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(pt) Brazil, OSL, Libera #183 - ELEMENTOS DE TEORIA E ESTRATÉGIA ANARQUISTA - Felipe Corrêa Em entrevista a Mya Walmsley1 (ca, de, en, fr, it, tr)[traduccion automatica]
Date
Mon, 9 Feb 2026 07:38:20 +0200
A constante renovação do anarquismo organizado no mundo anglófono levou
a um reengajamento com as questões estratégicas fundamentais do
anarquismo. De que maneira uma organização revolucionária deve
estruturar-se? Como uma organização revolucionária deve lutar pelas
reformas? Qual é o papel da organização revolucionária no processo
revolucionário? Ao lidar com essas questões, os insights contemporâneos
têm vindo, indubitavelmente, do movimento anarquista na América Latina,
onde a tradição do anarquismo organizado e classista vem crescendo e
obtendo bons resultados na luta, enquanto no mundo alglófono essa
tradição tem estado em declínio há um longo período.
Apesar de sua influência, grande parte das ideias e da história que
motivaram esse movimento é muito inacessível ao público que fala inglês.
A explosiva introdução dessa tradição - chamada de especifismo - ao
mundo anglófono foi uma ampla introdução aos aspectos centrais dessa
tendência, escrita em 2006 por Adam Weaver, que foi seguida pela
tradução completa da plataforma de 2008 da Federação Anarquista do Rio
de Janeiro (FARJ), que resumiu muitas conclusões teóricas do movimento
naquela região. Ainda que o especifismo não tenha sido unanimemente
adotado na América Latina, e que os debates entre as organizações sobre
seu exato significado e modo de implementação continuem, essa plataforma
produziu, pela primeira vez, uma abertura do público de fala inglesa a
esse novo desenvolvimento teórico que ocorreu naquela região.
Talvez o livro mais importante traduzido depois disso tenha sido
Anarquismo Latinoamericano[Anarchism in Latin America], de Ángel
Cappelletti, publicado em 2018, não apenas uma fantástica história do
movimento na América Latina, mas também um texto importante para o
surgimento do especifismo. Entretanto, relevante para esta entrevista é
o fato de que, nos últimos anos, a tradução de vários textos importantes
de Felipe Corrêa, realizada por Enrique Guerrero-López vem funcionando
para esclarecer e complementar o trabalho apresentado em Anarquismo
Social e Organização, da FARJ. Como militante e teórico da Organização
Anarquista Socialismo Libertário / Coordenação Anarquista Brasileira
(OASL/CAB), em São Paulo, Corrêa proporciona, com esses textos, acesso
ao debate estratégico e a certos acordos do anarquismo latino-americano.
Com isso, ele revelou debates teóricos e estratégicos que,
incomodamente, estavam indisponíveis para o público de fala inglesa.
No espírito de esclarecer e difundir os debates do anarquismo
latino-americano para o mundo anglófono, contatei Felipe Corrêa no
início de 2022 e fiz a ele um conjunto de questões que vários
companheiros levantaram nos grupos de leitura e nas discussões informais
acerca do especifismo - questões que não podiam ser facilmente
respondidas pelos textos disponíveis para nós. Suas extensas respostas
às minhas questões - que abordam temas como conceito de poder, o papel
das organizações e a relação entre anarquismo e política classista -
oferecem insights valiosos e únicos dessa tendência contemporânea.
Agradeço à paciência do companheiro Felipe Corrêa na resposta de minhas
questões, e também à ajuda de Enrique Guerrero-López na tradução desse
texto para o inglês.
Mya Walmsley
Mya Walmsley (MW): Obrigada por concordar em dar esta entrevista,
Felipe! Agradeço pelo tempo utilizado nas respostas dessas questões, e
espero que elas sejam interessantes e proveitosas. Para quem não
conhece, você poderia falar um pouco de si, sobre o trabalho militante
que realiza e sobre a tendência do especifismo?
Felipe Corrêa (FC): Olá Mya! Eu que agradeço pelo seu interesse. Para
mim, é um prazer dar esta entrevista. Sou Felipe Corrêa e há mais de
duas décadas tenho estado envolvido com a militância anarquista e também
com outras atividades relacionadas ao anarquismo, como a pesquisa e a
edição.
No campo da militância, eu faço parte da Organização Anarquista
Socialismo Libertário / Coordenação Brasileira Anarquista (OASL/CAB), em
São Paulo.2 Tenho construído o especifismo no Brasil há quase 20 anos.
Em nível estadual e nacional, atualmente estou envolvido com militância
sindical - faço parte de um sindicato de professores (SINPRO), sou
professor universitário, ligado principalmente à área das Ciências
Sociais e às atividades de pesquisa - e também com gestão de recursos e
formação política.
A CAB faz parte de uma corrente anarquista chamada de especifista -
anarquismo especifista ou simplesmente especifismo -, que é uma
expressão latino-americana do histórico dualismo organizacional
anarquista, que existe desde Bakunin e a Aliança até o presente. Na
América Latina esse termo vem sendo utilizado para se referir às
concepções teóricas e práticas da Federação Anarquista Uruguaia (FAU)
que, fundada em 1956, teve um papel central na luta contra a ditadura
militar nas décadas de 1960 e 1970. Por meio de instrumentos
organizativos que construiu e/ou fortaleceu, a FAU converteu-se na
segunda maior força da esquerda uruguaia nesse combate. Em nível
sindical e de massas esteve atrás apenas do Partido Comunista Uruguaio;
em nível armado esteve atrás apenas dos Tupamaros. Foi, contudo, a única
força que operou em ambos os campos.3
Com o fim das ditaduras latino-americanas o anarquismo especifista se
rearticulou. Primeiro no Uruguai, em meados dos anos 1980, e depois em
outros países. O Brasil foi importante nesse processo e teve suas
primeiras experiências especifistas em meados dos anos 1990.
Desenvolveu-se em diferentes regiões brasileiras e, em 2002,
articulou-se no Fórum do Anarquismo Organizado (FAO). Com a ampliação de
presença e aumento dos laços organizativos, foram criadas as condições
para a fundação da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), em 2012,
cujo objetivo é constituir-se numa organização política nacional, com
núcleos por todo o país.
Em termos de linha política, o especifismo é uma corrente anarquista
inspirada nas posições de Bakunin e de Malatesta; possui proximidade com
as perspectivas do grupo Dielo Truda e de outros clássicos históricos do
anarquismo.
Trata-se de uma corrente que sustenta um conjunto de posições frente aos
grandes debates estratégicos do anarquismo. Primeiro, em relação ao
debate organizativo, os especifistas sustentam a necessidade de um
dualismo organizacional, a partir do qual os anarquistas se articulam
numa organização política, como anarquistas, e em organizações sociais
(sindicatos e movimentos sociais), como trabalhadores.
Segundo, frente ao debate sobre o papel das reformas, os especifistas
consideram que estas podem, a depender da maneira que forem buscadas e
conquistadas, contribuir para um processo revolucionário. Terceiro, em
relação ao debate da violência, os especifistas consideram que ela deve
ser protagonizada sempre no contexto e concomitantemente à construção de
movimentos de massa. No nível social, dos movimentos de massa, o
especifismo promove um programa que tem inúmeras afinidades com o
sindicalismo revolucionário.
No campo da produção intelectual, tenho coordenado o Instituto de Teoria
e História Anarquista (ITHA), projeto internacional que visa a
aprofundar e difundir as pesquisas sobre o anarquismo. Venho produzindo
pesquisas vinculadas ao ITHA, principalmente no campo da teoria política
anarquista; e pesquisas vinculadas à universidade. Também sou editor da
Faísca Publicações Libertárias, uma editora anarquista com cerca de 40
livros publicados, de propaganda militante e de estudos acadêmicos.4
MW: Começarei com uma questão bem abstrata. Em "Anarquismo, Poder,
Classe e Transformação Social"5, você define o anarquismo como uma
ideologia, e faz uma distinção entre ideologia e teoria. Afirma que a
ideologia traz contribuições políticas e subsidia intervenções
estratégicas práticas, ao passo que a teoria traz contribuições
metodológicas e contribui com a explicação da realidade. Por que essa
distinção é tão importante e qual é a relação que ela implica entre
teoria anarquista, ideologia anarquista e prática anarquista?
FC: Para nós, anarquistas que sustentamos a necessidade organizativa de
unidade teórica e ideológica, é importante ter uma resposta precisa
sobre o que é o anarquismo. E, nessa discussão, o especifismo
latino-americano se referencia, em grande medida, num texto de 1972 da
Federação Anarquista Uruguaia intitulado "Huerta Grande: a importância
da teoria". Trata-se de um texto que se baseia nas reflexões de
Malatesta acerca da distinção entre os campos científico e
ideológico-doutrinário.6
Segundo essa noção que aparece em "Huerta Grande" e em Malatesta, é
necessário distinguir um campo da ciência e outro da ideologia-doutrina.
A ciência subsidia a investigação do passado, do presente e, no máximo,
indica aquilo que provavelmente pode acontecer no futuro. A
ideologia-doutrina oferece elementos valorativos para que a realidade
seja julgada e, principalmente, para que se estabeleçam objetivos e
linhas de ação.
Essa distinção é muito importante por dois motivos. De um lado, ela
busca evitar que a interpretação da realidade (campo científico) seja
distorcida por elementos doutrinários-ideológicos - ou, como algumas
vezes dizemos, que se substitua aquilo que foi e que é por aquilo que
gostaríamos que tivesse sido ou que fosse. Uma estratégia consistente
para o anarquismo deve partir de uma leitura precisa (teórica e
cientificamente rigorosa) da realidade. De outro lado, ela pretende
impedir uma perspectiva de futuro que abra mão da transformação em nome
de um pragmatismo reformista ou mesmo conservador. Uma estratégia
consistente para o anarquismo precisa conter elementos que poderíamos
chamar utópicos ou finalistas e buscar realizá-los por meios
revolucionários. Creio que essa posição foi bem sintetizada na consigna
propagada pelo anarquista japonês Osugi Sakae, quando recomendou "atuar
como um crente, pensar como um cético".7
Essa posição também destaca, dentro desses elementos, quais são aqueles
mais e menos flexíveis. O campo científico tem de ser mais flexível
(aberto) que o campo doutrinário-ideológico. Precisamos usufruir dos
desenvolvimentos no campo científico para aprimorar nosso entendimento
da realidade social. Isso não implica, e nem pode implicar, a defesa de
um pluralismo teórico inconsistente ou um vale tudo sem sentido.
Trata-se apenas de uma abertura que garante que não estejamos presos a
métodos, teorias e estudos equivocados, imprecisos ou ultrapassados,
simplesmente porque são anarquistas.
Comparativamente, o campo doutrinário ideológico é bem menos flexível,
em especial quando falamos dos princípios anarquistas. Não somos abertos
e flexíveis ("antidogmáticos") em relação a nossos princípios. Aqueles
que tratam os princípios dessa forma caem num pragmatismo incapaz de
mudança ou transformação social. No que diz respeito à estratégia,
podemos afirmar que a estratégia geral é mais fixa, sendo seguida pela
estratégia de tempo restrito, um pouco menos fixa e mais flexível, e,
finalmente, pelas táticas, mais flexíveis.
Essa posição não pode ser confundida com certo positivismo, que
preconiza - e acredita ser possível - alguma neutralidade frente às
análises da realidade. Ela reconhece que tal neutralidade é impossível,
mas que, ao realizar ciência, os anarquistas devem prestar atenção se
não estão sendo traídos por suas posições ideológicas-doutrinárias. Algo
que é muito comum no campo da esquerda em geral, incluindo o marxismo e
o anarquismo.
A relação que isso implica entre teoria, ideologia e prática é a
seguinte. Podemos dizer que, ao operar com esses pressupostos da FAU e
de Malatesta, os anarquistas defendem: a necessidade de uma perspectiva
teórica (científica) precisa para analisar a realidade e saber,
precisamente, "onde estamos"; a necessidade de uma perspectiva
ideológica (anarquista) para subsidiar nossos julgamentos dessa
realidade, estabelecer os objetivos finalistas e as linhas de ação
possíveis e desejáveis para o período em questão - ou seja, o
anarquismo, a partir de sua crítica da dominação, defesa da autogestão e
visão estratégica, propõe, em grandes linhas, "aonde pretendemos chegar"
e "como"; o que nos leva a uma terceira necessidade, de uma prática
política estratégica que possa nos conduzir de onde estamos aonde
pretendemos chegar - prática esta baseada em uma estratégia geral, uma
estratégia de tempo restrito e um conjunto de táticas.
Em resumo, a teoria anarquista subsidia a leitura da realidade, a
ideologia anarquista subsidia o julgamento dessa realidade, o
estabelecimento de objetivos estratégicos e de linhas estratégicas de
ação, e a prática anarquista leva a cabo concretamente as ações no
sentido de transformar social e revolucionariamente essa realidade.
MW: O que me parece único em seus escritos (e, em geral, na tradição
anarquista na América Latina) - e falo como uma militante do mundo
anglófono - é que eles se concentram bastante no conceito de "poder". Em
"Anarquismo, Poder, Classe e Transformação Social" você afirma que os
anarquistas clássicos tenderam a misturar, imprecisamente, tratando
poder, dominação e autoridade como o mesmo conceito. Essa imprecisão
teórica dificultou que se visse qual forma de poder os anarquistas
deveriam combater (dominação) e qual forma de poder os anarquistas
deveriam construir (popular). Por que você pensa que o conceito de poder
é tão central no anarquismo e quais são as implicações de um
entendimento correto do poder em nossa prática e nossas doutrinas?
FC: Realmente nós temos aprofundado bastante a discussão sobre o
conceito de poder. Temos destacado que ele é importante para os
anarquistas, não apenas em termos de crítica, mas também construtivos e
propositivos.
Antes de tudo é importante ressaltar que, como todos os grandes
conceitos, poder é um conceito polissêmico (tem muitos significados) e
pode ser definido de diferentes maneiras. Historicamente, e nas
diferentes correntes de pensamento, é possível dizer - conforme observou
Tomás Ibáñez - que o poder foi definido de três maneiras distintas: 1.)
Como capacidade (possibilidade de realizar algo), por exemplo, quando
dizemos que temos o poder de fazer isso ou aquilo; 2.) Como estruturas e
mecanismos de regulação e controle (coisa concreta), por exemplo, quando
dizemos que alguém ou algum grupo tomou o poder; 3.) Como assimetria nas
relações de força (relação temporária de imposição), por exemplo, quando
dizemos que uma classe - num momento determinado, e por um tempo
determinado - estabeleceu uma relação de poder (se impôs) em relação a
uma outra.8
Quando falamos dos anarquistas clássicos, eles também dialogam com essas
abordagens, como argumentei em "Anarquismo, Poder, Classe e
Transformação Social". E, não raro, tratam as relações de dominação por
meio de termos como dominação, poder e autoridade. Quando tomamos o caso
dos anarquistas clássicos, na maioria das vezes que utilizam esses
termos (dominação, poder, autoridade), eles têm em mente aquilo que nós
nos referimos, em nossa corrente anarquista, como relações de dominação.
Alguns comentários são necessários sobre essas afirmações. Primeiro que,
apesar dessa abordagem majoritária, em alguma medida todos os
anarquistas clássicos oferecem elementos para o estabelecimento de uma
teoria anarquista do poder. É certo que não foi algo que priorizaram
durante sua vida, mas não há dúvida que em seus escritos há muitos
elementos sobre esse tema. Segundo que, quando faço essas afirmações
sobre os "anarquistas clássicos", não estou considerando Proudhon entre
eles - que, para mim e outros pesquisadores, é mais um tipo de pai do
anarquismo do que anarquista em si, visto que consideramos que o
anarquismo surgiu apenas no seio da Primeira Internacional, na segunda
metade dos anos 1860.9 Dentre os clássicos libertários do socialismo,
Proudhon destaca-se com grandes contribuições nessa discussão sobre o
poder. Terceiro, tanto Proudhon quanto os clássicos anarquistas, mesmo
que na maioria dos casos tratem de maneira equivalente dominação, poder
e autoridade, também abrem possibilidades para outras abordagens.
Proudhon reivindica um "poder social" como força coletiva dos
trabalhadores. (De la Justice dans la Révolution e dans l'Église)
Bakunin enfatiza que não rejeita toda forma de autoridade (Deus e o
Estado) e reivindica inclusive o poder dos "aliados", membros da
Aliança, em relação aos trabalhadores ("Carta a A. Richard"). Malatesta
fala de um "poder efetivo de todos os trabalhadores" ("La Dittatura del
Proletariato e l'Anarchia"). Berneri defende o "uso de um poder político
por parte do proletariado" ("La Dittatura del Proletariato e il
Socialismo di Stato"). Muitas outras referências poderiam ser
mencionadas. O que quero mostrar com isso não é que essas figuras tenham
reivindicado permanentemente o termo poder para se referir às suas
estratégias propositivas e construtivas, mas que, mesmo em suas obras,
há momentos em que essas referências aparecem.
O que argumento em "Anarquismo, Poder, Classe e Transformação Social" é
que, se nos desprendermos do termo e adentrarmos no conteúdo dessa
discussão, verificaremos que, de maneira geral, todos os anarquistas
identificam nos trabalhadores certa capacidade de realização; esses
anarquistas normalmente discutem e põem em prática ações para
transformar essa capacidade de realização numa força social capaz de
intervir na realidade social e, finalmente, pretendem contribuir para
que os trabalhadores se imponham, preponderem frente à burguesia, à
burocracia, a seus inimigos de classe em geral, por meio de uma
revolução social que conduza a um socialismo apoiado em estruturas e
mecanismos de regulação e controle autogestionários e federalistas.
Como detalharei um pouco mais adiante nesta entrevista, esses elementos
- capacidade de realização, força social, relação de
imposição/preponderância e estruturas e mecanismos de regulação e
controle - estão no cerne da teoria do poder que os especifistas têm
defendido e que eu, particularmente, venho desenvolvendo em termos teóricos.
Creio que, a depender de como for definido, o conceito de poder pode ter
um papel importantíssimo no anarquismo. Primeiro, para a explicação
sobre o que é o próprio anarquismo. Utilizo, por exemplo, o conceito de
poder como base da explicação que faço do anarquismo no meu livro
Bandeira Negra: rediscutindo o anarquismo, que nada mais é do que um "O
que é o anarquismo" renovado, que pretende solucionar os problemas dos
estudos anteriores que abordam esse tema.
Quando defino o anarquismo nesse livro destaco, dentre outras coisas,
que "o anarquismo[...]tem como objetivo transformar a capacidade de
realização das classes dominadas em força social e, por meio do conflito
social caracterizado pela luta de classes, substituir o poder dominador
que surge como vetor resultante das relações sociais por um poder
autogestionário, consolidado nas três esferas estruturadas da
sociedade". De modo que o projeto anarquista é por mim considerado um
"projeto de poder".10
Segundo, o conceito de poder pode subsidiar as análises da realidade
elaboradas pelos anarquistas. Por meio dele (e de uma teoria do poder
consistente) é possível entender, na história ou na atualidade (em
termos conjunturais), quais são as forças em jogo num determinado
contexto, quais delas estão se impondo/preponderando em relação a
outras, quais são as relações de poder que se estabelecem nesses
contextos e quais são as formas que tais relações assumem (dominadoras,
autogestionárias, de maior ou menor participação).
Terceiro, e talvez esse seja o motivo principal, para que os anarquistas
tenham clareza de seu projeto político e de onde/como pretendem chegar.
A meu ver, presenciamos constantemente anarquistas que não compreendem
quais são as ações que podem/devem empreender de modo a impulsionar seu
projeto. Não conseguem avaliar concretamente a realidade e nem elaborar
um programa adequadamente estratégico.
O mais grave, entretanto, ocorre quando anarquistas não compreendem que
não basta eles existirem no mundo, ou levarem a cabo suas ações sem
conseguir certos acúmulos e conquistas. Também não é suficiente, nos
casos em que logram tais acúmulos e conquistas, não saber onde/como
querem chegar. Deixe-me explicar. Ou os anarquistas pensam em formas de
maximizar sua força social e, o que é mais importante, a força social
dos trabalhadores, de modo que isso possa apontar para uma transformação
revolucionária e autogestionária/federalista, ou eles não têm razão de
existir. E mais.
Ou os anarquistas compreendem que, em diversas ocasiões, eles terão de
se impor a outros, preponderar em relação a outros (latifundiários,
patrões, burocratas e mesmo outras forças de esquerda, socialistas,
revolucionárias), ou também não terão condições de concretizar seu
projeto. Mesmo que essa imposição/preponderância seja feita de modo
antiautoritário.
Muitos exemplos poderiam ser citados. Mas focarei em um deles quando, no
contexto da Revolução Espanhola, diversos membros influentes da
Confederación Nacional del Trabajo (CNT) - uma organização
anarcossindicalista que representava, à época, aproximadamente um milhão
e meio de trabalhadores - entenderam que estabelecer um poder popular e
autogestionário nas regiões em que a força social dos
anarquistas/anarcosssindicalistas era amplamente majoritária,
equivaleria a estabelecer uma "ditadura anarquista".
Leitura conceitualmente equivocada e que, a meu ver, mostra a falta de
noção de que o projeto anarquista é, realmente, um projeto de poder. Um
projeto contrário à dominação e à exploração, baseado na autogestão e no
federalismo, é verdade, mas, ainda assim, um projeto de poder. Com
receio de se impor e preponderar frente às forças inimigas e
adversárias, a CNT preferiu integrar o projeto colaboracionista com o
governo republicano...
Essa relação que considero mal resolvida entre os anarquistas e a
questão do poder ocasiona problemas desse tipo. Não apenas em situações
revolucionarias e insurrecionais, mas também em circunstâncias
cotidianas, como em movimentos e lutas sindicais, sociais, estudantis,
comunitários etc.
Em resumo, a adoção dessa compreensão do poder que sustento aqui possui
múltiplas implicações. Ela permite um entendimento mais adequado do
anarquismo, um fortalecimento das análises da realidade e,
principalmente, do projeto político anarquista. Em especial, essa
compreensão do poder subsidia os anarquistas para que ampliem sua
intervenção na realidade e se façam crescentemente mais influentes.
MW: Para muitos anarquistas ocidentais, o foco conceitual na questão do
poder está associado com os escritos de Michel Foucault. Para alguns,
essa associação é positiva, mas para muitos que defendem o anarquismo de
massas essa associação implica o abandono da luta de classes. Qual
impacto, se é que teve algum, Foucault teve nos debates
latino-americanos? As pessoas leem Foucault e, se sim, que contribuições
acreditam que ele possui?
FC: É verdade que "para muitos anarquistas ocidentais, o foco conceitual
na questão do poder está associado com os escritos de Michel Foucault".
Mas isso, a meu ver, diz mais sobre os "anarquistas ocidentais" do que
sobre o debate do poder no anarquismo.
Foucault sem dúvida é um dos grandes pensadores do século XX e muito
estudado nas universidades. Minha impressão - e essa tem sido uma das
minhas grandes críticas ao universo anarquista em geral - é que muitos
anarquistas, talvez por comodidade intelectual, ou mesmo para seguir os
modismos acadêmicos, acabam se apropriando de autores de outras
tradições, de outras correntes político-ideológicas, em vez de buscar as
contribuições que existem dentro do nosso próprio campo. O pior é que
essa apropriação é feita, na maioria dos casos, de maneira acrítica, e
não para complementar as contribuições anarquistas, mas para substituí-las.
Isso que considero ser, em diversas partes do mundo, uma moda em torno
de Foucault dentre os anarquistas reflete, para mim, certo "anarquismo
sem anarquistas", que infelizmente encontramos em muitas localidades
neste momento. Há hoje inúmeros "estudos anarquistas" sem qualquer
relação com o anarquismo e os anarquistas históricos.
O que quero dizer é que, dentre os anarquistas - e anarcossindicalistas,
sindicalistas revolucionário e socialistas libertários/antiautoritários
tomados de maneira mais ampla - há inúmeras contribuições nessa
discussão do poder e em muitas outras. Mas estudá-los significa, na
maioria das vezes, "quebrar pedra": os textos não são muito fáceis de
encontrar, muitos deles não estão traduzidos, não há praticamente
comentadores, não há manuais, ninguém os estuda na universidade... Ou
seja, temos que reconhecer que não é fácil estudar Bakunin, Malatesta,
Kropotkin, Proudhon etc.
Considero ser mais do que necessário nos dedicar aos estudos de nossa
tradição expandida (anarquista, anarcossindicalista, sindicalista
revolucionária, socialista libertária/antiautoritária) e produzir,
elaborar, oferecer nossas contribuições críticas frente a elas. Neste
momento estou trabalhando exatamente em um livro que reconstrói as
contribuições teóricas de Malatesta acerca das relações de poder. Não há
dúvida que, mesmo tais contribuições sendo incríveis, é muitíssimo
trabalhoso recuperá-las, reconstruí-las, complementá-las.
Retorno ao Foucault. Sim, nossa tradição do anarquismo especifista teve
certa influência de Foucault (no Uruguai e em algumas regiões do Brasil,
especialmente no sul), que foi e é um autor lido por parte da
militância. Vale ressaltar que não apenas dele, dentre os não
anarquistas. Eu conheço bem a discussão de Foucault sobre o poder; já
dei aulas e escrevi sobre esse tema. Acontece que, como você muito bem
aponta, Foucault tem suas complicações e ambiguidades.
O que posso falar, como alguém que conhece essa discussão sobre o poder
em Foucault, é que o que nós especifistas fizemos, mais do que realizar
uma leitura acadêmica rigorosa desse autor, foi propor uma apropriação
crítica de alguns de seus conceitos e perspectivas teóricas, e
adaptá-las ao quadro geral de referência de nosso anarquismo - de modo
que elementos como classes sociais e o classismo continuaram presentes.
Na minha avaliação, essa leitura especifista de Foucault foi feita pela
esquerda, bem pela esquerda.
De qualquer modo, entendo que há certo risco em procedimentos desse
tipo. Pois, apesar da distinção que fazemos entre teoria e ideologia, e
de termos uma postura de maior flexibilidade e abertura frente à
primeira do que à segunda, é inegável que as contribuições teóricas
possuem elementos ideológicos e, às vezes, sem perceber, por bebermos em
certo material teórico, podemos terminar incorporando certos elementos
ideologicamente complicados para o anarquismo.
Já vi isso acontecer no campo anarquista em distintas épocas e regiões,
tanto com a incorporação de teoria marxista - que, depois, terminou se
convertendo em elementos ideológicos "marxizantes" -, quanto com a
incorporação de teoria pós-moderna - que, do mesmo modo, gerou
perspectivas ideológicas bem complicadas e distantes do anarquismo.
Quando falo que Foucault possui complicações e ambiguidades, me refiro a
alguns pontos em particular. Ele nunca foi um pensador anarquista e nem
teve grandes preocupações programáticas e estratégicas. Se suas ideias
podem ser interpretadas desse modo, mais à esquerda, como feito pelos
especifistas, elas também podem ser tomadas numa perspectiva bastante
liberal e, mesmo, de completa resignação - neste último caso, apontando
para leituras do tipo: se há poder em todas as relações, então não há
muito a fazer, já que todos somos, ao mesmo tempo, oprimidos e
opressores. Realmente há riscos importantes nesse sentido.
Cumpre notar que, estudando a fundo vários clássicos anarquistas,
anarcossindicalistas, sindicalistas revolucionários e socialistas
libertários/antiautoritários, posso afirmar que tudo aquilo que nossa
corrente utilizou de Foucault está presente nos "nossos" autores. Não há
nada que tenhamos nos apropriado de Foucault que não esteja, por
exemplo, em Malatesta e/ou Proudhon.
Acredito que precisamos evitar a todo custo esse procedimento
(infelizmente bem presente no anarquismo) de sair pegando e incorporando
acriticamente tudo aquilo que parece interessante, que está na moda
(acadêmica ou militante), que a gente estuda na universidade ou discute
nos movimentos. Historicamente o anarquismo possui certas linhas (e cada
corrente anarquista linhas mais específicas dentro do anarquismo). Por
isso, é importante ter em mente que as contribuições devem complementar
essas linhas e não descartá-las, colocá-las em xeque ou distorcê-las.
MW: Outro termo que parece ter bastante foco na tendência do especifismo
é "força social". Força social é a força "realizada" de uma classe
dominada, quando ela é organizada e canalizada utilizando meios corretos
para os fins que estão em seus interesses. Assim, o conceito de força
social valoriza a organização - tanto prática quanto ideológica - das
classes dominadas, pois maior organização equivale a maior capacidade de
transformação social. Você pode falar um pouco mais sobre como essa
"força social" se realiza? E mais, e esse talvez seja um problema de
tradução: Qual é a diferença entre poder e força social? Pelas minhas
leituras de seus textos traduzidos, aparentemente há distintas camadas
de força social implícitas, e que não são descritas explicitamente.
Primeiro, partindo de Proudhon, há um tipo de força potencial que os
trabalhadores obtêm trabalhando cooperativamente. Depois, há um tipo de
força obtida pelo trabalho cooperativo num sentido político-ideológico:
trabalhar coletivamente rumo a um objetivo e um programa comuns.
Finalmente, há força social no sentido que você mais discute, no nível
das classes sociais, em que as classes dominadas, em função de sua
posição de classe, podem construir poder popular. Você pode falar da
relação entre essas camadas (independente de você concordar com minha
expansão do termo)? Para reformular essa questão em termos mais
práticos: Qual é o papel da organização anarquista na organização do
poder das classes dominadas?
FC: Há muitos elementos nessa questão que creio ser importante detalhar
e organizar. Aos poucos tenho escrito outros materiais sobre esse tema
do poder, que abarcam tudo aquilo que você pergunta. Vou tentar
sistematizar de uma maneira mais didática para facilitar a compreensão.
E tudo que eu falo abaixo tem referência em autores clássicos (Bakunin,
Malatesta, Proudhon, principalmente) e contemporâneos (Alfredo
Errandonea, Tomás Ibáñez, Fábio López, Bruno L. Rocha), incluindo as
organizações anarquistas especifistas e minha própria produção.11
Antes de tudo, é importante recordar, como eu disse antes, que o poder
foi historicamente definido de três maneiras: 1.) Como capacidade; 2.)
Como estruturas e mecanismos de regulação e controle; 3.) Como
assimetria nas relações de força. Esses três elementos são importantes e
estão presentes na teoria do poder que venho desenvolvendo. Não
necessariamente como parte do conceito de poder em si, mas que estão a
ele relacionados.
Tomemos como ponto de partida uma definição de poder que considero
adequada: o poder é uma relação social concreta e dinâmica entre
diferentes forças assimétricas, na qual há preponderância de uma(s)
força(s) em relação a outra(s). Há, nessa definição, alguns aspectos
importantes.
Primeiro, que quando afirmo o poder como uma relação social, estou
dizendo que poder significa relação de poder, e que envolve no mínimo
duas partes (pessoas, grupos, classes etc.).
Segundo, quando falo de uma relação concreta e dinâmica, estou excluindo
aquela noção de poder como capacidade, que se coloca no campo das
possibilidades, de algo que pode ou não se concretizar; refiro-me, mais
especificamente, a uma relação que de fato ocorre.
Relação esta que nunca é permanente - sempre se localiza num contexto
(tempo-espaço) e é temporária; ninguém tem o poder eternamente, mas
apenas durante um certo tempo. Por isso, as relações de poder estão em
permanente mudança e podem ser transformadas a qualquer momento.
Terceiro, quando falo em relação entre diferentes forças assimétricas é
necessário definir, precisamente, este conceito acessório ou
subconceito: força social. Força social pode ser definida como a energia
aplicada por agentes em conflitos sociais para atingir determinados
objetivos. Tal força pode ser individual, grupal ou classista e
significa a materialização da capacidade de realização. Temos aqui o
primeiro aspecto que organiza aquelas três maneiras históricas de
conceituar o poder; faço uma distinção entre capacidade de realização e
força social.
A capacidade de realização é aquela possibilidade de fazer algo no
futuro, aquele possível vir a ser que pode se concretizar ou não. Nos
referimos à capacidade de realização quando, por exemplo, afirmamos que
os trabalhadores têm o poder de transformar o mundo. De acordo com os
conceitos que tenho adotado, essa frase seria melhor formulada da
seguinte maneira: os trabalhadores têm a capacidade (possibilidade) de
transformar o mundo. Isso porque, mesmo com essa capacidade, eles podem
ou não transformar o mundo; não se trata de algo concreto, que de fato
acontece.
A capacidade de realização converte-se em força social quando sai do
campo da possibilidade de realizar algo no futuro, que pode ocorrer ou
não, e é de fato colocada em prática, começa a fazer parte do jogo de
forças que constitui uma realidade social. Voltemos ao nosso exemplo: Os
trabalhadores têm a capacidade de transformar o mundo. Mas eles podem
todos estar tocando sua vida cotidiana, indo para o trabalho, cuidando
da família, vivendo uma vida que não tem qualquer impacto nos rumos do
desenvolvimento da sociedade capitalista. Nesse caso, eles continuam
apenas com essa capacidade potencial.
Agora, quando começam a aplicar sua energia nos conflitos sociais
visando a certos objetivos, esses trabalhadores constituem uma força
social. Por exemplo, quando começam a se organizar, quando fazem lutas,
reivindicações etc. Veja que aqui aquela capacidade foi transformada em
força social. Essa força pode ser bem minoritária - e, assim, ser
incapaz de modificar os rumos da realidade; mas ela pode ser mediana ou
mesmo grande e, desse modo, protagonizar mudanças e transformações.
Quando falo de força social é importante ter duas questões em mente. A
primeira é que todos nós nascemos já com a força física de nosso próprio
corpo, que pode ser mobilizada em certos conflitos. Por exemplo, a força
física de um homem pode ser utilizada para que ele se imponha a uma
mulher num determinado conflito. A segunda é que uma força social pode
ser individual ou coletiva e, no segundo caso, devemos sempre considerar
que a força coletiva é maior que a soma das forças individuais. Por
exemplo, a força coletiva de cem trabalhadores protestando em frente a
uma prefeitura durante uma hora é muito maior do que se esses
trabalhadores permanecessem ali, cada um, individualmente, durante uma
hora, um depois do outro. Mesmo que a quantidade de horas de protesto
por pessoa seja a mesma, sem dúvida a força social do coletivo (pessoas
juntas) é muito maior que a força social dos indivíduos (pessoas separadas).
Além disso, devemos ter em mente que há inúmeras formas para ampliar a
força social. Vejamos algumas delas que são bastante conhecidas.
As pessoas podem: 1.) Ampliar sua força física e aperfeiçoar as técnicas
para utilização dessa força, com exercícios e artes marciais. Num
conflito entre torcidas organizadas, por exemplo, a força física pode
ser um fator determinante. Ou mesmo no caso de combates militares que
exijam capacidades e esforços corporais. 2.) Agregar e mobilizar pessoas
com um propósito comum. Para um abaixo assinado, uma eleição ou uma
marcha nas ruas, por exemplo, a quantidade de pessoas agregadas e
mobilizadas é elemento fundamental. 3.) Possuir dinheiro, propriedades,
máquinas e recursos naturais. É disso que se trata, por exemplo, quando
vemos que é muito mais fácil os ricos se imporem aos pobres do que o
contrário; que um país com uma grande quantidade de petróleo possui
maior peso nas relações geopolíticas internacionais do que um país sem
petróleo; que, na concorrência capitalista, os grandes tendem a submeter
os pequenos.
4.) Conquistar posições de mando e decisão, pois as pessoas que as
ocupam têm uma chance muito maior de se impor àquelas que não as ocupam.
Quando dizemos, por exemplo, que não há livre negociação de salários
entre patrão e empregado, é justamente por esse motivo. Por ocuparem uma
posição de mando e decisão ou mesmo por serem donos da empresa, gestores
e proprietários quase sempre terão uma força social muito maior do que
aquela do trabalhador nos conflitos trabalhistas. Isso explica porque,
num movimento popular burocratizado, as posições de mando e decisão são
fortemente disputadas por entidades e partidos políticos.
5.) Desenvolver capacidade de influência e persuasão, quando há pessoas
que, por meio de argumentos ou carisma, em conversas, discursos etc.,
convencem e trazem outras pessoas para seu lado. 6.) Possuir armas e
tecnologias de guerra, elementos fundamentais para, por exemplo,
determinar os resultados de uma guerra. 7.) Ter informação e
conhecimento, que permite não apenas incidir melhor nos conflitos, mas
saber antecipadamente dos passos de adversários e inimigos. Muitas
outras formas de ampliação da força social poderiam ser mencionadas.
Cumpre notar que, em cada caso, há um conjunto de "regras" sobre as
maneiras possíveis e legítimas de se investir no aumento de força
social. Vejamos. Para os conflitos físicos entre torcidas organizadas,
frequentar uma academia e fazer uma arte marcial é muito mais aceitável
("normal") do que para os conflitos trabalhistas de negociação de
salário numa empresa. Para os conflitos concorrenciais entre empresas,
possuir propriedades e dinheiro - investir para ter cada vez mais, e
fazer disso um mecanismo para se impor - é muito mais aceitável/normal
do que nos conflitos sociais encampados por movimentos populares e
organizações socialistas revolucionárias.
Quero dizer que cada forma de conflito possui um certo conjunto de
regras acerca daquilo que é mais aceitável, normal, usual para se
investir no aumento de força social. O que não significa que outros
caminhos não possam ser adotados. Por exemplo, as armas em geral não
fazem parte da normalidade de uma eleição sindical, mas no Brasil
sabemos que, a depender do sindicato, isso é uma realidade.
Outro aspecto importante dessa discussão é que as relações entre forças
sociais se dão sempre num determinado cenário - certa estrutura ou ordem
com regulações, controles, normas, instituições. Cenário esse que também
é formado por relações de forças, mas que são mais duradouras, que
perduram no tempo-espaço e que se institucionalizam fazendo com que o
próprio cenário tenha suas regras e, por isso mesmo, exerça força no
jogo. As forças sociais que jogam a favor da estrutura/ordem têm muito
mais facilidade (são maximizadas) do que as forças que se contrapõem a
ela (são minimizadas).
Isso explica porque, em termos sociais, dar continuidade a alguma coisa
que já acontece em geral é mais fácil que modificá-la; movimentos que
afirmam a ordem têm geralmente mais facilidade que movimentos que
contestam a ordem. Imaginemos, por exemplo, dois movimentos com a mesma
quantidade de pessoas e recursos: um de defesa do capitalismo e outro
anticapitalista. O que estou argumentando é que, numa circunstância como
essa, mesmo que com os mesmos recursos/pessoas, o movimento capitalista
terá mais facilidade, pois estará jogando num cenário, numa estrutura
capitalista, usufruindo da inércia que tais relações possuem.
Como se pode perceber, essa noção de força social é útil para pensar
distintas questões, especialmente conflitos entre certas forças em nível
micro, meso e macrossocial. Essa mencionada dinâmica de correlação de
forças assimétricas pode ser utilizada para se compreender a relações
entre pessoas, gangues, empresas, países, partidos, meios de
comunicação, classes etc.
Podemos conceber a realidade social como o resultado de um enfrentamento
entre distintas forças sociais, as quais, na maioria dos casos, não se
resumem a duas (força A X força B). São frequentemente múltiplas forças,
que incidem de maneira distinta na realidade, que possuem proximidades e
distanciamentos com outras, que se aliam, cooperaram entre si.
Chego aqui ao conceito mais específico de poder, anteriormente colocado.
Poder que ocorre exatamente quando uma ou algumas forças preponderam (se
sobrepõem, se impõem) a outra(s). E aqui se torna evidente a diferença
entre força social e poder. Constituir uma força social significa estar
incidindo na realidade, tendo algum papel nos conflitos; ter poder
significa fazer de sua própria força social uma força que preponderou
frente às outras, que se sobrepôs, que se impôs.
Podemos dizer, nesse sentido, por exemplo, que desde seu ressurgimento
dos anos 1990 em diante, anarquistas, anarcossindicalistas e
sindicalistas revolucionários, em termos globais, têm constituído uma
força social. Porque, em distintos países, possuem incidência na
realidade, seja nas lutas e protestos de maneira geral, seja em
movimentos sindicais, comunitários, estudantis, agrários, ou mesmo no
campo das ideias de maneira mais geral.
Isso não significa, de modo algum, que o anarquismo, o
anarcossindicalismo e o sindicalismo revolucionário possuam poder.
Atualmente, ele constitui uma força social minoritária dentro da
esquerda de maneira geral, e quase ínfima quando pensamos nas forças
sociais que disputam os rumos globais da sociedade.12
Quando sustentamos a necessidade de um anarquismo que busque o poder,
isso implica, obrigatoriamente, conceber e por em prática formas de
maximizar a força do anarquismo e, principalmente, das classes
populares, de modo que se tornem agentes poderosos não apenas na
esquerda, mas nos cenários locais, regionais, nacionais e mesmo
internacionais.
O poder está presente em todos os campos e níveis da sociedade. Ele
fornece as bases para as regulações, os controles, os conteúdos, as
normas etc. Possui, dessa maneira, uma relação direta com as tomadas de
decisão.
Temos, até agora, certos aspectos teóricos capazes de subsidiar análises
da realidade, seja ela passada ou presente. Esses aspectos teóricos
permitem que elaboremos reflexões históricas e análises de conjuntura,
por meio de respostas a um conjunto preciso de questões. Num determinado
cenário (momento/território):
Quais são as forças sociais em jogo? Como elas incidem no campo social?
Qual(is) prepondera(m)? Quais as resultantes desta relação? Mapear as
forças em jogo, sua incidência na realidade, as preponderâncias e
resultantes desse enfrentamento é fundamental para entender um
determinado cenário da sociedade.
Tanto as relações de poder quanto as regulações e controles que ocorrem
na sociedade podem ou não implicar dominação. Isso significa que,
conforme eu e outros especifistas temos sustentado, poder e dominação
não são sinônimos; nem regulação/controle e dominação. Ou seja, uma
relação de poder pode ser uma relação de dominação, mas pode também não
ser. Um conjunto de mecanismos de regulação e controle pode ser
dominador, mas pode também não ser.
O que permite fazer essa afirmação é outro conceito acessório ou
subconceito: participação. Em termos gerais, participação é a ação de
tomar parte ou contribuir com decisões coletivas; ela se relaciona com
todo o processo discutido de constituição de forças sociais,
enfrentamentos/disputas e de estabelecimento de relações de poder. As
relações de poder e os mecanismos de regulação e controle podem ser
analisados e concebidos frente à maior ou menor participação que envolvem.
De modo que poder, regulação e controle podem ser dominadores (e, assim,
contar com menor participação) ou autogestionários (e, assim, contar com
maior participação). O poder pode ser assim concebido como uma relação
que oscila entre esses dois extremos: a dominação e a autogestão.
Dominação é uma relação social hierárquica, em que um ou uns decidem
aquilo que diz respeito a todos; ela explica as desigualdades, envolve
as relações de exploração, coerção, alienação etc. A dominação explica
as classes sociais, ainda que haja outras formas de dominação para além
da dominação de classe. Autogestão é a antítese da dominação; trata-se
de uma relação social não hierárquica (igualitária), em que as pessoas
participam dos planejamentos e decisões que lhes afetam, pessoal e
coletivamente. A autogestão fundamenta o projeto de uma sociedade sem
classes e outras formas de dominação.
Algumas noções derivam disso. Primeiro, que a dominação é uma forma de
poder, assim como a autogestão. Podemos dizer que, historicamente, a
ampla maioria de relações de poder que se estabeleceram em nível
macrossocial foram relações de dominação (poder dominador, portanto).
Mas também é possível afirmar que, paralelamente, inúmeras outras
relações de poder, em nível meso e macrossocial, foram relações de
autogestão (poder autogestionário, portanto). Isso notamos tanto em
movimentos e lutas, quanto em certos momentos de experiências
insurrecionais e revolucionárias.
Quando os especifistas reivindicam ser necessário "construir o poder
popular", o que se defende nada mais é do que a construção de uma força
social popular capaz de promover uma revolução social e, com isso,
estabelecer uma relação de poder frente às classes dominantes e grandes
agentes da dominação de maneira geral. Obviamente, não se trata da
construção de qualquer poder, mas de um poder autogestionário, que
implique o combate direto das relações de dominação, e que aponte para
uma sociedade sem classes e outras formas de dominação. Portanto, nossa
concepção de poder popular é uma concepção de poder autogestionário.
O papel da organização anarquista vai exatamente nessa direção. Ela tem
por objetivo, em primeiro lugar, contribuir para transformar a
capacidade de realização dos trabalhadores numa força social. Em segundo
lugar, colaborar para o aumento permanente dessa força social dos
trabalhadores. Em terceiro lugar, reforçar as posições de esquerda,
socialistas, revolucionárias e libertárias/antiautoritárias frente às
posições de direita, capitalistas, reformistas e autoritárias presentes
entre os trabalhadores e seus movimentos. Em quarto lugar, estimular a
construção de relações de poder autogestionárias, que apontem para um
processo revolucionário de transformação social, estabelecendo
instituições de regulação e controle igualitárias e libertárias, e
permitindo a expansão desse projeto em termos regionais, nacionais e
internacionais.
MW: Numa perspectiva mais prática, a definição de poder e de dominação
no especifismo tem sido utilizada para explicar teoricamente a
estratégia de construção de uma "frente de classes oprimidas". Alguns de
nossos companheiros tem a preocupação de que essa estratégia leve a um
abandono de liderança da classe trabalhadora[working class]e sua relação
única com a produção durante a revolução socialista. Também nos
preocupamos que isso possa levar a uma análise "voluntarista" da
transformação social. Ou seja, parece que se está priorizando a relação
de dominação frente à relação com os meios de produção, no entendimento
do papel que uma classe terá na revolução social e, assim,
potencialmente, uma priorização na conscientização frente ao confronto
político na produção. Gostaria que você respondesse a essas
preocupações. Elas representam uma compreensão precisa de suas posições?
FC: Quero iniciar enfatizando que o conceito de classes sociais com o
qual operamos, em geral, é muito próximo daquele defendido por distintos
anarquistas clássicos, como Bakunin e Malatesta. O problema aqui,
novamente, me parece ser aquela mencionada importação de elementos
teóricos (neste caso, do marxismo) para o anarquismo, algo que nos
impede de conhecer e de usufruir de nossas próprias contribuições.
Esses e outros anarquistas possuem reflexões importantes para essa
discussão sobre as classes sociais. Antes de tudo, para Bakunin,
Malatesta e outros, classes sociais nunca foi um conceito exclusivamente
econômico. Sem dúvida, as classes abarcam (não raro, prioritariamente)
elementos de ordem econômica, como a propriedade dos meios de produção e
de distribuição, e os consequentes privilégios econômicos. Pode-se dizer
que há, nesse sentido, um poder econômico.
Mas as classes também abarcam outros elementos de ordem política, como a
propriedade dos meios de administração e coerção, e os consequentes
privilégios políticos. Pode-se dizer que há, nesse sentido, um poder
político. Enfim, as classes ainda abarcam os elementos de ordem
intelectual/ moral, como a propriedade dos meios de comunicação e
instrução, e os consequentes privilégios intelectuais. Pode-se dizer que
há, nesse sentido, um poder intelectual.
No sistema capitalista-estatista - e, portanto, na sociedade
contemporânea - é possível afirmar que há um conjunto de classes
dominantes e um conjunto de classes oprimidas. Economicamente, podemos
falar em proprietários (burgueses e latifundiários), que submetem
proletários (no sentido mais restrito, de trabalhadores assalariados) e
camponeses. Politicamente, podemos falar em uma burocracia (governantes,
juízes, policiais), que submete um amplo contingente de governados.
Intelectualmente, podemos falar em autoridades religiosas,
comunicacionais e educacionais, que submetem aqueles que possuem pouco
ou nenhum impacto na produção das ideias de uma sociedade em geral.
Portanto, em nossa sociedade, quando falamos de classes sociais, podemos
identificar esses três amplos conflitos sociais: proprietários X
proletários e camponeses (econômico); burocratas X governados
(político); autoridades religiosas/comunicacionais/educacionais X
pessoas com pouca ou nenhuma incidência na produção das ideias
macrossociais (intelectual).
É importante observar que esses conflitos estão sempre articulados em
termos sistêmicos. De modo que essa distinção dos três campos ou esferas
(econômico, político e intelectual) e dos três mencionados conflitos a
eles relacionados, é apenas analítica. Pois, na realidade, essas três
partes compõem um todo estrutural, que funciona como um sistema. A
articulação desses três conflitos aponta exatamente para aquilo que
mencionei há pouco. Não há apenas burguesia e proletariado; não há
apenas duas classes em conflito.
Há, como colocado, um conjunto de classes dominantes e um conjunto de
classes oprimidas. Exercendo a dominação em nossa sociedade temos esse
conjunto de classes composto por: proprietários + burocracia +
autoridades religiosas/comunicacionais/educacionais (ressaltando que
falo aqui, obviamente, das grandes religiões, empresas de comunicação e
educação, ou seja, aqueles que de fato pautam a produção de ideias na
sociedade contemporânea). Conjunto que possui, concomitantemente, a
propriedade dos meios de produção e de distribuição, de administração e
coerção, de comunicação e instrução; e que usufrui, concomitantemente,
de privilégios econômicos, políticos e intelectuais.
Sofrendo a dominação em nossa sociedade temos outro conjunto de classes
composto por: proletários + camponeses (e povos tradicionais) +
marginalizados, os quais são, em conjunto, e concomitantemente, vítimas
da exploração econômica, da dominação político-burocrática, da coerção
física e da alienação intelectual. Há, também, um setor intermediário,
menos relevante, entre esses dois amplos conjuntos de classes.
Desse modo, quando falamos de luta de classes, é preciso entender que
ela pode se manifestar (e realmente se manifesta) de duas maneiras
distintas. Uma, particular, por exemplo, quando trabalhadores
assalariados de uma empresa enfrentam um patrão em particular. Outra,
mais geral, que envolve ambos os mencionados conjuntos: classes
dominantes X classes oprimidas.
Se você e outros companheiros tiverem interesse, podemos compartilhar um
estudo que usufrui desses pressupostos teóricos para fazer uma leitura
das classes sociais no Brasil contemporâneo. É bastante completo e muito
interessante.
Essa concepção de classes sociais possui implicações que tornam
evidentes as diferenças entre nossas posições e aquelas normalmente
vinculadas ao campo do marxismo. Em especial quando consideramos a
burocracia uma classe dominante e, assim, tão inimiga de classe dos
trabalhadores quanto os burgueses ou latifundiários; o mesmo vale para
as grandes lideranças religiosas, os proprietários dos grandes
conglomerados de mídia e de educação - são todos inimigos de classe dos
trabalhadores e devem ser igualmente combatidos para que o socialismo
seja possível.
Socialismo este que abarca, também, esses três campos ou esferas:
buscamos um socialismo integral, que não se restrinja à economia.
Defendemos a socialização (e não a nacionalização ou o controle estatal)
dos meios de produção e de distribuição (do poder econômico), mas também
da propriedade dos meios de administração e coerção (do poder político),
e da propriedade dos meios de comunicação e instrução (do poder
intelectual). É isso que entendemos como fim do capitalismo, do Estado,
das classes sociais. Ou seja, a socialização completa do poder social.
Sobre a proposta de uma "frente de classes oprimidas", posso dizer que,
em nossa concepção, ela significa, tão somente, como em geral significou
para inúmeros anarquistas clássicos, a compreensão que todos os "de
baixo" - trabalhadores assalariados, tanto da cidade como do campo,
tanto da indústria como dos serviços, trabalhadores precarizados,
autônomos, marginalizados, assim como camponeses - devem ser levados em
conta quando se trata de conceber um projeto amplo de transformação
revolucionária como aquele proposto por nós.
Nesse aspecto é possível identificar outras divergências, agora com
certos setores históricos do marxismo e mesmo do anarquismo. Foi comum,
entre tais setores, conceber o capitalismo como um modo de produção
econômico e entender que sua base é urbana e industrial. Não há dúvida
que a economia é um campo/esfera central na sociedade capitalista, que
as cidades e indústrias têm um papel importantíssimo no capitalismo. Mas
o capitalismo é muito mais do que uma forma histórica de economia.
Trata-se, como mencionei antes, de um sistema que, além da economia,
inclui o Estado e as ideias que são fundamentais para legitimar as
relações sociais capitalistas.
Portanto, não há dúvida que trabalhadores urbanos e industriais sejam
fundamentais para a luta e para uma revolução social. Agora, quando se
afirma a "liderança da classe trabalhadora[working class]e sua relação
única com a produção durante a revolução socialista", isso tem
diferentes possibilidades de interpretação. "Working class" pode
significar exclusivamente o proletariado urbano e industrial - e aí,
certamente, essa posição não é a nossa -, mas também pode significar
classe trabalhadora em sentido amplo, termo que às vezes utilizamos, e
que abarca todos os sujeitos anteriormente mencionados.
Se é verdade que os setores mais diretamente envolvidos na produção
precisam estar envolvidos em qualquer projeto revolucionário, quando se
discute esse tema em perspectiva global, ou mesmo quando se pensando
sobre a nossa realidade na América Latina, parece inconcebível um
projeto revolucionário anarquista que não dê conta do proletariado
rural, dos camponeses, dos trabalhadores informais e mesmo dos
marginalizados.
Creio que neste ponto é necessário detalhar um pouco mais os termos que
utilizamos, pois podemos estar falando a mesma coisa ou ter grandes
divergências.
Isso nos leva a outro ponto abordado na questão, sobre o voluntarismo
analítico. Nossa posição, como se pode notar, não é voluntarista e nem
estruturalista. Ela compreende que as estruturas possuem um papel
fundamental em nossa sociedade, construindo parte importante da
realidade social. Mas também que a vontade, a ação humana, possui um
papel relevante. Ainda que seja grosseiro, gosto de pensar na realidade
social como 70%-80% determinada estruturalmente, e 30%-20% determinada
pelas ações humanas voluntárias.
Me parece que essa posição está em linha com a maioria das teorias
sociais contemporâneas (das Ciências Sociais ou da História) que buscam
conciliar estrutura e ação, concedendo à primeira mais peso de a
segunda, mas fugindo concomitantemente do estruturalismo e do
voluntarismo deterministas.
O século XX tornou evidente que os argumentos de um certo setor do
marxismo estavam equivocados, e que a posição de um conjunto importante
de anarquistas históricos era, realmente, a mais acertada. Nesse período
notamos, ao observar as distintas realidades econômico-sociais no mundo,
que a estrutura do capitalismo avançado não foi suficiente para
produzir, por si só e de maneira automática, sujeitos e processos
revolucionários.
E mesmo quando observamos os países que contaram e não contaram com
revoluções, o que se constata é que o desenvolvimento das forças
produtivas não criou ambientes revolucionários mais radicalizados ou com
maior potencial que nos países ditos "atrasados", nos quais ocorreram
tais revoluções. Constatamos, ao mesmo tempo, que não há um etapismo,
por meio do qual as revoluções só podem acontecer depois de um
desenvolvimento avançado do capitalismo.
Ainda que se deva notar que essas revoluções, cuja maioria terminou
construindo aquilo que seria conhecido como "socialismo real", sequer
socializaram ou iniciaram uma socialização consistente do poder
econômico, para não falar do poder político ou intelectual. Elas não
chegaram, nem de perto, à emancipação dos trabalhadores, e nem mesmo
caminharam nessa direção. Por isso, não podem ser tomadas como modelos
revolucionários de sucesso.
A posição de uma fração de classe, de um grupo ou de indivíduo na
estrutura da sociedade não é suficiente para torná-lo mais ou menos
revolucionário. Para isso, é imprescindível a ação, a conscientização
(ação de classe, consciência de classe) que, juntamente com as
determinantes estruturais, produzirá esse novo sujeito revolucionário
que necessitamos. Para uma transformação rumo ao socialismo
autogestionário que defendemos, não basta fazer parte de uma estrutura
desigual. É necessário que essa estrutura seja percebida como injusta,
que se acredite na possibilidade de mudança. É fundamental que as ações
caminhem num determinado sentido - precisamos de um projeto consistente.
Os trabalhadores não se transformam em sujeitos revolucionários sem
engajamento nas lutas e conscientização.
Por último, gostaria de enfatizar que não estou "priorizando a relação
de dominação frente à relação com os meios de produção". Como apontei,
as relações de dominação, da maneira que as compreendo, envolvem,
abarcam as relações com os meios de produção (em sentido marxiano); a
exploração, nesse sentido, é uma forma de dominação, assim como as
outras que mencionei (dominação político-burocrática, coerção física e
alienação cultural). Mas vale recordar que quando falo em dominação de
classe, não me restrinjo aos meios econômicos, mas também aos meios
políticos e intelectuais.
Devo notar, ainda, que essa posição não confunde a dominação de classe
com outras formas de dominação, como a dominação nacional
(colonialismo/imperialismo), a dominação étnico-racial (racismo) e a
dominação de gênero (patriarcado). A dominação possui várias formas; a
dominação de classe é uma delas - importantíssima na sociedade
capitalista, sem dúvida - e que se relaciona com todas as outras formas
acima mencionadas. Tal relação permite explicar a sociedade capitalista
em suas múltiplas relações de dominação.
Também não há, na estratégia do especifismo, "priorização na
conscientização frente ao confronto político na produção". Nossa
estratégia sempre teve foco na construção e no fortalecimento de
movimentos populares a partir de um determinado programa que, em termos
históricos, como já mencionei, possui muita proximidade com o
sindicalismo revolucionário. Não somos educacionistas e nem defendemos
prioridade na propaganda. Nosso foco está no trabalho de base regular e
cotidiano, na construção de lutas sindicais, comunitárias, agrárias,
estudantis, de mulheres, LGBTs, negros, indígenas etc. a partir de nosso
programa. A luta nos espaços de trabalho industriais e urbanos está
contemplada em nossa estratégia, mas ela vai além disso. Não apenas em
função do cenário econômico-social brasileiro, mas mesmo desde uma
perspectiva global.
Março, 2022
1 Militante vinculada ao grupo plataformista/especifista Black Flag
Sydney (Austrália), que atualmente vive em Montreal (Canadá).
2 Site da OASL: https://anarquismosp.wordpress.com/. Site da CAB:
https://cabanarquista.org/. Declaração de Princípios da CAB (em inglês):
https://www.anarkismo.net/article/23028.
3 Sobre a história da FAU (em inglês), ver:
https://www.anarkismo.net/article/32515. Sobre a estratégia do
anarquismo especifista, ver a longa entrevista que fiz com Juan Carlos
Mechoso, militante histórico da FAU (em inglês):
https://theanarchistlibrary.org/library/juan-carlos-mechoso-uruguayan-anarchist-federation-fau-the-strategy-of-especifismo.
4 Site do ITHA: https://ithanarquista.wordpress.com/. Site da Faísca:
http://editorafaisca.net/.
5 Em: https://www.anarkismo.net/article/32540.
6 "Huerta Grande" (em inglês) pode ser lido em:
https://blackrosefed.org/huerta-grande/. Sobre as posições de Malatesta
a este respeito, ver o capítulo "Anarquismo e Ciência" da compilação
Errico Malatesta: Life and Ideas, organizada por Vernon Richards:
https://libcom.org/files/Malatesta%20-%20Life%20and%20Ideas.pdf.
7 O texto em que Osugi Sakae faz essa afirmação está parcialmente
disponível (em inglês) na antologia Anarchism: a documentary history of
libertarian ideas", vol. 1, organizada por Robert Graham (Black Rose
Books, 2005).
8 Sobre este e outros argumentos de Ibáñez, ver minha resenha de seu
artigo "Por un Poder Político Libertario" (em inglês):
https://www.anarkismo.net/article/19736.
9 Sobre esse argumento, ver meu artigo "Anarchist Theory and History in
Global Perspective" (em inglês):
https://ithanarquista.wordpress.com/2021/12/15/felipe-correa-anarchist-theory-and-history-in-global-perspective/.
10 O já citado artigo "Anarchist Theory and History in Global
Perspective" (em inglês) apresenta um resumo deste livro.
11 Infelizmente há poucos escritos em inglês desses autores contemporâneos.
12 Tais são algumas das conclusões de uma pesquisa que realizei ao longo
de dois anos sobre o ressurgimento global do anarquismo, do
anarcossindicalismo e do sindicalismo revolucionário entre 1990 e 2019.
Os resultados dessa pesquisa podem ser encontrados no capítulo "The
Global Revival of Anarchism and Syndicalism (1990-2019)" do livro The
Cambridge History of Socialism: a global history in two volumes,
organizado por Marcel Van der Linden (Cambridge, 2022) e no "Dossier
Contemporary Anarchism: anarchism and syndicalism in the whole world
(1990-2019)": https://ithanarquista.wordpress.com/contemporary-anarchism/.
https://socialismolibertario.net
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