora, quando se trata de discutir a perspectiva classista de Kropotkin,
tanto na análise da sociedade quanto nas posições estratégicas, com toda
certeza não é verdade que ele tenha rompido com o classismo anarquista.
Certamente ele possui escritos - possivelmente o mais conhecido,
inclusive citado pelos autores da "tese", é "Aos Jovens" (Kropotkin,
2005b) - que estimulam membros das classes dominantes a abandonar suas
fileiras e unirem-se aos operários e camponeses na sua luta
emancipatória. Afinal, essa foi sua própria escolha de vida, como a de
Bakunin e de outros anarquistas.
No entanto, essa posição se dá justamente no quadro de uma interpretação
da sociedade em que as classes sociais são elementos centrais, e,
também, de uma perspectiva estratégica que considera os trabalhadores em
geral, e os operários e camponeses em particular, imprescindíveis para
uma transformação social revolucionária. Em "Comunismo e Anarquia", de
1901, Kropotkin enfatiza que "a sociedade burguesa atual permanece
certamente dividida em classes", a "classe de burgueses" e a "classe
operária". (Kropotkin, 2007b, p. 130). Em A Grande Revolução
(1789-1793), a principal tese formulada por Kropotkin (2021) é que a
Revolução Francesa não foi apenas uma revolução burguesa, um
enfrentamento entre a burguesia e a nobreza; conforme demonstra de
maneira brilhante, o povo francês, com especial destaque para o
campesinato, foi central nas lutas e no próprio processo de mudança social.
Estrategicamente, a posição constantemente assumida por Kropotkin foi a
de luta revolucionária dos trabalhadores (operários e camponeses) contra
capitalistas. Em 1881, no artigo "Les Ennemis du Peuple"[Os Inimigos do
Povo], ele afirmou ser indispensável "organizar as forças dos
trabalhadores" para lutar contra o capital. (Kropotkin, 2014a, p. 294)
Em 1906, em "A Revolução Russa e o Anarquismo", defendeu que os
anarquistas deveriam "transformar os sindicatos de operários e
camponeses numa força que poderia iniciar[...]uma expropriação de massas
bem planejada". (Kropotkin, 2014u, p. 469) Em 1907, no texto "Les
Anarchistes et les Syndicats"[Anarquistas e Sindicatos], sustentou que
suas ideias sempre se mantiveram as mesmas: "as organizações de
trabalhadores são a força real capaz de realizar a revolução social".
(Kropotkin, 2014o, p. 391). E, no ano seguinte, numa carta a Alexander
Berkman, colocou: "são as classes que fazem as revoluções - não os
indivíduos". (Kropotkin, 2014q, p. 402)
Quando se investigam as posições de Kropotkin assumidas no debate
organizativo, também é possível se encontrar afirmações dúbias e, em
certa medida, contrastantes. Em alguns momentos, Kropotkin subsidia, ou
parece subsidiar (por meio de deduções lógicas daquilo que escreve),
perspectivas mais espontaneístas, que abrem mão da necessidade de uma
organização estruturada (tanto de trabalhadores quanto dos próprios
anarquistas) para promover a revolução e a reestruturação da nova
sociedade. Perspectivas não tão comuns, mas que parecem derivar de suas
concepções deterministas e fatalistas, assim como de sua visão bastante
otimista do ser humano, que se mostra evidente em escritos como A
Conquista do Pão, de 1906. (Kropotkin, 1975)
Nessa direção, Kropotkin colocou - no artigo "What Revolution Means"[O
que Significa a Revolução], de 1886 - que uma revolução não aconteceria
"se cada parte do território, não estivesse ocorrendo uma demolição
espontânea das instituições econômicas e políticas decadentes", se
trabalhadores (operários e camponeses) não estivessem se insurgindo
espontaneamente há certo tempo. E que a "reorganização da produção, da
redistribuição de riquezas e das trocas" teria de ser levada a cabo
"pelo crescimento natural resultante dos esforços combinados de todos os
interessados"; ou seja, "essa remodelação será resultado das inúmeras
ações espontâneas de milhões de indivíduos".13 (Kropotkin, 2014s, pp.
534-535) Além disso, em diversos momentos, ele demonstrou "compromisso
com os atos de revolta abnegados, tanto individuais quanto coletivos",
que, sendo levados a cabo espontaneamente, seriam importantes em um
movimento revolucionário mais amplo. (Cahm, 1989, p. 121)
Ao mesmo tempo, é importante notar que, para Kropotkin, realmente, as
ideias possuem grande capacidade de estimular a ação humana. E, sem
dúvida, esta constitui um elemento central para a transformação da
sociedade. Ao que parece, ele considera que as ideias são tão
importantes quanto os fatos, ou, mais especificamente, que de certo modo
as ideias também são fatos. Não se trata, portanto, de assumir um
idealismo em que as ideias preponderam sobre ou mesmo substituem os fatos.
Em tal direção, Kropotkin defendeu em inúmeras ocasiões a necessidade de
que socialistas em geral e anarquistas em particular difundissem suas
ideias entre as massas trabalhadoras, que investissem fortemente na
conscientização dessas massas, algo que seria elemento chave no processo
transformador. Num conjunto de artigos escritos em 1891 e publicados em
1914 sob o título "A Ação Anarquista na Revolução", ele afirma:
É preciso que as novas ideias - aquelas que marcarão um novo ponto de
partida na história da civilização - sejam esboçadas antes da revolução;
que elas sejam fortemente disseminadas nas massas, a fim de que possam
ser ali submetidas à crítica dos espíritos práticos e, até certo ponto,
à verificação experimental. É preciso que as ideias germinadas antes da
revolução sejam bastante disseminadas para que um certo número de
espíritos sintam-se acostumados a elas. É preciso que estas palavras:
"anarquia", "abolição do Estado", "livre entendimento dos grupamentos
operários e das comunas", "comuna comunista", tornem-se familiares,
bastante familiares para que as minorias inteligentes busquem
aprofundá-las. (Kropotkin, 2007c, pp. 121-122)
Tal noção subsidiou parte importante dos escritos de Kropotkin. Foi bem
mais constante que a noção de que os anarquistas deveriam educar,
instruir ou ilustrar os trabalhadores, a qual parece ter se manifestado
apenas algumas vezes, em escritos como "Local Action"[Ação Local], de
1887. Ali, Kropotkin (1998b, p. 44) ressaltou ser natural aos
socialistas buscarem "despertar em toda parte[...]a consciência das
massas" e "esclarecê-las[enlighten them]sobre os efeitos negativos da
monopolização presente da terra e do capital".
Graças a esse foco na difusão de ideias e conscientização dos
trabalhadores, obviamente a propaganda assumiu papel importante na
estratégia kropotkiniana. Algo que se manteve desde seus tempos de
Círculo Tchaikovsky - quando, já anarquista, dedicou-se, entre 1872 e
1874, junto aos populistas, à propaganda revolucionária entre camponeses
e operários russos - até o final de sua vida. Levando em conta que "o
socialismo[...]era apenas uma expressão das aspirações das massas", para
Kropotkin, "a propaganda era necessária não para atingir os ideais do
socialismo, mas para difundir a convicção de que esses ideais só
poderiam ser realizados por meio da revolução popular". (Cahm, 1989, pp.
44-46).
Ademais, quando Kropotkin fala de propaganda, deve-se ressaltar que tal
propaganda, para ele, poderia ser levada a cabo de diferentes maneiras:
em termos teóricos, em termos práticos, individual e coletivamente.
Conforme apontado no artigo "O Espírito de Revolta", de 1881, incluído
em Palavras de um Revoltado, há, diz Kropotkin (2005c, pp. 208-209, 219)
uma "propaganda teórica" (escrita, falada) - que inclui "cartazes,
panfletos, canções" etc. - e também uma propaganda da ação
(concretamente praticada) - que, ao mesmo tempo, difunde os ideais
revolucionários, encarna e "opera esta transformação" revolucionária.
Com frequência, ele reconheceu a importância de ambas as formas de
propaganda; ademais, preferiu suas formas coletivas às individuais.
Enfim, se se pode dizer que ele encontrou nessas diferentes formas de
propaganda o cerne de sua estratégia, também se deve colocar que ele
propôs, com certa frequência, outras iniciativas estratégicas. (Cahm,
1989, pp. 95, 113-115, 119, 127)
No entanto, cumpre notar que nos textos aqui estudados, não há em
Kropotkin aquela perspectiva de Reclus, de A Evolução, a Revolução...,
em que os trabalhadores deveriam ser, primeiro, conscientizados,
educados ou instruídos, para que somente depois pudessem levar a cabo
suas ações revolucionárias. É verdade que ele utilizava os conceitos
reclusianos de evolução e revolução; para ele, ao passo que a evolução
era sinônimo de desenvolvimento histórico normal, em meio ao qual
poderia/deveria ocorrer a preparação prévia das massas, a revolução
significava a rápida aceleração desse processo, em que o desenvolvimento
acelerado e a transformação das instituições econômicas e políticas
seria realizada. Ainda assim, Kropotkin não entendia que os períodos de
evolução eram períodos apenas de conquista dos corações e das mentes da
sociedade ou mesmo dos trabalhadores. As lutas concretas e classistas
também tinham lugar nesse processo evolucionário, conforme discutirei
adiante. (Kropotkin, 1987, p. 21; 1964, p. 168)
Esses outros elementos estratégicos propostos por Kropotkin, e que
deveriam aliar-se à propaganda, em geral vincularam-se às questões de
agitação e organização em seus distintos níveis. Em vários momentos, ele
defendeu a necessidade de organizar os trabalhadores e os anarquistas
para a luta revolucionária. Em 1881, no já mencionado "Os Inimigos do
Povo", ele enfatizou: "Temos que organizar as forças dos
trabalhadores[...]a fim de fazer delas uma formidável máquina de luta
contra o capital". (Kropotkin, 2014a, p. 294) Em 1901, sustentou, numa
carta enviada a delegados sindicais franceses e ingleses, que, para
combater a influência da "Segunda Internacional" era necessário investir
não numa internacional de partidos políticos, mas numa "federação
internacional de todos os sindicatos do mundo todo". (Kropotkin, 2014k,
p. 360)
Afirmou, num prefácio que escreveu em 1892 ao livro A Comuna de Paris e
a Noção de Estado, de Bakunin: "estamos convencidos[...]que a formação
de um partido anarquista[...], longe de ser algo nocivo à causa
revolucionária comum, é altamente desejável e útil".14
(Kropotkin, 2014t, p. 130) Enfim, em certos momentos, como em 1881, ele
sustentou um dualismo organizacional próximo daquele preconizado por
Bakunin: "penso que precisamos de duas organizações; uma aberta, vasta,
e funcionando abertamente; a outra secreta, destinada à ação".15 (apud
Cahm, 1989, p. 145)
Em relação à questão da violência, as posições de Kropotkin também
parecem não ter se modificado muito ao longo dos anos. Nos textos aqui
estudados, ele nunca sustentou que a revolução social deveria ser
realizada pacificamente; e, em raríssimos casos, indicou a possibilidade
de isso ocorrer. (Ver, por exemplo, Kropotkin, 1998c, p. 25; 1946, p. 275)
A posição mantida ao longo de sua vida foi enunciada em sua
autobiografia de 1899, Memórias de um Revolucionário:
As revoluções, isto é, os períodos de evolução acelerada e de
transformações rápidas, são também conformes à natureza da sociedade
humana.[...]Quando se inicia um período de evolução rápida e de
reconstituição, a guerra civil pode rebentar em maior ou menos escala. O
problema está então menos em saber evitar as revoluções do que encontrar
os meios de obter os melhores resultados evitando o mais possível a
guerra civil, diminuindo o número de vítimas e empregando o mínimo de
animosidade. (Kropotkin, 1946, p. 276)
Ou seja, a violência seria quase que certamente necessária na revolução,
em especial pela resistência que lhe ofereceriam os detentores do poder.
A violência dos oprimidos, nesse sentido, seria imprescindível para
combater a violência sistemática e sistêmica dos capitalistas e do
Estado. A violência pela violência, característica das revoluções
políticas burguesas, não seria, portanto, um fim em si, muito menos o
terror revolucionário o meio mais adequado para alcançar a vitória
revolucionária. A violência é um fato inevitável na revolução social, e
deve ser minimizada, de acordo com as possibilidades. (McKay, 2014, p.
65; Baldwin, 1970, p. 4)
ENTRE O ANARQUISMO INSURRECIONALISTA E O ANARQUISMO DE MASSAS
Finalmente, quando se investigam as posições de Kropotkin assumidas nos
principais debates que envolvem o anarquismo insurrecionalista (e a
noção de "propaganda pelo fato") e o anarquismo de massas (incluindo o
sindicalismo, as lutas concretas e as reformas), alguns comentários
podem ser feitos.
Algumas vezes, Kropotkin foi apontado como um defensor da propaganda
pelo fato, ao menos durante os anos 1880. (Joll, 1970, p. 147; Guérin,
1968, p. 80) No entanto, tal afirmação mostrou-se imprecisa. Tanto pela
citação frequentemente atribuída a Kropotkin para fundamentar tal
afirmação, e que na verdade faz parte de um texto escrito por Cafiero16,
quanto por outros fatores, como a atribuição acrítica das posições do
Congresso de Londres (1881) a Kropotkin, e as análises bastante
fragmentadas de sua obra e sua correspondência.
Caroline Cahm (1989), naquele que considero o melhor estudo de Kropotkin
dos anos 1872 a 1886 - Kropotkin and the Rise of Revolutionary
Anarchism[Kropotkin e a Ascensão do Anarquismo Revolucionário]- realiza
uma discussão pormenorizada, mostrando que, sem dúvida, Kropotkin foi
influenciado pela onda insurrecionalista que se fortaleceu no fim dos
anos 1870 e que marcou profundamente a Europa dos anos 1880 e 1890.
Para ela, "sem dúvida, ele[Kropotkin]esteve associado ao desenvolvimento
da tática revolucionária da propaganda pelo fato" (p. 97). Tal
associação, mesmo que relativamente curta - indo do fim dos anos 1870
até meados dos anos 1880 -, teve relevância no conjunto do pensamento e
da ação kropotkinianos. Sofreu influência não apenas do contexto
internacional, mas também do próprio anarquismo europeu. Na Parte II de
seu livro, Cahm discute detalhadamente o vínculo de Kropotkin com a
"propaganda pelo fato" e o insurrecionalismo, apontando alguns elementos
que explicitam os marcos, vínculos e adesões nessa direção. Dentre eles,
três se destacam.
Primeiro, a influência que Kropotkin teve dos narodniks russos, quando,
já anarquista, entre 1872 e 1874, atuou junto a eles no Círculo
Tchaikovsky. (pp. 44-46, 92, 97, 136, 272-273) Reforçada por uma
interpretação de Bakunin que encontrava nele certos traços
insurrecionalistas, tal influência manteve-se, ao menos em certos
aspectos, por toda a vida de Kropotkin. (pp. 76-78)
Segundo, a influência do anarquismo europeu que, conforme discutido,
aderia progressivamente à estratégia da "propaganda pelo fato".
Cumpriram um papel importante para Kropotkin tanto os anarquistas
italianos - que, desde 1876 eram grandes entusiastas do
insurrecionalismo -, quanto os anarquistas espanhóis - que,
especialmente em Madri, assumiram posições semelhantes e, entre 1877 e
1878, foram relevantes na formação política de Kropotkin. (pp. 78-80,
105-108, 121) Foi também destacado o papel de Paul Brousse, um dos
maiores entusiastas do insurrecionalismo no período; em 1877, ele
publicou seu influente artigo "La Propagande par le Fait"[A Propaganda
pelo Fato], no jornal L'Avant-Garde[A Vanguarda], dirigido por ele
próprio e Kropotkin. (p. 102) Enfim, o Congresso de Londres de 1881, no
qual Kropotkin esteve presente; ali, como apontado, endossou-se
internacionalmente a estratégia da "propaganda pelo fato" e propôs-se
fundar a "Internacional Negra". (pp. 152-177).
Terceiro, a influência da onda de atentados ocorrida em 1878 na Rússia
(contra F. Trepov, governador de Petrogrado, e N. Mezentsov, chefe da
polícia de Estado), na Alemanha (contra o Imperador Guilherme I) e na
Itália (contra o rei Humberto I); assim como o assassinato de Alexandre
II, também na Rússia, em 1881, e os atentados ocorridos na Alemanha, na
Áustria e na França, em 1886. (pp. 109, 114, 119-120, 123, 278) Para
Kropotkin, tais atos de revolta eram parte importante da revolução;
poderiam não só inspirar as pessoas a agir, mas iniciar revoltas mais
generalizadas e mesmo um processo revolucionário. (pp. 108, 133-134, 271)
Esses elementos ajudam a entender a postura adotada por Kropotkin frente
à "propaganda pelo fato" e ao insurrecionalismo, entre o fim dos anos
1870 e meados dos 1880. Ele observou esse desenvolvimento com simpatia e
interesse, ainda que nem sempre tenha se manifestado publicamente sobre
o assunto. (pp. 111, 114-115).
No citado "O Espírito de Revolta", de 1881, Kropotkin explica como as
minorias têm condições de, por meio das ações combativas e violentas,
individuais ou coletivas, produzir efeitos sobre as massas:
É pela ação que as minorias conseguem despertar este sentimento de
independência e este sopro de audácia, sem os quais nenhuma revolução
poderia se realizar. Homens sensíveis, que não se contentam com
palavras, mas que procuram colocá-las em execução[...], sabem que é
preciso ousar para vencer, são as sentinelas perdidas que engajam o
combate, bem antes que as massas estejam bastante excitadas para erguer
abertamente a bandeira da insurreição.[...][Tais homens, muitas vezes
considerados loucos]encontram simpatias, a massa do povo aplaude em
segredo sua audácia e eles encontram imitadores. À medida que os
primeiros dentre eles vão povoar os calabouços e as prisões, outros vêm
continuar sua obra; os atos de protesto ilegal, de revolta, de vingança
multiplicam-se.[...]Pelos fatos que se impõem à atenção geral, a nova
ideia infiltra-se nos cérebros e conquista prosélitos. Tal ato faz, em
alguns dias, mais propaganda do que milhares de brochuras. (Kropotkin,
2005c, pp. 209-210)
Ou seja, para Kropotkin, são esses "homens sensíveis" audaciosos, essas
"sentinelas perdidas" que, por meio de sua ação, se adiantam às massas e
garantem, entre elas, a simpatia necessária às suas posições. Essa
simpatia surge tanto pelo apoio, mesmo que velado, às suas ações
iniciadoras, quanto pela repressão, que produz a necessária
solidariedade. Com isso, as massas se engajam em ações semelhantes, que
se multiplicam e propagandeiam a outros, muito mais eficazmente que os
discursos, jornais ou livros, os ideais revolucionários. O resultado
disso é a insurreição, passo necessário para a revolução social.
Essa noção, tipicamente insurrecionalista, se reforça ainda pelas
posições impossibilistas (contrárias às lutas de curto prazo pelas
reformas) que Kropotkin manifestou em alguns momentos. Desde o período
russo, entre 1872 e 1874, apesar de sua proximidade com os
internacionalistas, ele demonstrou preocupação que as lutas por reformas
pudessem comprometer as lutas revolucionárias, e mesmo a realização da
revolução social. (Cahm, 1989, pp. 231-235) Em 1881, no artigo
"L'Organisation Ouvrière"[A Organização Operária], ele posicionou-se
contra a ideia de um "programa mínimo" para as lutas sindicais.
(Kropotkin, 2014c, p. 305) Em 1890, no texto "Le Premier Mai 1891"[O
Primeiro de Maio de 1891], criticou os limites demasiadamente restritos
da luta pelas oito horas diárias de trabalho. (Kropotkin, 2014f, pp.
327-328) Em 1907, no já citado "Anarquistas e Sindicatos", escreveu que
"não há dúvida que, ao entrar em um sindicato, um anarquista faz uma
concessão", visto que tal atitude implicaria, em alguma medida, certa
flexibilização de posições. (Kropotkin, 2014o, p. 390)
Contudo, tais posições assumidas por Kropotkin não podem ser
consideradas uma defesa absoluta da "propaganda pelo fato" e do
insurrecionalismo, nem mesmo no período em que elas estiveram no auge
entre os anarquistas europeus. Ao longo dos anos em questão, o endosso
por parte de Kropotkin dessa estratégia foi crítico e mesclou-se com a
defesa do anarquismo de massas.
Se Kropotkin (2014v, pp. 206-207; 2014o, p. 392) encontrou algumas
perspectivas insurrecionalistas em Bakunin, não deixou de reconhecer que
os aspectos fundamentais de suas posições favoreciam o anarquismo de
massas e o sindicalismo. O trabalho de Bakunin na AIT e seu vínculo com
a forma revolucionária de sindicalismo que ali se constituía foram os
elementos mais marcantes nesse sentido.
A própria Cahm (1989) mostra outros aspectos em seu livro que ajudam a
elucidar as posições de Kropotkin.
Em distintas ocasiões, desde o fim dos anos 1870 até o início dos 1880,
ele manifestou discordâncias frente aos insurrecionalistas italianos.
(pp. 98, 103, 167) Se teve proximidade com os insurrecionalistas
espanhóis de Madri, não deixou de manter a mesma proximidade com os
sindicalistas de Barcelona. Inclusive, quando emergiu um conflito entre
ambos, em 1878, no seio da Federação Espanhola, Kropotkin envolveu-se
para mediar, pois tinha simpatia e apoiava as duas estratégias. (pp.
107-108)
Cahm argumenta também que, quando o mencionado artigo de Brousse sobre a
"propaganda pelo fato" foi publicado, em 1877, Kropotkin não fez
qualquer comentário, e alguns dias depois escreveu sobre as greves
ferroviárias nos Estados Unidos. Tal artigo seria criticado por
Kropotkin em 1909, que justificou que sua proximidade com Brousse não
implicava completo acordo com sua estratégia da "propaganda pelo fato".
(pp. 102-104)
Ela demonstra, ainda, que no Congresso de 1881, as posições de Kropotkin
foram minoritárias. Naquela ocasião, ainda que visse necessidade das
ações ilegais, incluindo os atentados, e mesmo que enxergasse
indispensabilidade de fatos que pudessem propagar os ideais
revolucionários, ele não acreditava na exclusividade dos atos de revolta
fora da legalidade e nem na sua articulação/promoção em agrupamentos
públicos. Sustentava a necessidade da propaganda tanto por fatos quanto
por meios orais e escritos, e entendia ser fundamental a articulação em
dois níveis, um público e outro clandestino - as ações ilegais
(atentados etc.) deveriam ser concebidos e praticados por este segundo
nível. (pp. 154-160)
Além disso, Kropotkin enxergava limites nos atentados políticos (contra
autoridades do Estado), destacando sua preferência pelos atentados
econômicos (em especial contra os latifundiários, estimulando a
expropriação de terras por parte dos camponeses). Enfim, seu estímulo de
fatos que se convertessem em formas eficazes de propaganda não se
resumia aos atentados; para ele, todos os atos de revolta, todas as
ações protagonizadas coletiva ou individualmente no sentido de fazer
avançar a revolução e a anarquia teriam esse papel, inclusive aquelas no
movimento operário e o sindicalismo17. (pp. 113, 115, 123-124, 142, 159-160)
Em 1891, Kropotkin fez uma crítica em La Révolte às posições hegemônicas
no Congresso de Londres, ocorrido dez anos antes, mostrando "o que os
anarquistas fizeram de errado em 1881":
Quando os revolucionários russos mataram o czar[...]os anarquistas
europeus imaginaram que, dali em diante, alguns poucos revolucionários
fervorosos, armados com algumas bombas, seriam suficientes para fazer a
revolução social.[...]Um edifício construído sobre séculos de história
não pode ser destruído com alguns quilos de explosivos. (apud Skirda,
2002, p. 55, grifos meus)
Ou seja, num momento em que ainda preponderavam na Europa os arroubos
insurrecionalistas, Kropotkin já enxergava os limites dos atentados.
Entretanto, não se pode dizer que ele, na esteira do que ocorreria
naquele continente com os anarquistas, passaria a adotar uma visão mais
favorável ao anarquismo de massas e ao sindicalismo apenas com a
fundação da CGT francesa em 1895.
Desde que se assumiu anarquista, em 1872, Kropotkin sustentou posições
vinculadas ao anarquismo de massas em geral, e ao sindicalismo
revolucionário em particular. Relacionou-se, foi influenciado por tais
posições, e também contribuiu para influenciar parte considerável dos
anarquistas em tal direção, graças à destacada posição que assumiu no
"movimento anarquista" depois da morte de Bakunin. Foram essas posições
que subsidiaram afirmações de autores como Lucien van der Walt (2019a,
p. 254) - "Kropotkin[...]defendeu o sindicalismo
revolucionário[syndicalism]" -, Iain McKay (2014, pp. 40-41) -
"Kropotkin foi muito favorável ao sindicalismo
revolucionário[syndicalism]" - e Vadim Damier (2009, p. 30) - "Kropotkin
foi um dos primeiros a encorajar anarquistas a trabalharem nos sindicatos".
O livro de Cahm (1989), em sua Parte III, discute o vínculo de Kropotkin
com a ação coletiva revolucionária no movimento operário e nos
sindicatos. Ela mostra que, apesar do vínculo com a Internacional que
estabelece em 1872, as posições de Kropotkin frente ao sindicalismo
mantiveram-se ambíguas até 1877; nesses anos realizou várias críticas ao
trade-unionismo inglês e à influência da socialdemocracia no movimento
operário. (pp. 235-242)
No entanto, de 1877 em diante, foram muito importantes para a mudança de
posição de Kropotkin algumas experiências práticas, organizações e luta
dos trabalhadores no norte global; a partir de então, passou a ver com
maior simpatia os sindicatos e o sindicalismo, e mesmo a defender
posições sindicalistas revolucionárias. Destacam-se, dentre elas: em
1877, as greves de Pittsburg, nos Estados Unidos, e a retomada do
movimento sindical na Inglaterra e na França (pp. 244-245); entre 1878 e
1881, o sindicalismo revolucionário espanhol, particularmente de
Barcelona, e as greves radicalizadas na Inglaterra e na Bélgica (p.
246); em 1890, a greve dos trabalhadores das docas, em Liverpool,
Inglaterra (p. 267); e, obviamente, a experiência da CGT entre 1895 e a
Primeira Guerra Mundial (p. 268).
De modo que, em 1907, Kropotkin reconhecia, numa carta a James
Guillaume, que o envolvimento dos anarquistas nos sindicatos era
importante; num prefácio daquele mesmo ano, afirmou que as posições dos
sindicalistas revolucionários da CGT "estão organicamente ligadas às
primeiras formas da ala esquerda da Internacional". (apud Nettlau, 1996,
p. 279)
Em 1914, escreveria a Luigi Bertoni:
https://socialismolibertario.net/
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