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(pt) red blac knotes: Elementos da teoria e estratégia anarquistas: uma entrevista com Felipe Corrêa - Entrevistado por Mya Walmsley (ca, de, en, it, tr)[traduccion automatica]

Date Thu, 28 Apr 2022 08:25:31 +0300


O constante renascimento do anarquismo organizado na anglosfera levou a um reengajamento com as questões estratégicas fundamentais do anarquismo. De que maneira uma organização revolucionária deve ser estruturada? Como uma organização revolucionária deve lutar por reformas? Qual o papel da organização revolucionária no processo revolucionário? Ao lidar com essas questões, os insights contemporâneos mais novos, sem dúvida, vieram do movimento anarquista na América Latina, onde a tradição do anarquismo organizado de luta de classes estava crescendo e lutando com sucesso, enquanto na anglosfera estava definhando em um longo período de declínio.

Apesar de sua influência, muitas das ideias e da história que motivaram esse movimento são em grande parte inacessíveis a um público de língua inglesa. A introdução explosiva dessa tradição - chamada especifismo (especifismo) - na anglosfera foi uma ampla introdução aos principais inquilinos da tendência em 2006 por Adam Weaver seguida pela tradução completa da plataforma de conferências de 2008 da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (Federação Anarquista do Rio de Janeiro - FARJ), que sintetizava muitas das conclusões teóricas do movimento na região. Embora o especifismo não tenha sido adotado de forma unânime em toda a América Latina e os debates entre organizações sobre seu significado exato e implementação continuem,

Talvez o livro mais crucial traduzido depois disso tenha sido a tradução do Anarquismo na América Latina de Ángel Cappelletti em 2018, que não era apenas uma história fantástica do movimento na América Latina, mas também um texto fundamental para a ascensão do especifismo. Relevante para esta entrevista, porém, é que ao longo dos últimos anos a tradução de várias das principais intervenções de Felipe Correa por Enrique Guerrero-López tem trabalhado para esclarecer e construir sobre o trabalho apresentado em Social Anarchism and Organization. Como militante e teórico da Organização Anarquista Socialismo Libertário/Coordenação Anarquista Brasileira (OASL/CAB) em São Paulo, essas traduções oferecem uma visão do debate estratégico e do consenso emergente no anarquismo latino-americano. Ao fazê-lo, porém,

No espírito de esclarecer e difundir os debates do anarquismo latino-americano para a anglosfera, entrei em contato com Felipe Correa no início de 2022 e lhe fiz perguntas que vários camaradas haviam levantado durante grupos de leitura e discussões informais sobre a tendência - perguntas que não podiam ser facilmente respondidas pelos textos de que dispomos. Sua extensa resposta às minhas perguntas, desde a noção de poder, o papel das organizações e a relação entre o anarquismo e a política de classe, oferece uma visão valiosa e única dessa importante tendência.

Agradeço a paciência do camarada Felipe Correa em responder minhas perguntas e a ajuda de Enrique Guerrero-López em auxiliar na tradução do texto para o inglês.

Obrigado por concordar com esta entrevista Felipe! Eu aprecio o tempo que você está levando para se envolver com essas perguntas - espero que elas sejam interessantes e frutíferas. Para quem não conhece, você estaria disposto a fornecer um breve resumo de si mesmo, que tipo de trabalho militante você faz e a tendência do especifismo?

Olá Mya! Agradeço seu interesse. É um prazer para mim responder a esta entrevista. Sou Felipe Corrêa e há mais de duas décadas me envolvo com a militância anarquista e também com outras atividades relacionadas ao anarquismo, como pesquisa e edição.

No campo da militância, sou membro da Organização Anarquista Socialismo Libertário/Coordenação Anarquista Brasileira (OASL/CAB), em São Paulo. 1 Venho construindo o especifismo no Brasil há quase 20 anos. Em nível estadual e nacional, atualmente estou envolvido na militância sindical - faço parte de um dos sindicatos dos professores (SINPRO), sou professor universitário, vinculado principalmente à área de Ciências Sociais e atividades de pesquisa - bem como gestão de recursos e formação política.

O CAB faz parte de uma corrente anarquista chamada especifista - anarquismo especifista ou simplesmente especifismo-, que é uma expressão latino-americana do dualismo organizacional anarquista histórico, que existe desde Bakunin e a Aliança até o presente. Na América Latina, esse termo tem sido usado para se referir às concepções teóricas e práticas da Federação Anarquista Uruguaia (FAU) que, fundada em 1956, desempenhou um papel central nas lutas contra a ditadura militar nas décadas de 1960 e 1970. Por meio das estruturas organizacionais que a FAU construiu e/ou fortaleceu, tornou-se a segunda maior força da esquerda uruguaia nessas lutas. No nível sindical e de massas, era menor apenas que o Partido Comunista Uruguaio; no nível armado era menor apenas que os Tupamaros. No entanto, era a única força operando em ambos os campos. 2

Com o fim das ditaduras latino-americanas, o anarquismo especifista foi rearticulado. Primeiro no Uruguai, em meados da década de 1980, e depois em outros países. O Brasil foi importante nesse processo e teve suas primeiras experiências especifistas em meados da década de 1990. Foi desenvolvido em diferentes regiões brasileiras e, em 2002, articulado no Fórum do Anarquismo Organizado (FAO). Com a ampliação da presença e aumento dos vínculos organizacionais, foram criadas as condições para a fundação da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) em 2012, cujo objetivo é constituir uma organização política nacional, com núcleos em todo o país.

Em termos de linha política, o especifismo é uma corrente anarquista inspirada nas posições de Bakunin e Malatesta; aproxima-se das perspectivas do grupo Dielo Truda e de outros clássicos históricos do anarquismo.

É uma corrente que sustenta um conjunto de posições diante dos grandes debates estratégicos do anarquismo. Primeiro, em relação ao debate organizacional, os especifistas sustentam a necessidade de um dualismo organizacional, a partir do qual os anarquistas se articulam em uma organização política, como anarquistas, e em organizações sociais (sindicatos e movimentos sociais), como trabalhadores. Em segundo lugar, diante do debate sobre o papel das reformas, os especifistas consideram que, dependendo da forma como são buscadas e conquistadas, podem contribuir para um processo revolucionário. Terceiro, em relação ao debate sobre a violência, os especifistasconsideram que ela deve ser sempre realizada no contexto e concomitantemente à construção dos movimentos de massa. No plano social, dos movimentos de massa, o especifismo promove um programa que tem inúmeras afinidades com o sindicalismo revolucionário.

No campo da produção intelectual, coordenei o Institute for Anarchist Theory and History (IATH), projeto internacional que visa aprofundar e divulgar pesquisas sobre anarquismo. Tenho produzido pesquisas vinculadas ao IATH, principalmente no campo da teoria política anarquista; e pesquisas vinculadas à universidade. Também sou editora da Faísca Publicações Libertárias, uma editora anarquista com cerca de 40 livros publicados sobre propaganda militante e estudos acadêmicos. 3

Vou começar com uma pergunta muito abstrata. Em Anarquismo, Poder, Classe e Mudança Social 4 , você define o anarquismo como uma ideologia , distinguindo ideologia de teoria na medida em que a ideologia faz reivindicações políticas e produz intervenções estratégicas práticas enquanto a teoria faz reivindicações metodológicas que determinam sua compreensão da realidade. Por que essa distinção é tão importante, e que relação ela implica entre a teoria anarquista, a ideologia anarquista e a prática anarquista?

Para nós anarquistas que defendemos a necessidade organizacional de unidade teórica e ideológica, é importante ter uma resposta precisa sobre o que é o anarquismo. E, nessa discussão, o especifismo latino-americano remete, em grande medida, a um texto de 1972 da Federação Anarquista Uruguaia intitulado "Huerta Grande: A Importância da Teoria". É um texto que se baseia nas reflexões de Malatesta sobre a distinção entre os campos científico e ideológico-doutrinário. 5

De acordo com essa noção que aparece em "Huerta Grande" e em Malatesta, é preciso distinguir um campo da ciência e outro da ideologia-doutrina. A ciência subsidia a investigação do passado, do presente e, no máximo, indica o que provavelmente acontecerá no futuro. A ideologia-doutrina oferece elementos avaliativos para a realidade a ser julgada e, principalmente, para o estabelecimento de objetivos e linhas de ação.

Essa distinção é muito importante por dois motivos. Por um lado, busca evitar que a interpretação da realidade (campo científico) seja distorcida por elementos doutrinários-ideológicos - ou, como às vezes dizemos, que substitua o que foi e o que é pelo que gostaríamos que fosse ou ser. Uma estratégia consistente para o anarquismo deve partir de uma leitura precisa (teórica e cientificamente rigorosa) da realidade. Por outro lado, pretende impedir uma perspectiva de futuro que desista da transformação em nome do pragmatismo reformista ou mesmo conservador. Uma estratégia consistente para o anarquismo precisa conter elementos que poderíamos chamar de utópicos ou finalistas e buscar realizá-los por meios revolucionários. Acredito que essa posição foi bem resumida no slogan propagado pelo anarquista japonês Osugi Sakae,6

Essa posição também destaca, dentro desses elementos, quais são os mais e os menos flexíveis. O campo científico tem que ser mais flexível (aberto) do que o campo doutrinário-ideológico. Precisamos aproveitar os desenvolvimentos no campo científico para melhorar nossa compreensão da realidade social. Isso não implica e não pode implicar a defesa de um pluralismo teórico inconsistente ou de um vale-tudo sem sentido. É apenas uma abertura que garante que não estamos presos a métodos, teorias e estudos equivocados, imprecisos ou ultrapassados, simplesmente por serem anarquistas.

Comparativamente, o campo ideológico-doutrinário é muito menos flexível, principalmente quando falamos de princípios anarquistas. Não somos abertos e flexíveis ("antidogmáticos") sobre nossos princípios. Aqueles que tratam os princípios dessa maneira caem em um pragmatismo incapaz de mudança ou transformação social. Em relação à estratégia, podemos dizer que a estratégia geral é mais fixa, seguida pela estratégia com restrição de tempo, que é um pouco menos fixa e mais flexível e, por fim, pela tática, mais flexível.

Essa posição não pode ser confundida com um certo positivismo, que preconiza - e acredita ser possível - certa neutralidade na análise da realidade. Reconhece que tal neutralidade é impossível, mas que, ao fazer ciência, os anarquistas devem estar atentos para não serem traídos por suas posições ideológico-doutrinárias. Algo que é muito comum no campo da esquerda em geral, incluindo o marxismo e o anarquismo.

A relação que isso implica entre teoria, ideologia e prática é a seguinte. Podemos dizer que, ao operar com esses pressupostos da FAU e Malatesta, os anarquistas defendem: a necessidade de uma perspectiva teórica (científica) precisa para analisar a realidade e saber, precisamente, "onde estamos"; a necessidade de uma perspectiva ideológica (anarquista) para sustentar nossos juízos sobre essa realidade, para estabelecer os objetivos finalistas e as linhas de ação possíveis e desejáveis para o período em questão - ou seja, o anarquismo, desde sua crítica à dominação, defesa de gestão e visão estratégica, propõe, em linhas gerais, "para onde pretendemos chegar" e "como"; o que nos leva a uma terceira necessidade, de uma prática política estratégica que possa nos levar de onde estamos para onde queremos ir - uma prática que se baseia em uma estratégia geral,

Em suma, a teoria anarquista subsidia a leitura da realidade, a ideologia anarquista subsidia o julgamento dessa realidade, o estabelecimento de objetivos estratégicos e uma linha de ação estratégica, e a prática anarquista realiza concretamente ações no sentido de transformar social e revolucionária essa realidade.

O que me parece singular em sua escrita (e geralmente na tradição anarquista na América Latina) como militante da anglosfera é que ela se concentra no conceito de 'poder'. Em Anarchism, Power, Class and Social Change você observa que os anarquistas clássicos tendiam a misturar de forma imprecisa poder, dominação e autoridade como o mesmo conceito. Essa imprecisão teórica tornou difícil ver que tipo de poder os anarquistas deveriam se opor (dominação) e que poder eles deveriam construir (popular). Por que você acha que o conceito de poder é tão central para o anarquismo, e que implicações uma compreensão correta do poder tem em nossas práticas e doutrinas políticas?

Nós realmente entramos na discussão sobre o conceito de poder com bastante profundidade. Destacamos que é importante para os anarquistas não apenas em termos de crítica, mas também de forma construtiva e proposital.

Antes de mais nada, é importante ressaltar que, como todos os grandes conceitos, o poder é um conceito polissêmico (tem muitos significados) e pode ser definido de diferentes maneiras. Historicamente, e nas diferentes correntes de pensamento, é possível dizer - como observou Tomás Ibáñez - que o poder foi definido de três maneiras diferentes: 1.) Como capacidade (possibilidade de fazer algo), por exemplo, quando dizemos que temos o poder de fazer isto ou aquilo; 2.) Como estruturas e mecanismos de regulação e controle (coisa concreta), por exemplo, quando dizemos que alguém ou algum grupo tomou o poder; 3.) Como assimetria nas relações de força(relação temporária de imposição), por exemplo, quando dizemos que uma classe - em um determinado momento, e por um determinado tempo - estabeleceu uma relação de poder (impôs-se) em relação a outra. 7

Quando falamos de anarquistas clássicos, eles também dialogam com essas abordagens, como argumentei em "Anarquismo, Poder, Classe e Mudança Social". E, não raro, tratam as relações de dominação por meio de termos como dominação, poder e autoridade. Quando tomamos o caso dos anarquistas clássicos, na maioria das vezes eles usam esses termos (dominação, poder, autoridade), eles têm em mente o que chamamos, em nossa corrente anarquista, de relações de dominação .

Alguns comentários são necessários sobre essas declarações. Primeiro, apesar dessa abordagem majoritária, até certo ponto todos os anarquistas clássicos oferecem elementos para o estabelecimento de uma teoria anarquista do poder. É verdade que não foi algo que eles priorizaram durante a vida, mas não há dúvida de que em seus escritos há muitos elementos sobre esse tema. Segundo, quando faço essas afirmações sobre os "anarquistas clássicos", não estou considerando Proudhon entre eles - que, para mim e outros pesquisadores, é mais uma espécie de pai do anarquismo do que um anarquista em si, pois consideramos que o anarquismo surgiu apenas dentro da Primeira Internacional, na segunda metade da década de 1860. 8Entre os clássicos libertários do socialismo, Proudhon se destaca com grandes contribuições nessa discussão sobre o poder. Terceiro, tanto Proudhon quanto os anarquistas clássicos, embora na maioria dos casos tratem dominação, poder e autoridade de forma equivalente, também abrem possibilidades para outras abordagens.

Proudhon reivindica um "poder social" como a força coletiva dos trabalhadores. ( De la Justice dans la Révolution e dans l'Église ) Bakunin enfatiza que não rejeita todas as formas de autoridade ( God and the State) e ainda reivindica o poder dos "aliados", membros da Aliança, em relação aos trabalhadores ("Carta a A. Richard"). Malatesta fala de um "poder efetivo de todos os trabalhadores" ("La Dittatura del Proletariato e l'Anarchia"). Berneri defende o "uso do poder político pelo proletariado" ("La Dittatura del Proletariato e il Socialismo di Stato"). Muitas outras referências poderiam ser mencionadas. O que quero mostrar com isso não é que essas figuras tenham reivindicado permanentemente o termo poder para se referir às suas estratégias propositivas e construtivas, mas que, mesmo em suas obras, há momentos em que essas referências aparecem.

O que defendo em "Anarquismo, Poder, Classe e Mudança Social" é que, se nos desvincularmos do termo e nos aprofundarmos no conteúdo dessa discussão, veremos que, em geral, todos os anarquistas identificam nos trabalhadores uma certa capacidade de realização; esses anarquistas normalmente discutem e colocam em prática ações para transformar essa capacidade em uma força social capaz de intervir na realidade social e, por fim, pretendem contribuir para que os trabalhadores se imponham, prevalecendo contra a burguesia, a burocracia, seus inimigos de classe em geral , através de uma revolução social que conduza a um socialismo sustentado por estruturas autogestionárias e federalistas e mecanismos de regulação e controle .

Como detalharei um pouco mais adiante nesta entrevista, esses elementos - capacidade de realização, força social, relações de imposição/preponderância e estruturas e mecanismos de regulação e controle - estão no cerne da teoria do poder que os especifistas defenderam e que desenvolvi particularmente em termos teóricos.

Acredito que, dependendo de como é definido, o conceito de poder pode desempenhar um papel muito importante no anarquismo. Primeiro, para a explicação do que é o próprio anarquismo. Por exemplo, uso o conceito de poder como base da minha explicação do anarquismo no meu livro Bandeira Negra: rediscutindo o anarquismo , que nada mais é do que um renovado "O que é o anarquismo", que pretende resolver os problemas de estudos anteriores que abordaram este tema.

Quando defino anarquismo neste livro, enfatizo, entre outras coisas, que "o anarquismo[...]visa transformar a capacidade de realização das classes dominadas em uma força social e, através do conflito social caracterizado pela luta de classes, substituir poder que surge como vetor resultante das relações sociais por um poder autogestionário, consolidado nas três esferas estruturadas da sociedade". Então o projeto anarquista é considerado por mim um "projeto de poder". 9

Em segundo lugar, o conceito de poder pode apoiar as análises da realidade desenvolvidas pelos anarquistas. Por meio dela (e de uma consistente teoria do poder) é possível compreender, na história ou hoje (em termos conjunturais), quais são as forças em jogo em determinado contexto, quais delas se impõem/preponderam em relação a outras, quais são as relações de poder que se estabelecem nesses contextos e quais são as formas que tais relações assumem (dominação, autogestão, com maior ou menor participação).

Terceiro, e talvez esta seja a principal razão, para os anarquistas serem claros sobre seu projeto político e para onde/como pretendem ir. A meu ver, constantemente presenciamos anarquistas que não entendem quais ações podem/devem tomar para impulsionar seu projeto. Não conseguem avaliar concretamente a realidade ou elaborar um programa estratégico adequado.

O mais grave, porém, ocorre quando os anarquistas não entendem que não lhes basta existir no mundo, ou realizar suas ações sem alcançar certas acumulações e conquistas. Também não basta, nos casos em que tais acumulações e conquistas são alcançadas, não saber para onde/como querem ir. Deixe-me explicar. Ou os anarquistas pensam em maneiras de maximizar sua força social e, mais importante, a força social dos trabalhadores, para que isso possa apontar para uma transformação revolucionária, autogestionária/federalista, ou eles não têm razão de existir. E mais. Ou os anarquistas entendem que, em várias ocasiões, terão que se impor aos outros, prevalecer sobre os outros, ou também não conseguirão realizar seu projeto.

Muitos exemplos poderiam ser citados. Mas vou me concentrar em um deles quando, no contexto da Revolução Espanhola, vários membros influentes da Confederación Nacional del Trabajo (CNT) - uma organização anarco-sindicalista que representava, na época, cerca de um milhão e meio de trabalhadores - entendiam que estabelecer um poder popular e autogestionário em regiões onde a força social dos anarquistas/anarco-sindicalistas era majoritariamente seria o estabelecimento de uma "ditadura anarquista".

Leitura conceitualmente equivocada e que, a meu ver, mostra a falta de noção de que o projeto anarquista é realmente um projeto de poder. Um projeto contra a dominação e a exploração, baseado na autogestão e no federalismo, é verdade, mas ainda um projeto de poder. Com medo de impor e dominar frentes contra as forças inimigas e opostas, a CNT preferiu integrar o projeto colaboracionista com o governo republicano...

Essa relação, que considero não resolvida, entre os anarquistas e a questão do poder, causa problemas desse tipo. Não apenas em situações revolucionárias e insurrecionais, mas também em circunstâncias cotidianas, como em movimentos e lutas sindicais, sociais, estudantis, comunitárias etc.

Em resumo, a adoção desse entendimento de poder que apoio aqui tem múltiplas implicações. Permite uma compreensão mais adequada do anarquismo, um fortalecimento das análises da realidade e, principalmente, do projeto político anarquista. Em particular, essa compreensão do poder subsidia os anarquistas a expandirem sua intervenção na realidade e se tornarem cada vez mais influentes.

Para muitos anarquistas ocidentais, o foco conceitual no poder tende a ser associado aos escritos de Michel Foucault. Para alguns esta associação é positiva, mas muitos na tendência anarquista de massa associam-na ao abandono da luta de classes. Que impacto, se houver, Foucault teve nos debates latino-americanos? As pessoas o lêem e, se sim, o que elas tiram dele?

É verdade que "para muitos anarquistas ocidentais, o foco conceitual no poder tende a ser associado aos escritos de Michel Foucault". Mas isso, a meu ver, diz mais sobre os "anarquistas ocidentais" do que o debate sobre o poder no anarquismo.

Foucault é, sem dúvida, um dos grandes pensadores do século XX e amplamente estudado nas universidades. Minha impressão - e essa tem sido uma das minhas grandes críticas ao universo anarquista em geral - é que muitos anarquistas, talvez por conveniência intelectual, ou mesmo para seguir modas acadêmicas, acabam se apropriando de autores de outras tradições, de outras correntes político-ideológicas , em vez de buscar contribuições que existem em nosso próprio campo. O pior é que essa apropriação é feita, na maioria das vezes, de forma acrítica, e não para complementar as contribuições anarquistas, mas para substituí-las.

O que considero, em várias partes do mundo, uma moda em torno de Foucault entre os anarquistas reflete, para mim, certo "anarquismo sem anarquistas", que infelizmente encontramos em muitos lugares no momento. Existem agora numerosos "estudos anarquistas" não relacionados ao anarquismo e anarquistas históricos.

O que quero dizer é que, entre anarquistas - e sindicalistas e socialistas libertários/antiautoritários de forma mais ampla - há inúmeras contribuições para essa discussão de poder e muitas outras. Mas estudá-los significa, na maioria das vezes, "quebrar pedras": os textos não são muito fáceis de encontrar, muitos deles não são traduzidos, praticamente não há comentaristas, não há manuais, ninguém os estuda na universidade... ou seja, temos que reconhecer que não é fácil estudar Bakunin, Malatesta, Kropotkin, Proudhon, etc.

Considero mais do que necessário nos dedicarmos aos estudos de nossa tradição expandida (anarquista, sindicalista, libertária/socialista antiautoritária) e produzir, elaborar, oferecer a eles nossas contribuições críticas. No momento estou trabalhando em um livro que reconstrói as contribuições teóricas de Malatesta sobre as relações de poder. Não há dúvida de que, embora essas contribuições sejam incríveis, é extremamente difícil recuperá-las, reconstruí-las, complementá-las.

Volto a Foucault. Sim, nossa tradição de anarquismo especifista teve alguma influência de Foucault (no Uruguai e em algumas regiões do Brasil, especialmente no sul), que foi e é um autor lido pela militância. Vale ressaltar que não só ele, entre os não-anarquistas. Conheço bem a discussão de poder de Foucalt; Eu ensinei e escrevi sobre este tema. Acontece que, como você muito bem aponta, Foucault tem suas complicações e ambiguidades.

O que posso dizer, como conhecedor dessa discussão do poder em Foucault, é que o que nós especifistas fizemos, mais do que uma leitura acadêmica rigorosa desse autor, foi propor uma apropriação crítica de alguns de seus conceitos teóricos e perspectivas, e adaptá-los ao quadro geral de referência do nosso anarquismo - de modo que elementos como classes sociais e classismo permanecessem presentes. Na minha opinião, essa leitura especifista de Foucault foi feita pela esquerda, muito pela esquerda.

De qualquer forma, entendo que existe um certo risco em procedimentos desse tipo. Pois, apesar da distinção que fazemos entre teoria e ideologia, e apesar de termos uma postura mais flexível e aberta em relação à primeira do que à segunda, é inegável que as contribuições teóricas têm elementos ideológicos e, às vezes, sem perceber, porque bebemos em certo material teórico, podemos acabar incorporando certos elementos ideologicamente complicados para o anarquismo.

Tenho visto isso acontecer no campo anarquista em diferentes épocas e regiões, tanto com a incorporação da teoria marxista - que depois acabou se convertendo em elementos ideológicos "marxizantes" - quanto com a incorporação da teoria pós-moderna - que, da mesma forma, gerou perspectivas ideológicas muito complicadas e distantes do anarquismo.

Quando digo que Foucault tem complicações e ambiguidades, refiro-me a alguns pontos em particular. Ele nunca foi um pensador anarquista, nem teve grandes preocupações programáticas e estratégicas. Se suas ideias podem ser interpretadas dessa forma, mais à esquerda, como fazem os especifistas , também podem ser tomadas de uma perspectiva bastante liberal e até de total resignação - neste último caso, apontando para leituras como: se há poder em todas as relações, então não há muito o que fazer, pois somos todos oprimidos e opressores ao mesmo tempo. Existem riscos realmente importantes nesse sentido.

Deve-se notar que, estudando em profundidade vários anarquistas clássicos, sindicalistas e socialistas libertários/antiautoritários, posso dizer que tudo o que nossa corrente utilizou de Foucault está presente em "nossos" autores. Não há nada que tenhamos apropriado de Foucault que não esteja, por exemplo, em Malatesta e/ou Proudhon.

Acredito que devemos evitar a todo custo esse procedimento (infelizmente muito presente no anarquismo) de pegar e incorporar acriticamente tudo o que parece interessante, que está na moda (acadêmico ou militante), que estudamos na universidade ou discutimos nos movimentos . Historicamente o anarquismo tem certas linhas (e cada corrente anarquista tem linhas mais específicas dentro do anarquismo). Portanto, é importante ter em mente que as contribuições devem complementar essas linhas e não descartá-las, colocá-las em xeque ou distorcê-las.

Outro termo que parece ganhar bastante destaque no especifismo tendência é a 'força social'. A força social é a força 'realizada' de uma classe dominada, quando ela é organizada e canalizada usando os meios corretos para objetivos que são de seu interesse. O conceito de força social, portanto, valoriza a organização - tanto prática quanto ideológica - da classe dominada, pois maior organização equivale a maior capacidade de transformação social. Você seria capaz de expandir um pouco mais sobre como essa 'força social' se torna realidade? E mais, e isso talvez seja um problema de tradução, que diferença há entre poder e força social? Da minha leitura de suas obras traduzidas, parece haver algumas camadas distintas de força social que estão implícitas, mas não descritas explicitamente. Em primeiro lugar, partindo de Proudhon, há uma espécie de força potencial que os trabalhadores obtêm trabalhando cooperativamente. Além disso, há um tipo de força obtida trabalhando cooperativamente em um sentido ideológico político: trabalhando coletivamente em direção a um objetivo e programa comum. Finalmente, há força social no sentido de que você discute principalmente, no nível de classe, onde as classes dominadas em virtude de sua posição de classe podem construir o poder popular. Eu queria saber se você poderia falar sobre a relação entre essas camadas (independentemente de você concordar com minha expansão do termo)? Para reformular esta questão de forma mais prática: qual o papel da organização anarquista na organização do poder das classes dominadas? no nível de classe, onde as classes dominadas, em virtude de sua posição de classe, podem construir o poder popular. Eu queria saber se você poderia falar sobre a relação entre essas camadas (independentemente de você concordar com minha expansão do termo)? Para reformular esta questão de forma mais prática: qual o papel da organização anarquista na organização do poder das classes dominadas? no nível de classe, onde as classes dominadas, em virtude de sua posição de classe, podem construir o poder popular. Eu queria saber se você poderia falar sobre a relação entre essas camadas (independentemente de você concordar com minha expansão do termo)? Para reformular esta questão de forma mais prática: qual o papel da organização anarquista na organização do poder das classes dominadas?

Há muitos elementos nessa questão que acho importante detalhar e organizar. Gradualmente, escrevi outros materiais sobre esse tema do poder, que cobrem tudo o que você pede. Vou tentar sistematizar de forma mais didática para facilitar o entendimento. E tudo o que digo a seguir faz referência a autores clássicos (Bakunin, Malatesta, Proudhon, principalmente) e contemporâneos (Alfredo Errandonea, Tomás Ibáñez, Fábio López, Bruno L. Rocha), incluindo as organizações anarquistas especifistas e minha própria produção. 10

Antes de mais nada, é importante lembrar, como disse antes, que o poder tem sido historicamente definido de três maneiras: 1.) Como capacidade; 2.) Como estruturas e mecanismos de regulação e controle; 3.) Como assimetria nas relações de força. Esses três elementos são importantes e estão presentes na teoria do poder que venho desenvolvendo. Não necessariamente como parte do próprio conceito de poder, mas relacionado a ele.

Tomemos como ponto de partida uma definição de poder que considero adequada: poder é uma relação social concreta e dinâmica entre diferentes forças assimétricas, em que há uma preponderância de uma(s) força(s) em relação a outra(s) . Existem alguns aspectos importantes nessa definição.

Em primeiro lugar, quando afirmo o poder como uma relação social, estou dizendo que poder significa uma relação de poder, e que envolve pelo menos duas partes (pessoas, grupos, classes etc.). Em segundo lugar, quando falo de uma relação concreta e dinâmica, estou excluindo aquela noção de poder como capacidade, que se situa no campo das possibilidades, de algo que pode ou não se materializar; Refiro-me, mais especificamente, a uma relação que realmente ocorre. Essa relação nunca é permanente - está sempre localizada em um contexto (tempo-espaço) e é temporária; ninguém tem o poder eternamente, mas apenas por um certo tempo. Portanto, as relações de poder estão em constante mudança e podem ser transformadas a qualquer momento.

Terceiro, quando falo da relação entre diferentes forças assimétricas, é necessário definir precisamente esse conceito acessório ou subconceito: força social. A força social pode ser definida como a energia aplicada pelos agentes em conflitos sociais para atingir determinados objetivos. Tal força pode ser individual, grupal ou de classe e significa a materialização da capacidade de realização. Aqui temos o primeiro aspecto que organiza essas três formas históricas de conceituar o poder; Faço uma distinção entre capacidade de realização e força social.

A capacidade de realização é essa possibilidade de fazer algo no futuro, esse possível vir a ser que pode ou não se concretizar. Referimo-nos à capacidade de realização quando, por exemplo, dizemos que os trabalhadores têm o poder de transformar o mundo. De acordo com os conceitos que adotei, essa frase seria melhor formulada da seguinte forma: os trabalhadores têm a capacidade (possibilidade) de transformar o mundo. Isso porque, mesmo com essa capacidade, podem ou não transformar o mundo; não é algo concreto, o que realmente acontece.

A capacidade de realização torna-se uma força social quando sai do campo de possibilidade de realização de algo no futuro, que pode ou não ocorrer, e é efetivamente posta em prática, passa a fazer parte do jogo de forças que constitui uma realidade social. realidade. Voltemos ao nosso exemplo: os trabalhadores têm a capacidade de transformar o mundo. Mas todos podem estar vivendo suas vidas cotidianas, indo trabalhar, cuidando da família, vivendo uma vida que não tem impacto nos rumos do desenvolvimento da sociedade capitalista. Nesse caso, eles continuam apenas com essa capacidade potencial.

Agora, quando começam a aplicar suas energias nos conflitos sociais para determinados objetivos, esses trabalhadores constituem uma força social. Por exemplo, quando eles começam a se organizar, quando fazem brigas, reivindicações, etc. Veja que aqui essa capacidade se transformou em força social. Essa força pode ser bem minoritária - e, portanto, incapaz de mudar o rumo da realidade; mas pode ser médio ou mesmo grande e, dessa forma, levar a mudanças e transformações.

No gráfico: Força social
Capacidade de realização -> Força social
Quando falo de força social, é importante ter em mente duas questões. A primeira é que todos nascemos com a força física de nossos próprios corpos, que pode ser mobilizada em certos conflitos. Por exemplo, a força física de um homem pode ser usada para se impor a uma mulher em um determinado conflito. A segunda é que uma força social pode ser individual ou coletiva e, no segundo caso, devemos sempre considerar que a força coletiva é maior que a soma das forças individuais. Por exemplo, a força coletiva de 100 trabalhadores protestando em frente a uma prefeitura por uma hora é muito maior do que se esses trabalhadores ficassem ali, cada um, individualmente, por uma hora, um após o outro. Mesmo que o número de horas de protesto por pessoa seja o mesmo,

Além disso, devemos ter em mente que existem inúmeras maneiras de amplificar a força social. Vejamos alguns deles que são bem conhecidos.

As pessoas podem: 1.) Aumentar sua força física e aprimorar as técnicas de uso dessa força , com exercícios e artes marciais. Em um conflito entre ultras, por exemplo, a força física pode ser um fator determinante. Ou mesmo no caso de combates militares que exigem capacidades e esforços corporais. 2.) Reunir e mobilizar pessoas com um propósito comum . Para uma petição, uma eleição ou uma passeata, por exemplo, o número de pessoas reunidas e mobilizadas é um elemento fundamental. 3.) Possuir dinheiro, propriedades, máquinas e recursos naturais. É disso que se trata, por exemplo, quando vemos que é muito mais fácil os ricos se imporem aos pobres do que o contrário; que um país com grande quantidade de petróleo tem maior peso nas relações geopolíticas internacionais do que um país sem petróleo; que, na competição capitalista, os grandes tendem a subjugar os pequenos.

4.) Conquistar cargos de comando e decisão , pois as pessoas que os ocupam têm muito mais chances de se impor sobre aqueles que não os ocupam. Quando dizemos, por exemplo, que não há livre negociação de salários entre patrão e trabalhador, é justamente por isso. Por ocuparem um cargo de comando e decisão ou mesmo por serem donos da empresa, gerentes e proprietários quase sempre terão uma força social muito maior do que a do trabalhador nos conflitos trabalhistas. Isso explica por que, em um movimento popular burocratizado, os cargos de comando e decisão são fortemente disputados por entidades e partidos políticos.

5.) Desenvolver a capacidade de influência e persuasão , quando há pessoas que, por meio de argumentos ou carisma, em conversas, discursos, etc., convencem e trazem outras pessoas para o seu lado. 6.) Possuir armas e tecnologias de guerra , elementos fundamentais para, por exemplo, determinar os resultados de uma guerra. 7.) Ter informação e conhecimento , que permite não só ter um melhor impacto nos conflitos, mas também conhecer antecipadamente os passos dos adversários e inimigos. Muitas outras formas de aumentar a força social poderiam ser mencionadas.

Deve-se notar que, em cada caso, há um conjunto de "regras" sobre formas possíveis e legítimas de investir no aumento da força social. Vamos ver. Para conflitos físicos entre ultras, frequentar uma academia e praticar uma arte marcial é muito mais aceitável ("normal") do que para disputas trabalhistas sobre negociação salarial em uma empresa. Para conflitos competitivos entre empresas, possuir propriedade e dinheiro - investir para ter cada vez mais, e fazer disso um mecanismo para se impor - é muito mais aceitável/normal do que em conflitos sociais defendidos por movimentos populares e organizações socialistas revolucionárias.

Quero dizer que cada forma de conflito tem um certo conjunto de regras sobre o que é mais aceitável, normal, usual para investir no aumento da força social. O que não significa que outros caminhos não possam ser adotados. Por exemplo, as armas em geral não fazem parte da normalidade de uma eleição sindical, mas no Brasil sabemos que, dependendo do sindicato, isso é uma realidade.

Outro aspecto importante dessa discussão é que as relações entre as forças sociais ocorrem sempre em um determinado cenário - uma determinada estrutura ou ordem com regulações, controles, normas, instituições. Esse cenário também é formado por relações de forças, mas que são mais duradouras, que perduram no tempo-espaço e que se institucionalizam, fazendo com que o próprio cenário tenha suas regras e, por isso mesmo, exerça força no jogo. As forças sociais que trabalham a favor da estrutura/ordem são muito mais fáceis (são maximizadas) do que as forças que se opõem a ela (são minimizadas).

Isso explica por que, em termos sociais, continuar algo que já está acontecendo costuma ser mais fácil do que mudá-lo; movimentos de afirmação de ordem geralmente têm mais facilidades do que movimentos de desafio de ordem. Imaginemos, por exemplo, dois movimentos com a mesma quantidade de pessoas e recursos: um em defesa do capitalismo e outro anticapitalista. O que estou defendendo é que, em uma circunstância como essa, mesmo com os mesmos recursos/pessoas, o movimento capitalista terá mais facilidade, pois estará jogando em um cenário, em uma estrutura capitalista, aproveitando a inércia que tais relacionamentos têm.

Como se vê, essa noção de força social é útil para pensar diferentes questões, especialmente os conflitos entre certas forças nos níveis micro, meso e macrossocial. Esta mencionada dinâmica de correlação de forças assimétricas pode ser usada para entender as relações entre pessoas, gangues, empresas, países, partidos, meios de comunicação, classes, etc.

Podemos conceber a realidade social como resultado de um confronto entre diferentes forças sociais, que, na maioria das vezes, não se limitam a duas (força A vs. força B). Muitas vezes são múltiplas as forças, que afetam a realidade de forma diferente, que têm proximidade e distância com os outros, que se aliam, cooperam entre si.

Chego aqui ao conceito mais específico de poder, mencionado anteriormente. Poder que ocorre exatamente quando uma ou algumas forças prevalecem (se sobrepõem, se impõem) sobre a(s) outra(s). E aqui fica evidente a diferença entre força social e poder. Constituir uma força social significa intervir/afetar a realidade, protagonizando os conflitos; ter poder significa fazer da própria força social uma força que prevalece sobre as outras, que se sobrepõe, que se impõe.

Podemos dizer, nesse sentido, por exemplo, que desde seu ressurgimento a partir da década de 1990, anarquistas e sindicalistas, em termos globais, têm constituído uma força social. Porque, em diferentes países, elas impactam a realidade, seja nas lutas e protestos em geral, seja nos movimentos sindicais, comunitários, estudantis, agrários, ou mesmo no campo das ideias de forma mais geral.

Isso não significa que o anarquismo, o anarco-sindicalismo e o sindicalismo revolucionário tenham poder. Atualmente, constituem uma força social minoritária dentro da esquerda em geral, e quase insignificante quando pensamos nas forças sociais que disputam os rumos globais da sociedade. 11

Quando defendemos a necessidade de um anarquismo que busca o poder, isso necessariamente implica conceber e colocar em prática formas de maximizar a força do anarquismo e, principalmente, das classes populares, para que se tornem agentes poderosos não só da esquerda, mas da cenários locais, regionais, nacionais e até internacionais.

No gráfico: Poder
Capacidade de realização -> Força social -> Poder
O poder está presente em todos os campos e níveis da sociedade. Fornece a base para regulamentações, controles, conteúdo, normas, etc. Assim, tem uma relação direta com a tomada de decisões.

No gráfico: Poder
Capacidade de realização -> Força social -> Poder -> Regulação e controle
Temos, até agora, certos aspectos teóricos capazes de subsidiar análises da realidade, seja passada ou presente. Esses aspectos teóricos nos permitem elaborar reflexões históricas e análises da conjuntura, por meio de respostas a um conjunto preciso de questões. Em um determinado cenário (momento/território): Quais são as forças sociais em jogo? Como elas afetam o campo social? Qual(is) prevalece(m)? Quais são os resultados dessa relação? Mapear as forças em jogo, seu impacto na realidade, as preponderâncias e os resultados desse confronto é essencial para compreender um determinado cenário da sociedade.

Tanto as relações de poder quanto as regulações e controles que ocorrem na sociedade podem ou não implicar em dominação. Isso significa que, como eu e outros especifistas sustentamos, poder e dominação não são sinônimos; nem regulação/controle e dominação. Em outras palavras, uma relação de poder pode ser uma relação de dominação, mas também não pode ser. Um conjunto de mecanismos regulatórios e de controle pode ser dominante, mas também pode não ser.

O que torna essa afirmação possível é outro conceito acessório ou subconceito: participação . Em linhas gerais, participação é a ação de participar ou contribuir para decisões coletivas; refere-se a todo o processo discutido na constituição das forças sociais, confrontos/disputas e estabelecimento de relações de poder. As relações de poder e os mecanismos de regulação e controle podem ser analisados e concebidos em função da maior ou menor participação que envolvem.

Para que o poder, a regulação e o controle possam ser dominantes (e, portanto, ter menos participação) ou autogeridos (e, portanto, ter maior participação). O poder pode, assim, ser concebido como uma relação que oscila entre esses dois extremos: dominação e autogestão.

A dominação é uma relação social hierárquica, na qual um ou alguns decidem o que interessa a todos; explica as desigualdades, envolve relações de exploração, coerção, alienação, etc. A dominação explica as classes sociais, embora existam outras formas de dominação além da dominação de classe. A autogestão é a antítese da dominação; é uma relação social não hierárquica (igualitária), na qual as pessoas participam do planejamento e das decisões que as afetam, pessoal e coletivamente. A autogestão fundamenta o projeto de uma sociedade sem classes e outras formas de dominação.

Algumas noções derivam disso. Primeiro, essa dominação é uma forma de poder, assim como a autogestão. Podemos dizer que, historicamente, a grande maioria das relações de poder que se estabeleceram no nível macrossocial foram relações de dominação (poder dominante, portanto). Mas também é possível afirmar que, paralelamente, inúmeras outras relações de poder, nos níveis meso e macrossocial, foram relações de autogestão (poder autogestionado, portanto). Isso notamos tanto em movimentos e lutas, como em certos momentos de experiências insurrecionais e revolucionárias.

Quando os especifistas afirmam que é preciso "construir o poder popular", o que se defende nada mais é do que a construção de uma força social popular capaz de promover uma revolução social e, com isso, estabelecer uma relação de poder contra as classes dominantes e grandes agentes de dominação em geral. Obviamente, não se trata da construção de qualquer poder, mas de um poder autogestionário, que implica o combate direto das relações de dominação, e que aponta para uma sociedade sem classes e outras formas de dominação. Portanto, nossa concepção de poder popular é uma concepção de poder autogerido.

O papel da organização anarquista vai exatamente nessa direção. Seu objetivo é, em primeiro lugar, contribuir para transformar a capacidade de realização dos trabalhadores em força social. Em segundo lugar, colaborar para o aumento permanente desta força social dos trabalhadores. Em terceiro lugar, reforçar as posições de esquerda, socialistas, revolucionárias e libertárias/antiautoritárias contra as posições de direita, capitalistas, reformistas e autoritárias presentes entre os trabalhadores e seus movimentos. Em quarto lugar, estimular a construção de relações de poder autogestionárias, que apontem para um processo revolucionário de transformação social, estabelecendo instituições reguladoras e de controle igualitárias e libertárias, e permitindo a expansão desse projeto em termos regionais, nacionais e internacionais.

Em uma nota mais prática, a definição de poder e dominação dentro do especifismo tem sido utilizado para compreender teoricamente a estratégia de construção de uma 'frente de classes oprimidas'. Alguns de nossos camaradas temem que esta estratégia leve a um abandono do papel de liderança da classe trabalhadora e sua relação única com a produção durante a revolução socialista. Também estamos preocupados que possa prestar-se a uma análise 'voluntarista' da transformação socialista. Ou seja, parece priorizar a relação de dominação sobre a relação com os meios de produção na compreensão do papel que uma classe desempenhará na revolução social e, portanto, potencialmente uma priorização da conscientização sobre o confronto político sobre a produção. Eu esperava que você pudesse responder a essas preocupações - eles são entendimentos precisos de sua posição?

Quero começar enfatizando que o conceito de classes sociais com que operamos, em geral, é muito próximo ao sustentado por diferentes anarquistas clássicos, como Bakunin e Malatesta. O problema aqui, mais uma vez, me parece ser a referida importação de elementos teóricos (no caso, do marxismo) para o anarquismo, algo que nos impede de conhecer e desfrutar de nossas próprias contribuições.

Esses e outros anarquistas têm reflexões importantes para essa discussão sobre as classes sociais. Em primeiro lugar, para Bakunin, Malatesta e outros, classe social nunca foi um conceito exclusivamente econômico. Sem dúvida, as classes compreendem (não raramente, principalmente) elementos de uma ordem econômica, como a propriedade dos meios de produção e distribuição, e os conseqüentes privilégios econômicos. Pode-se dizer que há, nesse sentido, um poder econômico.

Mas as classes também abrangem outros elementos de uma ordem política, como a propriedade dos meios de administração e coerção, e os consequentes privilégios políticos. Pode-se dizer que há, nesse sentido, um poder político. Por fim, as aulas ainda englobam elementos intelectuais/morais, como a propriedade dos meios de comunicação e instrução, e os consequentes privilégios intelectuais. Pode-se dizer que há, nesse sentido, um poder intelectual.

No sistema capitalista-estatista - e, portanto, na sociedade contemporânea - é possível afirmar que há um conjunto de classes dominantes e um conjunto de classes oprimidas. Economicamente, podemos falar de proprietários (burgueses e latifundiários), que subjugam os proletários (no sentido mais estrito, os trabalhadores assalariados) e os camponeses. Politicamente, podemos falar de uma burocracia (governadores, juízes, polícia), que submete um grande contingente de governados. Intelectualmente, podemos falar de autoridades religiosas, comunicacionais e educacionais, que submetem aqueles que têm pouco ou nenhum impacto na produção de ideias em uma sociedade em geral.

Portanto, em nossa sociedade, quando falamos de classes sociais, podemos identificar esses três grandes conflitos sociais: proprietários versus proletários e camponeses (econômicos); burocratas versus governados (políticos); autoridades religiosas/de comunicação/educação X pessoas com pouca ou nenhuma influência na produção de ideias macrossociais (intelectuais).

É importante notar que esses conflitos são sempre articulados em termos sistêmicos. Assim, essa distinção entre os três campos ou esferas (econômico, político e intelectual) e os três conflitos supracitados relacionados a eles é apenas analítica. Pois, na realidade, essas três partes compõem um todo estrutural, que funciona como um sistema. A articulação desses três conflitos aponta exatamente para o que mencionei anteriormente. Não há apenas burguesia e proletariado; não há apenas duas classes em conflito.

Há, como dito, um conjunto de classes dominantes e um conjunto de classes oprimidas. Exercendo a dominação em nossa sociedade temos esse conjunto de classes composto por: proprietários + burocracia + autoridades religiosas/comunicacionais/educativas (enfatizando que estou falando aqui, obviamente, das grandes religiões, empresas de comunicação e educação, ou seja, aquelas que em fato norteiam a produção de ideias na sociedade contemporânea). Conjunto que detém simultaneamente os meios de produção e distribuição, de administração e coerção, de comunicação e instrução; e que goza, ao mesmo tempo, de privilégios econômicos, políticos e intelectuais.

Sofrendo dominação em nossa sociedade, temos outro conjunto de classes composto por: proletários + camponeses (e povos tradicionais) + marginalizados, que são, juntos e concomitantemente, vítimas da exploração econômica, dominação político-burocrática, coação física e alienação intelectual. Há também um setor intermediário menos relevante entre esses dois amplos conjuntos de classes.

Assim, quando falamos de luta de classes, é preciso entender que ela pode se manifestar (e se manifesta) de duas maneiras diferentes. Um em particular, por exemplo, quando os assalariados de uma empresa enfrentam um determinado chefe. Outra, mais geral, que envolve os dois conjuntos mencionados acima: classes dominantes vs. classes oprimidas.

Caso você e outros colegas tenham interesse, podemos compartilhar um estudo que utiliza esses pressupostos teóricos para fazer uma leitura das classes sociais no Brasil contemporâneo. É bastante completo e muito interessante.

Essa concepção de classes sociais tem implicações que evidenciam as diferenças entre nossas posições e aquelas normalmente ligadas ao campo do marxismo. Especialmente quando consideramos a burocracia como classe dominante e, portanto, como inimiga de classe dos trabalhadores como burgueses ou latifundiários; o mesmo vale para os grandes líderes religiosos, os donos dos grandes conglomerados de mídia e educação - todos eles são inimigos de classe dos trabalhadores e devem ser combatidos igualmente para que o socialismo seja possível.

Esse socialismo também engloba esses três campos ou esferas: buscamos um socialismo integral, que não se restrinja à economia. Defendemos a socialização dos meios de produção e distribuição (do poder econômico), mas também da propriedade dos meios de administração e coerção (do poder político), e da propriedade dos meios de comunicação e instrução (do poder intelectual). Isso é o que entendemos como o fim do capitalismo, do Estado, das classes sociais. Ou seja, a socialização completa do poder social.

Sobre a proposta de uma "frente de classes oprimidas", posso dizer que, em nossa concepção, significa apenas, como geralmente significava para inúmeros anarquistas clássicos, o entendimento de que todos aqueles "de baixo" - trabalhadores assalariados, tanto do cidade e campo, tanto na indústria quanto nos serviços, trabalhadores precários, autônomos, marginalizados, assim como camponeses - devem ser levados em conta quando se trata de conceber um amplo projeto de transformação revolucionária como o proposto por nós.

Nesse aspecto é possível identificar outras divergências, agora com certos setores históricos do marxismo e até do anarquismo. Era comum, entre tais setores, conceber o capitalismo como modo econômico de produção e entender que sua base é urbana e industrial. Não há dúvida de que a economia é um campo/esfera central na sociedade capitalista, e que as cidades e as indústrias desempenham um papel muito importante no capitalismo. Mas o capitalismo é muito mais do que uma forma histórica de economia. É, como mencionei antes, um sistema que, além da economia, inclui o Estado e as ideias fundamentais para legitimar as relações sociais capitalistas.

Portanto, não há dúvida de que os trabalhadores urbanos e industriais são fundamentais para a luta e para uma revolução social. Agora, quando se afirma o "papel de liderança da classe trabalhadora e sua relação única com a produção durante a revolução socialista", isso tem diferentes possibilidades de interpretação. "Classe trabalhadora" pode significar exclusivamente o proletariado urbano e industrial - e aí, claro, essa posição não é nossa -, mas também pode significar classe trabalhadora em sentido amplo, termo que às vezes usamos, e que abrange todos os sujeitos Mencionado acima.

Se é verdade que os setores mais diretamente envolvidos na produção devem estar envolvidos em qualquer projeto revolucionário, quando este assunto é discutido em uma perspectiva global, ou mesmo quando se pensa em nossa realidade na América Latina, é inconcebível um projeto revolucionário anarquista que não não abrange o proletariado rural, camponeses, trabalhadores informais e até mesmo os marginalizados.

Acredito que neste momento seja necessário detalhar um pouco mais os termos que usamos, pois podemos estar falando da mesma coisa ou ter grandes diferenças.

Isso nos leva a outro ponto abordado na pergunta, sobre o voluntarismo analítico. Nossa posição, como se vê, não é voluntarista nem estruturalista. Entende que as estruturas desempenham um papel fundamental em nossa sociedade, construindo uma parte importante da realidade social. Mas também que a vontade, a ação humana, tem um papel relevante. Por mais crua que seja, gosto de pensar na realidade social como 70%-80% determinada estruturalmente e 30%-20% determinada por ações humanas voluntárias.

Parece-me que esta posição vai ao encontro da maioria das teorias sociais contemporâneas (das Ciências Sociais ou da História) que procuram conciliar estrutura e acção, dando mais peso à primeira do que à segunda, mas ao mesmo tempo fugindo do estruturalismo determinista e voluntarismo.

O século XX evidenciou que os argumentos de um certo setor do marxismo estavam errados, e que a posição de um importante grupo de anarquistas históricos era, de fato, a mais correta. Nesse período percebemos, ao observar as diferentes realidades econômicas e sociais do mundo, que a estrutura do capitalismo avançado não era suficiente para produzir, por si e automaticamente, sujeitos e processos revolucionários.

E mesmo quando olhamos para os países que tiveram e não tiveram revoluções, o que podemos ver é que o desenvolvimento das forças produtivas não criou ambientes revolucionários mais radicais ou com maior potencial do que nos chamados "atrasados" países onde ocorreram tais revoluções. Constatamos, ao mesmo tempo, que não há "estagismo", pelo qual as revoluções só podem ocorrer após um desenvolvimento avançado do capitalismo.

Embora deva ser observado que essas revoluções, a maioria das quais acabou construindo o que seria conhecido como "socialismo real", nem sequer socializaram ou iniciaram uma socialização consistente do poder econômico, para não falar do poder político ou intelectual. Não chegaram nem perto da emancipação dos trabalhadores, e nem se moveram nessa direção. Portanto, eles não podem ser tomados como modelos revolucionários de sucesso.

A posição de uma fração de uma classe, um grupo ou um indivíduo na estrutura da sociedade não é suficiente para torná-la mais ou menos revolucionária. Para isso, é essencial a ação, a consciência (ação de classe, consciência de classe), que, juntamente com os determinantes estruturais, produzirá esse novo sujeito revolucionário de que precisamos. Para uma transformação rumo ao socialismo autogestionário que defendemos, não basta fazer parte de uma estrutura desigual. É preciso que essa estrutura seja percebida como injusta, que se acredite na possibilidade de mudança. É essencial que as ações caminhem em uma determinada direção - precisamos de um projeto consistente. Os trabalhadores não se tornam sujeitos revolucionários sem engajamento nas lutas e na conscientização.

Por fim, gostaria de enfatizar que não estou priorizando "a relação de dominação sobre a relação com os meios de produção". Como assinalei, as relações de dominação, como as entendo, envolvem, abrangem relações com os meios de produção (no sentido marxista); a exploração, nesse sentido, é uma forma de dominação, como as outras que mencionei (dominação político-burocrática, coação física e alienação cultural). Mas vale lembrar que quando falo em dominação de classe, não estou restrito aos meios econômicos, mas também políticos e intelectuais.

Devo também observar que essa posição não confunde a dominação de classe com outras formas de dominação, como a dominação nacional (colonialismo/imperialismo), a dominação étnico-racial (racismo) e a dominação de gênero (patriarcado). A dominação assume muitas formas; a dominação de classe é uma delas - muito importante na sociedade capitalista, sem dúvida - e está relacionada a todas as outras formas mencionadas acima. Tal relação permite explicar a sociedade capitalista em suas múltiplas relações de dominação.

Também, na estratégia especifista , não há "priorização da conscientização sobre o confronto político sobre a produção". Nossa estratégia sempre se concentrou na construção e fortalecimento dos movimentos populares a partir de um programa específico que, em termos históricos, como já mencionei, está muito próximo do sindicalismo revolucionário. Não somos educadores e não defendemos prioridade na propaganda. Nosso foco está no trabalho regular e diário, na construção de lutas sindicais, comunitárias, agrárias, estudantis, femininas, LGBT, negras, indígenas, etc. baseadas em nosso programa. A luta nos espaços de trabalho industriais e urbanos está incluída em nossa estratégia, mas vai além. Não apenas pelo cenário econômico e social brasileiro, mas até mesmo em uma perspectiva global.

março de 2022

1 Site da OASL: https://anarquismosp.wordpress.com/ . Site do CAB: https://cabanarquista.org/ . Declaração de Princípios do CAB (em inglês): https://www.anarkismo.net/article/23028 .

2 Sobre a história da FAU (em inglês), ver: https://www.anarkismo.net/article/32515 . Sobre a estratégia do anarquismo especifista , veja a longa entrevista que fiz com Juan Carlos Mechoso, militante histórico da FAU (em inglês): https://theanarchistlibrary.org/library/juan-carlos-mechoso-uruguayan-anarchist-federation-fau- a-estratégia-do-especifismo .

3 Site do IATH: https://ithanarquista.wordpress.com/ . Site da Faísca: http://editorafaisca.net/ .

4 Em: https://www.anarkismo.net/article/32540 .

5 "Huerta Grande" (em inglês) pode ser lido em: https://blackrosefed.org/huerta-grande/ . Sobre as posições de Malatesta a este respeito, ver o capítulo "Anarquismo e Ciência" da compilação Errico Malatesta: Life and Ideas , organizada por Vernon Richards: https://libcom.org/files/Malatesta%20-%20Life%20and%20Ideas .pdf .

6 O texto em que Osugi Sakae faz essa afirmação está parcialmente disponível (em inglês) na antologia Anarchism: a documental history of libertarian ideas ", vol. 1, organizado por Robert Graham (Black Rose Books, 2005).

7 Sobre este e outros argumentos de Ibáñez, ver minha resenha de seu artigo "Por un Poder Político Libertario" (em inglês): https://www.anarkismo.net/article/19736 .

8 Sobre esse argumento, ver meu artigo "Anarchist Theory and History in Global Perspective" (em inglês): https://ithanarquista.wordpress.com/2021/12/15/felipe-correa-anarchist-theory-and-history- in-global-perspective/ .

9 O artigo acima mencionado "Anarchist Theory and History in Global Perspective" fornece um resumo deste livro.

10 Infelizmente, são poucos os escritos em inglês desses autores contemporâneos.

11 Estas são algumas das conclusões de uma pesquisa que realizei ao longo de dois anos sobre o ressurgimento global do anarquismo, anarco-sindicalismo e sindicalismo revolucionário entre 1990 e 2019. Os resultados desta pesquisa podem ser encontrados no capítulo "The Global Revival of Anarchism and Syndicalism (1990-2019)", do livro The Cambridge History of Socialism: a global history in two volumes , editado por Marcel Van der Linden (Cambridge, 2022) e no "Dossier Contemporary Anarchism: anarchism and sindicalism in the whole" mundo (1990-2019)": https://ithanarquista.wordpress.com/contemporary-anarchism/ .

https://www.redblacknotes.com/2022/04/26/elements-of-anarchist-theory-and-strategy-an-interview-with-felipe-correa
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